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Roma: barriga e alma satisfeitas

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05.12.2011 - 16:39:02
Roma – Nem só de erros vive o homem. E eu gosto mesmo é desse equilíbrio na vida. Se em Madri nem tudo deu certo, deixo Roma com a sensação de que não poderia ter sido melhor. O país da charmosa botinha não entraria nesse mês no meu itinerário. Até que minha afilhada ganhou de presente de 15 anos dos pais vir me visitar. Aproveitando feriados lusitanos, Thainá fez questão que eu viajasse com ela pela Itália. E cá viemos. Devo dedicar 80% do sucesso da nossa viagem a uma querida e exemplar signora de 73 anos, Simonetta Borsini.
 
A cada texto tenho explicitado, em minha experiência por aqui, meu apreço por pessoas e histórias para além de monumentos. Roma, assim como Paris e Madri, é de encher os olhos. A barriga e a alma também. Entender o que cada estátua, monumento e coluna representam me fez mais feliz nessa capital. E quem proporcionou isso foi a signora nascida em Florença, guia turística há décadas em Roma e que mora a poucos passos do Vaticano. Avó de um grande amigo meu alemão, estendeu seu amor pelo neto a nossa amizade, fazendo a gentileza de ser nossa guia no Vaticano, Coliseu, Foro e Palatino, além de nos oferecer um inesquecível almoço.
 
Se você não for católico ou tiver birra com a Igreja, não deixe de ir, por essas razões, ao Vaticano. Para além da fé, a pequena província cercada por muros guarda em si impressionantes elementos da história da humanidade, emocionantes obras de arte que sinalizam o enorme poder que a Igreja carrega por séculos.
Paciente e entusiaticamente, a nonna de meu amigo nos explicou tudo que nossos olhos viam e o que não estava ao alcance. São anos e anos de estudo que compartilhava conosco, humildemente. Por exemplo, a genialidade e personalidade de Michelangelo, que pintou a criação e juízo final na Capela Sistina em apenas quatro anos, sem ajuda de nenhum aluno.
Diferentemente das pinturas das laterais da capela, da autoria de seu professor (que representam o Novo e o Velho Testamentos), Michelangelo buscava dar expressão e movimento aos homens de suas pinturas. A ideia era que, assim que entrasse e observasse a pintura, logo se capturasse o sentimento que o artista registrara. Temperamental, de personalidade forte e alma conturbada, Michelangelo, apesar da fé, discordava de muitos elementos da Igreja à época. Ainda que genial, sua obra foi criticada pela ousadia e, por isso, seu autorretrato no juízo final, segurando sua própria pele.
Rafael, contemporâneo mas mais novo que Michelangelo, simpático, querido por todos, logo reconheceu a genialidade do pintor ao espiar sua obra em andamento na capela. Influenciado por Michelangelo, suas obras no Vaticano têm sempre um centro como referência, grande uso de luz e expressões. Fé, apreço pela arte e por história: se você tem um dos três, o Vaticano vai te arrepiar. Ou, se tiver os três, como eu, vai se emocionar. Por outro lado, confesso, me senti pesada ao ver de perto tanto poder e imponência da Igreja. Ver a Pietà (esculpida por Michelangelo aos seus 26 anos) e saber que o túmulo do primeiro papa esta sob seus pés é impressionante.
 
Roma é isso: a história de muitos séculos diante dos seus olhos materialmente. Isso também me deixou fã da capital. A história de um povo que marcou profundamente nosso modo de vida ocidental está ali, embaixo do nosso nariz, sendo descoberta e redescoberta. É o caso da obra da terceira linha do metrô de Roma, que vai a passos de tartaruga devido ao trabalho arqueológico que tem encontrado várias preciosidades sob a terra, como esculturas e monumentos. Ou no Foro, Coliseu e Palatino, que passam por um recente (cerca de 20 anos) processo de escavação. O que não foi destruído ou ignorado pela Igreja, hoje dá pano para manga para historiadores e arqueólogos.
Bem, ja falei do Vaticano, Coliseu e Palatino. Agora quero dizer a palavra de ordem em Roma: take your time. Nem tente andar apressado, tirar umas fotinhas rapidinho, comer um fast food para dar conta de todo o roteiro. As piazzas e monumentos estão ali para serem admirados. E a culinária, para ser devidamente degustada. Compre um gelato, sente na fonte em frente ao Panteão e se delicie. Encha os olhos com as cores da feira na Piazza Navona. Sente-se nas escadarias da Piazza di Espagna e observe a vida italiana, como eles falam alto, como comem muito, como são elegantes.
Faça seu pedido na Fontana di Trevi e dispense uns minutos observando a fonte e imaginando o que as pessoas estão pedindo. Nada mais gostoso do que se perder nas ruas por ali, em meio a lindas sacadas com flores, vespas estacionadas, cafés e mais cafés. Prepare um sapato confortável e caminhe. Metrô é quase dispensável. Vale se surpreender a cada esquina com um novo monumento ou piazza. E esqueça tudo sobre dieta e emagrecer. Vivi uma verdadeira orgia gastronômica, apreciando o que italianos sabem fazer melhor: comer. Dá-lhe spaghettis, lasagnas, pizzas e lá vai massa. A parte boa é que se paga pouco para comer bem.
Mas nada que se comparasse ao almoço oferecido por Simonetta em seu lar. E não estou falando só da comida. Uma casa em que cada objeto, móvel e quadro fazem sentido e tem uma história. Uma pintura do século XVIII, uma litografia do XIX, uma lembrança da viagem ao Laos, uma estátua do buda da última viagem para a Índia. A primeira foi de carro com seu marido, então fotojornalista. Fluente em inglês, francês e alemão, Simonetta só não esteve na América do Sul. É daquelas senhoras a que a gente quer ser igual quando crescer. Antes do primo piato (um spaghetti daqueles), ela nos mostrou o álbum de fotos de uma importante mostra de seu marido, com registros de filmes de Bertolucci, com quem trabalhou muitos anos. Ali, na minha mão, uma foto de Marlon Brando. Outras tantas histórias até chegar ao panettone de sobremesa.
 
Se, geralmente, finalizo uma viagem com coração apertado, Roma conseguiu me deixar satisfeita, em poucos dias. E deixo essa cidade assim, provavelmente com mais quilos de carboidrato no corpo, mas uns 30 quilos de satisfação na alma.
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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