Samuel Straioto
Goiânia – A campanha para as eleições de outubro de 2026 não começou oficialmente. A lei não permite, as convenções partidárias ainda não aconteceram e os candidatos sequer foram oficialmente registrados. Mas quem percorreu os principais eventos públicos de Goiás nas últimas semanas encontrou, com uma regularidade que não deixa margem para dúvida, os mesmos rostos: pré-candidatos ao governo do estado e ao Senado Federal circulando pelos mesmos ambientes, frequentando as mesmas festas, fotografando nos mesmos palanques improvisados, e publicando tudo nas redes sociais com a velocidade de quem sabe exatamente o que está fazendo.
Do Totus Tuus, realizado no Serra Dourada, em Goiânia, à Pecuária de Goiânia; do Festival Italiano de Nova Veneza às Cavalhadas de Jaraguá; da Agro Capital ao desfile cívico de Senador Canedo… A agenda pública dos pré-candidatos de diferentes espectros políticos converge sistematicamente para os mesmos ambientes. A conclusão é quase inevitável: a pré-campanha está intensificada.
Existe uma razão técnica e jurídica para a cautela no vocabulário. A legislação eleitoral brasileira distingue de forma precisa o que é permitido antes do período oficial de campanha — que só se inicia após as convenções partidárias, previstas para acontecer entre abril e junho de 2026 — e o que configura campanha antecipada, prática vedada pelo Código Eleitoral e pela Lei das Eleições.
“A lei proíbe campanha antecipada, que é definida como a captação de votos antes do prazo legal. Mas participar de eventos públicos, cumprir agendas institucionais, manter presença nas redes sociais e construir relacionamentos políticos não é, por si só, campanha antecipada”, explica a advogada eleitoralista Renata Borges. “O que a Justiça Eleitoral observa é se há pedido explícito de voto, divulgação de número de candidato ou promoção eleitoral com finalidade clara de obter apoio. Fora disso, a movimentação é, em geral, lícita.”
É exatamente nessa brecha — ampla o suficiente para comportar uma agenda de campanha quase completa — que os pré-candidatos goianos operam. A diferença entre “fazer política” e “fazer campanha” tornou-se, na prática, uma questão de semântica. O conteúdo é idêntico. O nome muda.
“O que muda entre a pré-campanha e a campanha oficial é, basicamente, o rótulo e a regulação do financiamento”, observa a cientista política Fernanda Lemos. “Os candidatos já estão construindo narrativa, reforçando vínculos com bases eleitorais, testando mensagens e ocupando territórios simbólicos. Isso é campanha em qualquer análise política séria.”
Evento religioso
Nenhum evento revelou com mais clareza a natureza estratégica dessa movimentação do que o Totus Tuus. Realizado no dia 30 de maio no Estádio Serra Dourada, em Goiânia, o festival católico, que a partir desta edição integra o Calendário Nacional de Manifestações Culturais do Brasil, reuniu dezenas de milhares de fiéis e, não por acaso, praticamente toda a cúpula da política goiana.

Estiveram presentes Gracinha Caiado, pré-candidata ao Senado pelo PL; Daniel Vilela, pré-candidato ao governo pelo MDB e atual governador do estado; Marconi Perillo, pré-candidato ao governo pelo PSDB; Wilder Morais, pré-candidato ao governo pelo PL; Vanderlan Cardoso, pré-candidato ao Senado pelo PSD; e Bruno Peixoto, presidente da Assembleia Legislativa e cotado para compor a chapa de Daniel Vilela como candidato a vice-governador. A lista cobre praticamente todo o espectro político do estado — do campo governista à oposição, do PSD ao PL, do MDB ao PSDB.

A presença em massa não é coincidência. O Totus Tuus reúne um perfil eleitoral muito específico: famílias católicas praticantes, em geral com forte enraizamento comunitário, elevada taxa de participação eleitoral e sensibilidade a valores como família, tradição e religiosidade. É um público que nenhum candidato experiente ignora — e que todos, independentemente de filiação partidária, trataram de frequentar.
