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Ruínas da Igreja de São José da Boa Morte (Foto: Elysium)

Ruínas de São José da Boa Morte e os curiosos rituais de sepultamento em igrejas

Local passa por obras de conservação e consolidação realizadas pela Elysium

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28.04.2026 - 08:44:19

Adriana Marinelli

Goiânia – Localizadas em Cachoeiras de Macacu, no interior do Rio de Janeiro, as ruínas da Igreja de São José da Boa Morte guardam mais do que vestígios arquitetônicos do passado colonial brasileiro. Elas revelam práticas culturais, religiosas e até curiosidades pouco conhecidas sobre a relação entre vivos e mortos ao longo dos séculos.

Construída a partir de 1734 e tombada desde 1989 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, a igreja passa agora, pela primeira vez, por obras de conservação e consolidação. A iniciativa faz parte de um projeto mais amplo conduzido pela Elysium Sociedade Cultural, em parceria com a Prefeitura de Cachoeiras de Macacu e a Nova Transportadora do Sudeste, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. A proposta também prevê um novo uso para o espaço, ressignificando o patrimônio histórico.

Mas é sob o chão, e ao redor das paredes de pedra, que algumas das histórias mais intrigantes vêm à tona. Você sabia que as ruínas de São José da Boa Morte têm vestígios de um cemitério?

Pesquisas documentais comprovam que o local era utilizado para sepultamentos, prática comum em períodos anteriores ao século XIX. “A relação entre mortos e vivos é um reflexo do contexto cultural e fruto de um tempo específico, passando por intensas modificações ao longo dos séculos, seguindo as mudanças socioculturais pelas quais passam as comunidades”, explica a historiadora Rachel Wider, especializada em patrimônio cultural e colaboradora da Elysium.

Durante séculos, no Ocidente, a tradição religiosa determinava que o local ideal para o enterramento era o chamado ad sanctus, ou seja, o mais próximo possível de um santo de devoção, dentro das igrejas. A crença era de que essa proximidade ajudaria na salvação da alma no momento do juízo final.

Nem todos, porém, podiam pagar por esse privilégio. Documentos históricos mostram que quanto mais perto do altar alguém fosse sepultado, mais caro era o custo. “Muitos testamentos deixam claro o desejo do moribundo sobre onde queria ser enterrado”, destaca Rachel Wider.

Para aqueles com menos recursos, havia as chamadas “covas de fábrica”, localizadas do lado de fora da igreja. Mais acessíveis, elas eram destinadas à população em geral, enquanto as irmandades, como a de São José, ficavam responsáveis por organizar os rituais e sepultamentos de seus membros.

O “cheiro” da fé
Pode parecer estranho hoje, mas o convívio com os mortos fazia parte da rotina religiosa. Relatos históricos indicam que o odor de corpos em decomposição era frequente durante as celebrações. E, curiosamente, nem todos viam isso como um problema. “Havia padres que defendiam que esse elemento fazia parte da vivência da fé”, aponta a historiadora.

Com o avanço do conhecimento científico e das políticas sanitárias, esse cenário começou a mudar. Em 1850, o enterramento dentro das igrejas foi oficialmente proibido no Brasil, embora a prática tenha persistido por algum tempo em certas regiões.

Últimos registros
No caso de São José da Boa Morte, há indícios de que o último sepultamento ocorreu já no início do século XX. “ A lápide íntegra preservada data de 1902 ”, afirma Rachel Wider.

Além disso, conforme destaca a colaboradora da Elysium, as pesquisas nos arquivos eclesiásticos permitiram identificar nomes de pessoas enterradas no local, contribuindo para a recuperação da memória histórica e para o reconhecimento daqueles que escolheram a igreja como local de descanso final.

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por Adriana Marinelli

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