A Redação
Goiânia – A dor de uma despedida deu lugar a um gesto capaz de transformar outras vidas. A Santa Casa de Misericórdia de Goiânia realizou, na sexta-feira (8/5), uma captação de múltiplos órgãos, a primeira desde 2012. A doação aconteceu graças a família que decidiu honrar um desejo manifestado pela paciente em vida: ser doadora de órgãos.
Em meio ao luto, familiares, profissionais de saúde e equipes multiprofissionais viveram um momento marcado por emoção, respeito e solidariedade. Antes da captação, corredores da unidade foram tomados por aplausos, balões verdes (símbolo da doação de órgãos) e homenagens silenciosas que traduziram gratidão e reconhecimento pela decisão da família.
A jovem teve morte encefálica confirmada após rigoroso protocolo médico, conduzido conforme determina a legislação brasileira. Após a autorização familiar, iniciou-se uma complexa operação logística coordenada pelas centrais de transplantes para viabilizar a distribuição dos órgãos aos receptores compatíveis.
Segundo o médico transplantador da Regional Goiás, Duilio Rezende, o processo envolve uma grande operação humana, técnica e logística. “Tudo começa após a confirmação da morte encefálica e da autorização familiar. Existe uma série de etapas legais, exames e acionamento das centrais estadual e nacional de transplantes. É um trabalho que mobiliza equipes de vários estados para que os órgãos cheguem aos receptores dentro do tempo necessário”, explicou.
Nesta captação, coração, fígado, rins e córneas foram destinados a pacientes que aguardavam na fila de transplantes. Alguns órgãos ficaram em Goiás, outros seguiram para Brasília e Acre.
Para o superintendente técnico da Santa Casa, Dr. Pedro Ivandosvick, o momento ficará marcado na história da instituição. “É um momento de profunda tristeza para a família, mas também de benevolência e amor ao próximo. A doação possibilitou uma nova chance de vida para pacientes que aguardavam na fila de transplantes”, afirmou.
A coordenadora da UTI, Marina Fonseca, destacou que o acolhimento à família acontece desde o início do protocolo de morte encefálica.
“A família acompanha todas as etapas e recebe suporte contínuo da equipe. Somente após a confirmação oficial da morte encefálica é apresentada a possibilidade da doação, que é um direito garantido por lei”, ressaltou.
Esse suporte também contou com atuação direta da equipe de psicologia hospitalar. A psicóloga Ana Clara Firmiano acompanhou a paciente e seus familiares durante toda a internação. “A psicologia trabalha para acolher a família, traduzir informações médicas e humanizar o cuidado. Ela nunca foi apenas um leito ou um diagnóstico. Ela era filha, irmã, namorada, uma jovem cheia de sonhos e afeto. A decisão da família de respeitar o desejo dela trouxe significado diante da perda e transformou o amor que ela tinha pelas pessoas em esperança para outras famílias”, afirmou.
A gerente de enfermagem, Vanessa Heleno, também destacou a emoção vivida pela equipe assistencial. “Foi um momento grandioso. O corredor da gratidão mostrou o quanto essa jovem tocou todos ao redor dela. Somos profundamente gratos à família por esse gesto tão humano”, disse.
A homenagem mais emocionante veio da própria família. Prima da paciente, Erica dos Santos relembrou a generosidade da jovem e o desejo que ela tinha de fazer diferença na vida das pessoas. “Ela sempre teve um coração enorme. Ela se importava com todos ao redor dela. Mesmo aqui no hospital, demonstrava carinho pelos outros pacientes. A família decidiu manter vivo esse legado de amor e esperança. Sabemos que é uma dor imensa, mas uma decisão como essa pode mudar muitas vidas”, declarou.
Doação de órgãos: um gesto que transforma vidas
A doação de órgãos ainda representa esperança para milhares de brasileiros que aguardam por um transplante. Dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) apontam que o Brasil registrou recorde de transplantes em 2025, com mais de 31 mil procedimentos realizados em todo o país. Apesar do avanço, a recusa familiar ainda é um dos principais desafios enfrentados pelas equipes de saúde.
Segundo levantamento da entidade, cerca de 45% das famílias brasileiras ainda não autorizam a doação de órgãos após a confirmação da morte encefálica. Atualmente, milhares de pessoas seguem na fila à espera de um transplante que pode representar uma nova oportunidade de vida.
No Brasil, mesmo que a pessoa manifeste em vida o desejo de ser doadora, a autorização final é da família. Por isso, especialistas reforçam a importância do diálogo dentro de casa sobre o tema.
Um único doador pode beneficiar diversas pessoas por meio da doação de coração, fígado, rins, córneas e outros tecidos, transformando a dor da perda em esperança para famílias que aguardam por um transplante.
Para a superintendente-geral da Santa Casa, Dra. Irani Ribeiro, histórias como a desta paciente deixam um legado que ultrapassa os corredores hospitalares. “Em um momento de dor imensurável, essa família escolheu transformar sofrimento em solidariedade. A atitude desses familiares reforça a importância de falar sobre doação de órgãos e sobre o impacto que uma decisão como essa pode ter na vida de tantas pessoas. É um gesto que merece respeito, gratidão e reconhecimento.”