“Eventos religiosos de massa são ambientes politicamente preciosos porque criam uma associação emocional entre o político e algo que o eleitor considera sagrado”, analisa Fernanda Lemos. “O político não precisa fazer discurso. A presença já comunica pertencimento, identificação e respeito. É um tipo de marketing político que funciona exatamente porque não parece marketing.”

O campo como território eleitoral
Se o Totus Tuus concentrou a movimentação religiosa, o agronegócio funcionou como arena paralela e igualmente estratégica. A Agro Capital e a Pecuária de Goiânia reuniram presenças relevantes e revelaram uma disputa silenciosa pelo eleitorado rural — um dos mais organizados e fiéis do estado.
Gracinha Caiado construiu presença consistente nos dois eventos. Na Agro Capital, o discurso foi elaborado: valorização do produtor rural, destaque para o avanço da presença feminina no campo e evocação de sua trajetória como produtora rural e como primeira-dama de um governo que se notabilizou pelo apoio ao setor. A mensagem posiciona sua candidatura ao Senado com um perfil claro, dirigido a um segmento específico e politicamente articulado.
No mesmo evento, José Mário Schreiner, liderança do setor agropecuário e aliado do campo governista que tenta se viabilizar como nome a vice de Daniel Vilela, tentou se movimentar em base que tem bastante representatividade.
“A presença de lideranças políticas em feiras agropecuárias não é só simbólica. O setor é financeiramente organizado, tem capacidade de mobilização e representa uma fatia eleitoral que historicamente define eleições em Goiás”, observa Renata Borges. “Quem aparece nesses espaços com consistência, e não apenas em ano eleitoral, constrói credibilidade entre seus apoiadores.”
O governador Daniel Vilela também marcou presença na Pecuária de Goiânia, assim como outros políticos. Borges avalia que a participação de um governador em exercício em eventos do setor tem dupla natureza: é, ao mesmo tempo, cumprimento de agenda institucional e construção de memória afetiva com um público que terá papel central nas eleições de outubro.

A festa como laboratório
O Festival Italiano de Nova Veneza converteu-se em um dos eventos mais disputados entre os pré-candidatos goianos nas últimas semanas. Daniel Vilela, Marconi Perillo, Bruno Peixoto e Wilder Morais estiveram presentes. A sobreposição de agendas em um único festival cultural de alcance regional revela o quanto esses espaços se tornaram laboratórios de imagem política.
A dinâmica é bem conhecida pelos estrategistas eleitorais: festivais culturais humanizam o político, aproximam-no de tradições locais e geram conteúdo visual com alto potencial de circulação orgânica nas redes sociais. Wilder Morais participou da tradicional pisa da uva. Marconi Perillo registrou sua presença com ênfase nas raízes italianas que o evento celebra. Bruno Peixoto posou ao lado do governador e do prefeito local, reforçando uma lógica de alinhamento que terá importância na composição da chapa majoritária.
“Festas culturais criam um contexto onde a política aparece de forma natural, quase inevitável. O candidato está lá como cidadão, como alguém que compartilha aquela tradição. Esse tipo de presença constrói um tipo de capital político que o palanque formal raramente consegue”, afirma Fernanda Lemos.
A agenda cultural de Wilder Morais foi particularmente intensa. O pré-candidato ao governo pelo PL esteve nas Cavalhadas e na Festa do Divino Espírito Santo em Pirenópolis, participou do 10º Encontro Nacional de Carros Antigos em Jataí, comemorou os 131 anos de aniversário da cidade e ainda esteve no Festival de Nova Veneza. A amplitude geográfica da agenda — que cobre desde municípios do sudoeste goiano até o interior histórico e a capital — traça um mapa deliberado de cobertura territorial.

