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Sentar-se na Escuridão

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24.06.2025 - 09:00:00


A floresta tropical à noite pulsa vida e mistério (Imagem gerada por IA).

Gosto de escrever. Não que escrever seja sempre uma ida ao parque de diversões. Não é. Gosto, mas fujo. Fujo por uma mistura de razões: por medo de me expor, por medo de ser julgado, por medo de dizer besteira, por medo de não conseguir, por medo de não estar à altura das minhas próprias expectativas — por vaidade, por narcisismo.
 
Quanto menos paro para julgar o resultado, melhor a sensação — e, geralmente, melhor o próprio resultado. Claro que, em algum momento, é preciso pausar e avaliar, mas quanto mais consigo manter essas duas operações completamente separadas, mais fácil se torna o processo. É o julgamento antecipado que leva à fuga ou ao bloqueio.
 
Nada disso, entretanto, tem sido uma barreira definitiva. Quando chega a hora, sento e escrevo. O que tenho achado realmente difícil, ultimamente, é a obrigação de ter opiniões. Não deixa de ser, em alguma medida, parte do ofício. É praticamente impossível evitar. E, quase sempre, os textos mais comentados são justamente aqueles em que expresso opiniões mais duras ou incisivas. É também parte do nosso modo de ser, da cultura ocidental: avaliar, julgar, sentenciar. Afinal, em sociedades que valorizam tanto o progresso, a mudança e o aperfeiçoamento, é necessário avaliar o que temos, rever escolhas feitas e buscar melhorar as decisões futuras.
 
Mas a internet — e a vertiginosa velocidade das informações — parecem ter criado uma espécie de patologia da opinião. É preciso formar juízo de valor rapidamente, antes que apareça a próxima imagem, o próximo meme, a próxima polêmica. Quanto mais o caos nos é esfregado na cara, mais parece que precisamos expressar opiniões para, ansiosos, quem sabe, manter algum fiapo de sentido no mar de individualismo e relativismo.
 
Fui uma criança muito imaginativa, fantasiosa e medrosa. O mundo do lado de fora era ameaçador diante da minha imaginação de rédeas soltas. A realidade nunca parecia corresponder às aparências fáceis. Por dentro, a baixa autoestima sempre me fez duvidar de mim mesmo. Minhas ideias estavam provavelmente erradas. Me afirmar perante os outros seria me expor ao ridículo e à censura. Dentro e fora, nunca houve, portanto, muito espaço para certezas.
 
Todavia, à medida que amadureci um pouco, o que sempre fora uma fonte de angústia — a dúvida sobre o mundo e sobre mim mesmo — revelou-se também uma arma: foi o que me tornou alerta contra o egocentrismo, me fez curioso, gerou um interesse genuíno pelo outro, aguçou minha biofilia — para usar a expressão do biólogo Edward Wilson, que afirma que nós, humanos, sentimos uma atração inata pela vida.
 
Tornei-me uma pessoa da dúvida, mais que da certeza. Aliás, desconfio profundamente das certezas — sobretudo daquelas mais arraigadas e prepotentes. Indagar me parece muito mais frutífero do que oferecer respostas. Afinal, perguntas expandem o horizonte; afirmações, muitas vezes, o estreitam.
 
Assim, o que foi fonte de sofrimento durante muito tempo é hoje uma possibilidade de conexão e de pacificação com o mistério. Há uma passagem tão bonita quanto célebre — e frequentemente citada — do mesmo Edward Wilson, em seu livro A Diversidade da Vida, em que ele descreve uma tempestade noturna na Amazônia e reflete sobre a relação entre o impulso pelo conhecimento e o mistério:
 
“A tempestade cresceu até que relâmpagos em cortina se espalharam pelo céu ocidental. A pesada nuvem se ergueu como um monstro desengonçado em câmera lenta, inclinando-se para frente e encobrindo as estrelas. A floresta explodiu numa simulação de vida violenta. Raios romperam à frente e depois mais perto, à direita e à esquerda, com 10.000 volts descarregados por uma trilha ionizante a 800 quilômetros por hora e lançando uma contracorrente para o alto dez vezes mais rápida, indo e voltando num piscar de olhos — tudo percebido como um único clarão e estrondo. O vento ficou mais fresco e a chuva avançou pela floresta como uma presença viva.”
 
(…)
“Os mistérios não respondidos da floresta tropical são amorfos e sedutores. São como ilhas inominadas escondidas nos espaços em branco de velhos mapas, formas escuras que mal se vislumbram deslizando pela parede distante de um recife rumo ao abismo. Eles nos atraem e despertam estranhas apreensões. O desconhecido e o prodigioso são drogas para a imaginação científica, despertando uma fome insaciável com um único sabor. No fundo do coração, esperamos nunca desvendar tudo. Rezamos para que continue a existir um mundo como este, em cujo limiar eu me sentava na escuridão. A floresta tropical, em sua riqueza, é um dos últimos repositórios desse sonho atemporal.”
 
Nada mais contraintuitivo do que um dos maiores cientistas de nosso tempo afirmar que o conhecimento só tem graça se a escuridão for ainda maior. Mas, sem a dúvida, não há curiosidade — e, sem curiosidade, não há razão para conhecer. Sem a dúvida, perdemos o sentido da própria conexão com o outro. Sem a dúvida, a vida perde todo o seu sabor de aventura.
 
É claro que a pura dúvida talvez seja a própria definição da angústia. Ninguém sobrevive só nela. Paradoxalmente, entretanto, quanto mais complicada parece a realidade, quanto mais difícil explicar e atribuir sentido, mais parecemos forjar certezas — ou nos aferrar a qualquer farrapo delas.
 
A condição humana é precisamente esse paradoxo entre a certeza e o mistério. Encontrar um equilíbrio entre os dois é o próprio desafio que move a vida. A ambição deve ser a de nos tornarmos o velejador de Chesterton — o pensador católico britânico — que se perde no mar e retorna à sua terra natal imaginando ter chegado a uma ilha selvagem. Ele está, ao mesmo tempo, em casa e numa grande aventura.
 
Acho que nos faria bem tomar a incerteza do tempo como uma bênção — e estarmos mais em paz com ela, emitindo menos opiniões e deixando de sufocar as perguntas.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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