Tem hora que nem a gente suporta a própria companhia. Dá uma vontade enorme de tirar férias de nós mesmos, dar um tempo dos nossos problemas – os reais e os imaginários – do nosso mau humor, das nossas gracinhas e lugares-comuns. Dá vontade de se reinventar e virar logo outra pessoa.
De preferência um ser humano menos ansioso, sem pequenos ou grandes vícios. Alguém mais tolerante, que não fica querendo matar o motorista da frente quando ele demora três segundos a mais depois que o sinal abre. Alguém que tenha mais gratidão para as situações mais corriqueiras da existência humana.
Que seja grato pelo cafezinho preto acompanhado da água com gás. Lendo uma revista boba ou falando besteiras com algum amigo.
Ou do sol lindo que está fazendo lá fora e você, em Goiânia, pensa: vou andar de bike e depois ir pro clube com a minha família. E sorri, apenas por estar viva para usufruir desse presente.
Ficar grata porque finalmente pagou a última prestação do carro, depois de longos e intermináveis 36 meses com a corda no pescoço. Agora você tem um carro e nem mais uma folhinha no carnê para pagar. E sorri, pois está mais livre.
Ficar grata porque ao acordar seu corpo tem saúde para dar e vender. Nenhuma dorzinha, tudo funcionando maravilhosamente bem. E sorri, pois seu corpo está pronto para te levar onde sua cabeça bem entender.
Todos os dias temos milhares de motivos para agradecer, mas a correria e o estresse não nos deixam perceber a grandiosidade do que vivemos diariamente. Queremos sempre mais: uma casa maior, um carro mais possante, uma viagem para o Oriente, uma joia, uma bolsa de grife. A ambição por si só não é ruim, é um motor para nos levar ainda mais longe. Mas quando a ambição confunde-se com a insatisfação, esse sim um sentimento medíocre, primo-irmão da ingratidão, a vida vira um muro de lamentações.
Sejamos gratos.