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Série conta história do médium João de Deus, condenado por abusos sexuais

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21.06.2020 - 12:38:41

Goiânia – A história do médium condenado na Justiça a 19 anos de prisão por abusos sexuais e outros crimes João de Deus será o tema de uma nova série documental da Globoplay. A série estreia na terça-feira (23) depois de Aruanas na TV Globo, e ao mesmo tempo na plataforma de streaming. A obra também será exibida pelo Canal Brasil, parceiro do projeto.

A série de seis episódios começa mostrando um pouco da fama do médium (amigo dos poderosos, bon vivant entre os famosos e com trânsito entre personalidades internacionais) e depois explicando as descobertas da produtora e roteirista Camila Appel, do programa Conversa com Bial, sobre diversos indícios de abuso sexual por parte do médium.

A apuração começou quando Bial se recusou a ir até Abadiânia, em Goiás, onde o médium mantinha um centro de atendimentos espirituais, como condição para uma entrevista de João de Deus no Conversa com Bial. “Ele falava que tudo o que ele pedia para quem ia até lá era fé, e isso eu não podia dar”, diz o apresentador, no documentário.

Camila Appel então começou a conversar com uma conhecida sua que havia trabalhado no centro, que repassou a ela rumores e informações sobre abusos sexuais cometidos pelo médium. Ela conseguiu encontrar vítimas brasileiras, que não se sentiam a vontade para aparecer em frente às câmeras, muitas vezes se sentindo ameaçadas – pela estrutura de poder (criminosa, como ficou comprovado mais tarde) e até pela espiritualidade de João de Deus.

Até ela entrar em contato com a bailarina holandesa Zahira Lieneke Mous, que havia sofrido a violência do médium em Goiás e deu um depoimento corajoso, gravado, ao Conversa com o Bial. O programa foi exibido no dia 7 de dezembro de 2018, e foi a revelação necessária para que João de Deus fosse seriamente investigado, condenado e preso. Em março, ele foi autorizado a mudar para o regime domiciliar por conta da pandemia do novo coronavírus.

O documentário mais tarde conseguiu reunir outras vítimas em uma roda de conversa, exibido em alguns dos episódios, e certamente um dos momentos mais emocionantes da série. “Fazer o convite para essas mulheres falarem era fazer um convite para relembrar a dor”, explica a produtora, em coletiva de imprensa virtual realizada nesta sexta-feira, 19.

“É um convite difícil. O mínimo é ter empatia, tentar entender. Não oferecemos cura, não temos esse objetivo, mas acreditamos que mostramos que esse compartilhar da dor pode ser algo bonito.” Ela conta que se sentiu orgulhosa de poder mostrar e divulgar as informações no programa. “As mulheres questionavam que a gente não ia conseguir colocar, que não ia ser feito da maneira adequada. Mas foi, e foi um orgulho imenso.”

Bial conta que ainda está tentando entrevistar o médium, e que João de Deus se comprometeu a falar com o jornalista no programa. Ele diz também acreditar ser improvável que essa história acontecesse em outro lugar por tanto tempo, que não o Brasil. “Temos uma tradição histórica sebastianista, de buscar um salvador da pátria. O fato de as pessoas que iam até lá buscar ajuda se encontrarem em uma situação de desespero acrescenta mais uma camada de horror, ou seja, se aproveitar das pessoas no seu momento mais vulnerável”, diz. “O que está errado no nosso contrato social que um evento como esse pôde durar 50 anos?”, se questiona o jornalista. “Cada um de nós tem uma parte de culpa nesse processo.”

A produtora conta que as mulheres brasileiras, vítimas da violência sexual do médium, tinham muito medo da rede de proteção ao redor dele, da sua influência política e da possível violência contra suas famílias. “Mas até hoje existe um medo de retaliação espiritual. É muito difícil lidar com esse tipo de medo. Exige delicadeza lidar com a fé das pessoas. Foi um processo paciente, de muito tempo conversando sobre como a quebra do silêncio pode ser importante e que também existem consequências positivas. Existe uma cultura no Brasil muito forte de descredibilizar as vítimas”, lamenta.

Após o programa ser exibido, Camila conta que ficou impressionada em descobrir como essas mulheres já tinham tentado denunciar os fatos no passado. “Elas tentaram falar antes e não foram ouvidas. Temos o caso de uma menina que há mais de 10 anos o processou e ele foi inocentado. Uma mulher, em 2016, confrontou João de Deus e seu círculo mais próximo, fez boletim de ocorrência, fez denúncia online ao Ministério Público? e não houve consequências.”

Em um dos países mais violentos para jornalistas investigativos, especialmente no interior do Brasil, a segurança dos profissionais foi uma das preocupações da produção. Um dos diretores, Ricardo Calil, fala sobre ter ido até Abadiânia após as acusações terem sido mostradas no programa.

“A cidade tinha uma dependência muito forte dele, econômica e espiritual. Muita gente mudou de vida, abriu pousadas, negócios, etc. Como o programa do Bial foi o que trouxe a primeira denúncia, havia naturalmente uma certa mágoa. A gente teve de chegar lá com muita cautela, para vencer essa barreira inicial. Ouvimos uma certa quantidade de nãos, mas com delicadeza e disciplina, fomos chegando a pessoas importantes e próximas dele, como seu advogado.”

Em Nome de Deus tem direção de conteúdo de Fellipe Awi e direção de Monica Almeida, Gian Carlo Bellotti e Ricardo Calil. Bial acredita ser improvável imaginar que todas as denúncias viriam à tona se o movimento #MeToo não tivesse ocorrido nos Estados Unidos, começando em 2016. “Houve reflexos no mundo todo, e aqui no Brasil também, de uns anos para cá.”

A reportagem também reaproximou o apresentador do “furo” jornalístico – Bial tem uma carreira consolidada no jornalismo antes de explorar o entretenimento na TV, especialmente nos anos em que ficou a frente do Big Brother Brasil.

“Em 2018, eu era um profissional melhor informado sobre a linguagem de televisão e também do cinema. Essa responsabilidade chegou num momento da minha vida em que eu tinha instrumentos para construir a condução e saber como transmitir essa investigação. Buscamos narrar coisas terríveis sem dramatizar o já trágico. Fiquei muito orgulhoso de ter conseguido pôr no ar, de termos conseguido fazer um programa digno, à altura da coragem e da dignidade daquelas mulheres.” (Agência Estado)

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por Mônica Parreira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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