O interior como prioridade
Enquanto parte dos pré-candidatos concentra esforços nos grandes eventos da capital, outros apostam em uma estratégia diferente — e potencialmente mais eficiente para determinados perfis: a presença capilar no interior do estado.
Gustavo Mendanha, pré-candidato ao Senado pelo PRD em aliança com o Solidariedade, optou por uma agenda marcada por entrevistas em rádios do interior. A escolha não é casual. Emissoras de rádio AM e FM em cidades médias e pequenas de Goiás ainda têm penetração considerável em públicos que consomem pouco conteúdo digital, e a presença em programas locais constrói familiaridade de uma forma que postagens em redes sociais raramente conseguem replicar.
Zacharias Calil, pré-candidato ao Senado pelo MDB, apostou em agendas institucionais: participou do programa “Deputados Aqui”, promovido pela Assembleia Legislativa de Goiás, e visitou a Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia. O formato é diferente — mais sóbrio, mais institucional —, mas a lógica é a mesma: criar pontos de contato com lideranças locais, vereadores e gestores municipais que terão papel relevante na construção das bases eleitorais.
Oseias Varão, vereador de Goiânia e pré-candidato ao Senado pelo PL, foi ainda mais específico em sua estratégia. Em visita a Bom Jesus, no interior goiano, participou de um almoço com o pastor Wagno Miranda, presidente local da Assembleia de Deus Madureira, e com o prefeito da cidade. A reunião concentra em um único encontro dois dos principais vetores de capital político no interior do Brasil: a liderança religiosa evangélica e a gestão municipal. Varão busca consolidar a segunda vaga na chapa majoritária do PL em Goiás, ao lado de Gustavo Gayer, e a estratégia de base evangélica e interiorana é coerente com esse objetivo.
“A conquista de lideranças intermediárias — prefeitos, pastores, presidentes de associações, vereadores — é um dos trabalhos mais importantes da pré-campanha e um dos menos visíveis para o público geral”, aponta Renata Borges. “Esses atores funcionam como multiplicadores. Quando decidem apoiar um candidato, carregam com eles redes de influência que podem ser decisivas em municípios menores.”
Campos distintos, estratégias convergentes
Uma das características mais reveladoras dessa pré-campanha silenciosa é a convergência de candidatos de campos políticos opostos nos mesmos ambientes. No Totus Tuus, estiveram lado a lado — sem necessariamente dividir o palanque, mas ocupando o mesmo espaço simbólico — nomes do PL, do MDB, do PSDB e do PSD. Na Pecuária de Goiânia e no Festival de Nova Veneza, o padrão se repetiu.
Gustavo Gayer, deputado federal pelo PL e pré-candidato ao Senado, cumpriu uma agenda que mistura o religioso e o popular com desenvoltura: participou das Cavalhadas de Jaraguá, esteve no aniversário de Marcelo Baiocchi, presidente da Fecomércio, marcou presença na Marcha para Jesus em Anápolis e no Totus Tuus em Goiânia. A combinação de eventos evangélicos, católicos e empresariais revela uma estratégia de ampliação de base que vai além do nicho conservador onde sua candidatura tem origem.
“Quando candidatos de posições políticas distintas frequentam os mesmos eventos, isso revela algo importante sobre o funcionamento da política: certos espaços são neutros o suficiente — ou amplos o suficiente — para acomodar diferentes projetos sem que a presença implique alinhamento ideológico”, analisa Fernanda Lemos. “Feiras agropecuárias, festivais culturais e celebrações religiosas funcionam como territórios comuns onde a disputa acontece de forma velada.”
Já Humberto Teófilo (Novo) definiu uma estratégia que é muito comum no período de campanha, ou seja, o corpo a corpo em feiras livres. O pré-candidato ao Senado visitou uma série de feiras livres na capital e também em Aparecida. Para Lemos, a estratégia se dá em virtude do curto tempo de campanha eleitoral, apenas 45 dias para que o candidato tenha contato com o eleitor e apresente suas propostas.
