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Senado não pune quem comete delitos, diz Randolfe

14.04.2012 - 16:01:12
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José Cácio Júnior

O trabalho do Conselho de Ética do Senado, que quer cassar o mandato do senador Demóstenes Torres (sem partido), pode ser em vão. Foi o que afirmou o senador Randolfe Rodrigues (PSol-AP) em visita a Goiânia neste sábado (14/4) para participar de um seminário sobre corrupção promovido pelo PSol e PCB. O senador lembrou o histórico da Casa de não punir quem tenha cometido infrações.
 
“Lamentavelmente, a tradição do plenário do Senado não tem sido de responsabilizar e punir quem comete delitos”, afirmou Randolfe. O sentimento negativo se explica pelo fato de a votação em plenário para cassar o mandato de um senador ser secreta, o que torna cômoda a absolvição de Demóstenes.
 
Randolfe também comentou relação que tinha com Demóstenes antes e depois de a operação Monte Carlo da Polícia Federal (PF) ter pego o senador goiano utilizando sua influência política para legislar em favor do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso pela PF acusado de comandar quadrilha que explora jogos de azar em Goiás.
 
“Eu tinha uma admiração política pelo senador Demóstenes. E uma aproximação profunda entre eu, ele e o senador Pedro Tarques (PDT-MT)”, resume o senador. Randolfe ainda negou que a pré-candidatura do vereador Elias Vaz (PSol) à prefeitura de Goiânia seja prejudicada pelo fato de Elias ter participado de uma reunião com outros três vereadores e Cachoeira para discutir a reforma do Parque Mutirama. O ex-presidente da Câmara de Goiânia Wladmir Garcez (PSDB) e o ex-chefe de gabinete do prefeito de Goiânia Paulo Garcia, Cairo de Freitas, também estavam na reunião.
 
Confira a entrevista concedida por Randolfe durante a visita.
 
Qual o motivo da visita a Goiânia?
Vim atender ao convite do diretório estadual do PSol para discutirmos mecanismos de combater à corrupção. É um ingrediente indispensável em qualquer programa político. A corrupção é uma forma de privatização do Estado brasileiro há muito tempo. É um triste legado do patrimonialismo de achar que o que é público pode ser apropriado como se fosse privado. Então considero indispensável que os programas políticos das candidaturas que se apresentam ao processo eleitoral tenham um item de enfrentamento ao problema da corrupção.
 
Qual análise o sr. faz das investigações da operação Monte Carlo?
Revela a existência de uma rede criminosa. Lamentavelmente cumplicia a política, autoridades da República, com empresas privadas. É uma das facetas do Estado brasileiro. A operação é mais uma revelação tal qual tantas outras operações da Polícia Federal que demonstra cabalmente que o Estado é apropriado por alguns agentes privados que acreditam que a máquina pública pode ser acessório de seus negócios.
 
O momento é propício para discutir a reforma política com mais ênfase?
Se não tiver financiamento público isso [corrupção] continuará existindo. [A operação] Mostra porque eu percebo que na Câmara dos Deputados e no Senado se corre da ideia de financiamento público assim como o diabo corre da cruz. O financiamento público é um mecanismo de controle social. Iguala os políticos mais pobres e os mais ricos. Em segundo lugar, apresenta concretamente à sociedade a proposta de financiamento de campanha. A reforma política não poderia ter nada. Mas se tivesse o financiamento público, no meu entender, já seria um salto revolucionário na política brasileira.
 
Qual é o clima no Senado depois de o senador Demóstenes ter declarado que irá provar sua inocência?
Realmente foi uma surpresa a presença do senador Demóstenes. Mas, para mim, a melhor definição do senador foi feita por ele próprio, quando disse há duas semanas que ele não é mais o senador Demóstenes.
 
O sr. já teve aproximação ou combinou uma ação política conjunta no Senado com Demóstenes?
Tínhamos mais que uma parceria. Eu tinha uma admiração política pelo senador Demóstenes. E uma aproximação profunda entre eu, ele e o senador Pedro Tarques (PDT-MT). Eu e o Pedro Tarques o procuramos na primeira denúncia, sobre a cozinha [de R$ 47 mil que ganhou de presente de aniversário de Cachoeira]. Não tenho constragimentos nenhum de dizer que nos solidarizamos, já que a história do senador Demóstenes dava crédito. Há duas semanas, com o aprofundamento das denúncias, nós não tivemos mais contato. Acredito também que foi uma opção dele de não nos procurar e defender seu mandato.
 
Está claro que o Conselho de Ética deve pedir a cassação do mandato de Demóstens. E no plenário, onde a votação é secreta, o sr. acredita que ele será cassado ou absolvido?
Lamentavelmente nós temos duas instituições não-republicanas no parlamento. A primeira é o malfadado foro privilegiado. É um foro de privilégio mesmo. E o segundo é o voto secreto, que não poderia existir para situações como essa. Lamentavelmente a tradição do plenário do Senado não tem sido de responsabilizar e punir quem comete delitos. Eu espero que o Senado ouça o que diz a opinião pública. Sou suspeito para assim alegar, pois o PSol entrou com a representação pedindo a perda do mandato do senador Demóstenes. Não existem mais condições para a permanência de Demóstenes no Senado. Está claro que houve uma flagrante quebra do decoro parlamentar.
 
O sr. tem comandado um movimento nacional de combate à corrupção que começou depois do vazamento do suposto relacionamento de políticos goianos com Carlinhos Cachoeira. E o vereador Elias Vaz participou de uma reunião com o empresário. O partido continua apoiando a pré-candidatura de Elias à prefeitura de Goiânia?
Temos total apoio, solidariedade e confiança ao vereador Elias Vaz. Conhecer não é crime. Crime é se cumpliciar, atuar em organização criminosa. O vereador Elias fez exatamente o inverso. Ele denunciou a atuação aqui dos negócios do sr. Carlos Cachoeira. Ele foi a essa reunião para desmontar a expectativa de fraudes ao erário público. É totalmente distinta a relação neste caso. Por parte do vereador há denúncias sobre esses casos de corrupção.
 
O sr. é a favor da liberação de bingos e jogos de azar no Brasil?
Eu sou contrário, mas eu considero hipócrita a argumentação de que o central da investigação é o jogo. Nesta história do sr. Carlos Cachoeira o principal não é o jogo. E é por isso que temos confiança na atuação do vereador Elias. O central que foi desvendado é a dilapidação do erário. É o esquema de corrupção envolvendo empreiteiras que buscavam até fraudar licitações que envolviam até a Copa do Mundo de 2014. Não vamos restringir tudo às questões do jogo.
 
E não sabemos nem a metade do esquema que de fato existe. Saberemos com a CPMI que foi montada. Ou pelo menos esperamos saber. Porque já começou mal. Começa com o fato de o objeto central não ser a relação de agentes privados com jogos de azar e em fraudes de licitações com agentes públicos. Também começa estabelecendo que terá 15 membros, quando com 17 possibilitaria a participação do PSol. Eu quero acreditar que uma CPMI é um mecanismo para descobrirmos as facetas e detalhes que estão por trás da operação Monte Carlo. CPI tem que ser para valer. Não pode ser para blindar uns e proteger outros. Não pode ser CPI para levantar cortina de fumaça sobre o mensalão e fazer vingança com os algozes anteriores. Queremos a responsabilização de todos, sejam eles cachoeirentos ou mensaleiros.
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por Larissa Lessa

*Jornalista, repórter do jornal A Redação

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