Jales Naves
Especial para A Redação
Goiânia – Muito prestigiado, com o auditório do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás tomado de amigos, alunos, familiares e colegas de instituições de ensino, culturais e religiosas, o professor doutor Sandro Dutra e Silva lançou uma nova obra, agora infanto-juvenil, que fala sobre meio ambiente, Cerrado e sustentabilidade. O livro, “O Jardim das Plantas Tortas”, 36 páginas, que circula pela Casa do Escritor e Editora UniEvangélica, é um convite para crianças e adultos descobrirem o Cerrado como nunca viram antes: um lugar vibrante, cheio de vida e segredos que conectam todo o Brasil. “Das raízes profundas que guardam água para outras paisagens até as flores que alimentam centenas de espécies; cada página revela porque este jardim torto é, na verdade, essencial”.
Ao abrir a solenidade, na manhã desta sexta-feira, dia 24, o presidente do IHGG, historiador Jales Guedes Coelho Mendonça, cumprimentou e agradeceu o associado pela escolha do Instituto para lançamento dessa obra, quando poderia ter optado pelos Estados Unidos, onde esteve recentemente e para onde irá em junho, ou por outro país, por estar sempre cumprindo agenda em outras nações; e respaldou a oportuna bandeira do livro, de defesa do meio ambiente e do cerrado, tão ameaçado nos últimos anos.
Andarilhos da claridade
“Somos os peregrinos do alvorecer, os andarilhos da claridade, os primeiros seres humanos a chegarem ao centro desta nação, hoje conhecida como Brasil”, escreveu o professor Altair Sales Barbosa, no prefácio da obra. “Chegamos aqui por volta de treze mil anos atrás. O lugar era tão bonito que se assemelhava a um paraíso, um grande jardim florido. Um jardim das plantas tortas”.
Diz uma lenda “do nosso povo que nestas terras viveríamos felizes por muitas e incontáveis luas, por muitos e incontáveis sóis. E que vivenciaríamos tantos períodos chuvosos que nossas pedrinhas de contar seriam quase que insuficientes. Até o dia em que os nossos descendentes ouviriam o canto da Juriti Pepena, vindo direto de uma touceira de tajás. A Juriti, uma ave invisível que, ao piar, traria malogrados encantamentos e desgraças sobre nós. Nosso tempo de bonança anunciava ensejos tristes. E não tardou muito toda praga agourenta alcançou nossa sorte. Juriti Pepena piou. Triste fortuna, e que foi há bem pouco tempo”.
Múltiplas referências
A concepção do projeto “O Jardim das Plantas Tortas” é fruto de múltiplas referências que, ao longo dos anos, foram sendo cristalizadas, mas que ganhou um novo impulso a partir do apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ao projeto “Assimetrias Ecológicas e Políticas entre os Biomas Amazônia e Cerrado”, aprovado em 2024. O apoio do CNPq permitiu que o professor Sandro Dutra atuasse como Visiting Scholar no Departamento de História da Ciência da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.
Durante esse período teve a oportunidade de compartilhar as pesquisas históricas do Cerrado e receber o feedback de colegas, tanto em Harvard quanto em Yale e UCLA. Destacou, por exemplo, o encorajamento de colegas “muito queridos como Marcia de Castro, Tiago Genoveze, Gabriela Soto Laveaga (Harvard) e Harriet Ritvo (MIT), que, de formas diferentes, me impulsionaram nessa empreitada”.
O projeto também esteve em adesão a outros em andamento na Universidade Estadual de Goiás e Universidade Evangélica de Goiás, envolvendo pesquisa e extensão. Nesse sentido, a coordenação do Laboratório de História Ambiental do Cerrado (LAHAC) foi fundamental, por ser um espaço privilegiado para a produção do conhecimento sobre o Cerrado. No LAHAC, “temos buscado desenvolver ações que valorizam não apenas a produção científica qualificada em periódicos, mas também oficinas de educação ambiental, grupos de trabalho, extensão universitária, saídas de campo e a produção de materiais didáticos e outros produtos culturais voltados à temática do Cerrado”.
O objetivo, conforme Sandro Dutra, é que “o conhecimento produzido se alinhe ao desenvolvimento sustentável, tendo o Cerrado como foco. No LAHAC, destaco a participação dos pesquisadores André Pin e Aline Kamiya, que atuaram de maneira muito direta na concepção da iniciativa. O projeto literário também teve um impacto muito relevante após a colaboração artística de Emilia Simon e suas inspiradoras ilustrações”, afirmou.
Narrador da própria história
Em “O Jardim das Plantas Tortas” o Cerrado é o narrador da sua própria história evolutiva. A natureza, em suas diferentes representações, a presença dos andarilhos humanos em diversas temporalidades, e as transformações ambientais refletem o tom mais solene e que aponta para o trágico canto da juriti – “que nos alerta e anuncia os riscos do porvir”. Há uma influência marcante do antropólogo Altair Sales Barbosa, “que poeticamente assina o prefácio do livro”.
“Nossa intenção é que a história natural e ambiental do Cerrado nos faça compreender o valor ecossistêmico desse bioma tão ameaçado e pouco compreendido. A estética e o tom solene das narrativas são ecos de alerta, mas também uma exaltação da beleza e da perplexidade que marcam as relações socioecológicas do bioma”, explicou.
O desejo – como frisou – é que “O Jardim das Plantas Tortas” inspire e exorte sobre os riscos de sacrificar esse bioma na lógica assimétrica que envolve as políticas ambientais no Brasil.
