No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle.
Argumentei que essas duas visões são a repetição enfadonha de uma mesma narrativa com sinal trocado: a absolutização da tecnologia e sua conversão em sujeito da história. Em comum, além da mesma estrutura narrativa, os dois olhares têm um efeito similar: eles nos paralisam por eliminarem qualquer espaço para a agência humana e para a política. Tanto faz se a tecnologia nos mata ou nos salva. O futuro já está decidido e não podemos ou não precisamos fazer nada.
Um livro recém-lançado nos Estados Unidos e na Inglaterra utiliza essa mesma oposição para refletir, de forma estimulante, sobre a crise ambiental. Despite it all: a handbook for climate hopefuls — que poderíamos traduzir livremente como “Apesar de tudo: um manual para os esperançosos climáticos” — foi escrito pelo jornalista científico inglês Fred Pearce, autor de vários livros sobre ciência e meio ambiente. Foram publicados no Brasil infelizmente apenas O Aquecimento Global — Causas e Efeitos de um Mundo mais Quente e Terra Ontem e Hoje.
José Eli da Veiga, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP, escreveu uma boa resenha sobre o lançamento no Valor Econômico, em que ressalta que “sua principal mensagem é a de que não há pior inimigo que o pessimismo paralisante”.
Todavia, conforme dito, acredito que o otimismo pode ser igualmente paralisante. Esse jogo de espelhos contraproducente entre as duas visões se evidencia de maneira ainda mais clara quando olhamos para a crise ambiental.
A visão de Pearce, entretanto, não é cegamente otimista — e sim a de uma esperança cautelosa, exatamente o tipo de enquadramento do problema a meio caminho que nos convoca à ação política, retirando-nos da paralisia em suas versões apocalíptica ou redencionista. Diz ele: “Nada neste livro é uma defesa da complacência. Meu objetivo é lançar luz sobre soluções e oferecer esperança em tempos sombrios. Pessimismo demais pode ser o inimigo da própria ação de que precisamos tão urgentemente”.
Os livros anteriores de Pearce demonstram que ele não é nem um tecnofílico, nem um tecnofóbico. Suas obras descrevem com riqueza de evidências e profundo conhecimento as mudanças climáticas em curso e outros aspectos da crise ambiental, como a crescente escassez de água — mostrando as engrenagens pelas quais esses problemas se conectam à produção econômica e à desigualdade social. De outro lado, em The New Wild: Why Invasive Species Will Be Nature’s Salvation (“A Nova Natureza: por que as espécies invasoras serão a salvação da própria natureza”) e em A Trillion Trees: How We Can Reforest Our World (“Um Trilhão de Árvores: como podemos reflorestar nosso mundo”), o jornalista aponta para uma visão renovada da natureza e de nossa relação com ela. O mundo natural não precisa ser esse objeto frágil condenado à destruição, nem a espécie humana seu carrasco inevitável.
No recém-lançado Despite it All, ele apresenta sete motivos para sua esperança cautelosa: a evidência farta de ecossistemas se regenerando mesmo diante de muitas pressões; o fato de que caminhamos para a estabilidade e até possível declínio demográfico ainda neste século; evidências de que o teto do consumo, em termos de demanda por recursos naturais, está se aproximando; tecnologias promissoras para a chamada “transição ecológica”; a recuperação e disseminação de práticas tradicionais de agricultura; o êxito de projetos de restauração ecológica em escalas cada vez maiores; e o sucesso de ações comunitárias, ao largo de governos e empresas, que vêm contribuindo para a regeneração e para novas formas de consumo.
O linguista e psicólogo canadense Steven Pinker, professor da Universidade de Harvard, por sua vez, está mais para tecnofílico e costuma ser igualmente achincalhado ou venerado. Em seu O Novo Iluminismo, com profunda pesquisa e argumentos fortes, ele critica a tendência de enxergarmos declínio, crise e colapso iminente em tudo — que atribui tanto à direita religiosa/nacionalista quanto a boa parte da intelectualidade de esquerda e humanidades. Pinker usa dezenas de gráficos — de mortalidade, pobreza, violência, expectativa de vida, alfabetização etc.) para tentar mostrar que o progresso é mensurável, real e cumulativo, e que a percepção contrária é um viés cognitivo mais que uma leitura correta dos dados.
Pinker não é tampouco, entretanto, um defensor cego da tecnologia e reconhece os riscos do aquecimento global e da IA, por exemplo. Para ele, não é somente a tecnologia que explica o progresso, mas sim o tripé de valores herdados do Iluminismo (daí o título do livro): razão, ciência e humanismo são o que explica por que as coisas melhoraram. Seu projeto, nesse sentido, é uma defesa desses valores contra o que vê como ameaças contemporâneas: populismo, relativismo pós-moderno, o avanço das religiões sobre a esfera pública e romantismos políticos de direita e esquerda.
O livro merece ser lido — como todos os que escreveu. Pinker é um cientista gigante e um dos grandes pensadores de nosso tempo. O grande problema de seu ponto de vista em O Novo Iluminismo, entretanto, a meu ver, está em não problematizar a ideia da ciência como saber único, neutro e superior, nem seu papel como locomotiva do progresso.
Se essa aliança serviu de fato para melhorar muito a vida de nossa espécie, de outro lado, também se presta como cortina de fumaça para que não se discutam os efeitos distributivos profundamente desiguais de muitas tecnologias e políticas. É essa falsa ideia de neutralidade da ciência e da técnica que permite o avanço veloz do progresso sem discutir as desigualdades resultantes, sempre com a promessa de que mais tecnologia resolverá essas mesmas desigualdades mais adiante. É o que se vê hoje, por exemplo, em relação à mineração de terras raras ou ao avanço da IA. O discurso de que não podemos desacelerar se ancora em parte exatamente no par neutralidade técnico-científica e progresso inevitável.
Nesse sentido, o livro de Fred Pearce parece um importante chamado, como dito, ao caminho do meio — nem progresso a qualquer preço e profecias de salvação pela tecnologia, nem colapso do planeta e visões da extinção inevitável de nossa espécie. O futuro permanece sempre aberto. Precisamos agir, mas não somente apontando culpados e nos colocando no lugar de donos da razão. O caminho segue sendo lutar para a renovação da política democrática e para o fortalecimento das instituições em busca de tomadas de decisão cada vez mais participativas, abertas e transparentes.