As redes como extensão do palanque
A presença nos eventos físicos é apenas metade da estratégia. A outra metade acontece nas redes sociais, onde cada agenda é transformada em conteúdo, cada aparição é documentada e cada discurso é editado para alcançar públicos que não estiveram presentes no evento original.
As publicações dos pré-candidatos nas últimas semanas seguem um padrão identificável: texto em primeira pessoa, tom emocional associado ao evento (fé, tradição, desenvolvimento, orgulho regional), menção a lideranças locais presentes e encerramento com uma frase que, sem pedir voto, projeta uma narrativa de comprometimento com Goiás.
Gracinha Caiado descreveu sua presença no Totus Tuus como um momento que “toca a alma”. Daniel Vilela falou em “experiência de profunda emoção”. Marconi Perillo registrou a “alegria” de reencontrar amigos. Wilder Morais destacou o “orgulho” de ver tradições sendo preservadas. As palavras variam; a estrutura é a mesma.
“As redes sociais transformaram a pré-campanha em um fenômeno contínuo. Antes, o político precisava ir ao evento e esperar que a cobertura da imprensa local repercutisse. Hoje, ele mesmo produz e distribui o conteúdo, com alcance potencialmente maior e controle total sobre a mensagem”, observa Renata Borges. “Do ponto de vista jurídico, isso também cria zonas cinzentas: quando uma publicação regular de um pré-candidato começa a funcionar como propaganda eleitoral? A Justiça Eleitoral ainda está construindo jurisprudência sobre isso.”
O que a lei diz?
A Lei nº 9.504/1997, conhecida como Lei das Eleições, proíbe a realização de campanha eleitoral fora do período legal. A propaganda eleitoral só pode começar no dia 16 de agosto do ano eleitoral. Antes disso, é vedado pedir votos, divulgar número de candidato, distribuir material de campanha ou realizar atos que configurem promoção pessoal com finalidade eleitoral.
O que a lei não proíbe — e o que os pré-candidatos exploram com maestria — é a simples presença pública. Participar de eventos, dar entrevistas, publicar nas redes sociais sobre atividades do mandato ou sobre eventos que frequentaram, reunir-se com lideranças políticas e religiosas: tudo isso é, em princípio, lícito.
“A fronteira entre construção de imagem e campanha antecipada é genuinamente difusa, e os tribunais eleitorais têm aplicado critérios variados ao longo dos anos”, explica Renata Borges. “O que se observa na prática é que a pré-campanha virou uma fase consolidada do processo eleitoral brasileiro, e a legislação ainda não encontrou uma forma eficaz de regular o que acontece nesse período.”
O resultado é um ambiente onde a campanha acontece plenamente — com estratégia, segmentação de público, construção de narrativa e disputa por território —, mas sem o nome e sem as restrições que o nome acarretaria.
O que vem pela frente?
As eleições de outubro de 2026 ainda estão a alguns meses. As convenções partidárias, que definirão os candidatos oficiais, devem ocorrer entre 20 de julho e 5 de agosto. Até lá, a pré-campanha seguirá seu curso — nos festivais , nas feiras do agronegócio, nos aniversários de municípios, nas inaugurações de obras, nas celebrações religiosas e, inevitavelmente, nas redes sociais.
O cenário eleitoral goiano ainda tem muitas definições pela frente. As alianças não estão totalmente fechadas, as chapas majoritárias não foram formalizadas e o quadro de candidatos ao governo e ao Senado pode mudar consideravelmente até as convenções. Mas uma coisa já está clara: quem soube aparecer nas festas certas, ao lado das pessoas certas, com a mensagem certa, pode sair à frente durante a campanha.
“Capital político não se constrói em campanha. Campanha apenas o converte em votos”, resume Fernanda Lemos. “O que estamos vendo agora em Goiás é exatamente esse processo de construção — silencioso, constante e estrategicamente planejado. A campanha oficialmente não começou. Mas já está em pleno andamento”, finalizou Lemos.
