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Prcedimento cirúrgicos de alta precisão já são realizados com o auxílio de robôs desde a década de 1980 (Foto: Flickr)

Robôs e IA elevam precisão de diagnósticos e tornam cirurgias menos invasivas

Tecnologia permite cirurgias mais precisas, reduz tempo de recuperação e pode levar atendimento especializado a regiões remotas

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02.08.2026 - 07:59:17

Ludymila Siqueira

Goiânia – A era da Inteligência Artificial tem ganhado cada vez mais espaço no mundo, que tem passado por uma revolução sem precedentes. O que antes parecia distante hoje é uma realidade nos mais diversos players de negócios, profissões, gestões e universidades. No âmbito da Medicina, por exemplo, a inovação e o uso de tecnologias são grandes aliados há décadas, especialmente no campo de diagnósticos e pesquisas. Na atualidade, a velocidade com que as informações são disseminadas, a adaptação aos novos modelos de descobertas e o combate às informações falsas têm se tornado constantes na área.

Para se ter uma ideia, um estudo da plataforma Olá Doutor identificou que 7 em cada 10 brasileiros recorreram à IA no último ano para tirar dúvidas sobre sintomas ou possíveis doenças. Por outro lado, nos consultórios, esse uso foi regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), com a definição da primeira resolução sobre o uso da Inteligência Artificial na prática médica no País.

Para o coordenador do Núcleo de Inovação e Tecnologia da Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs), o médico-cirurgião Otávio Cunha, a Medicina, como parte da Ciência, sempre teve a inovação em sua rotina. Ele explica que ferramentas como o bisturi, o microscópio, os medicamentos anestésicos e antibióticos, além da sofisticação do método científico, fazem parte da incorporação de inovações mais antigas do que a maioria da população imagina. “Com isso, a diferença da IA é a velocidade de disseminação, superando nosso ritmo de adaptação às novidades”, afirmou em entrevista à reportagem do jornal A Redação.

coordenador do Núcleo de Inovação e Tecnologia da Associação Médica do Rio Grande do Sul, médico Otávio Cunha (Foto: reprodução/Amrigs)

O médico atribui à IA o papel de ferramenta, e não de fim em si mesma, na prática médica. Segundo ele, ao mesmo tempo em que seu uso pode promover grandes avanços e descobertas, é necessário cautela. “Usar a Inteligência Artificial é como ter um assistente brilhante que, no entanto, pode inventar coisas com uma confiança absoluta. Desse modo, o pensamento crítico não é apenas um bônus, mas o principal filtro de segurança”, pontuou. Ao destacar ainda que a preocupação com a conexão humana é uma constante, acrescentou: “Diante desse cenário, a Amrigs se posiciona na vanguarda, colocando o foco no desenvolvimento das habilidades comportamentais do médico, para transformar de maneira positiva a repercussão dessa tecnologia”, completou Otávio Cunha.

Inteligência Artificial auxilia na tomada de decisões e no diagnóstico preciso

No Rio Grande do Sul, o Hospital das Clínicas de Carazinho (HCC) tem se tornado referência em saúde. A adoção de tecnologias inteligentes marcou uma nova era nos exames de imagem, elevando os níveis de precisão, agilidade e segurança no atendimento aos pacientes. Com o uso de algoritmos sofisticados, os equipamentos conseguem gerar imagens com altíssimo nível de definição, permitindo uma visualização muito mais clara e detalhada das estruturas internas do corpo. Isso possibilita identificar alterações sutis que, em muitos casos, passariam despercebidas em exames tradicionais, sendo considerado um fator essencial para diagnósticos mais precoces e eficazes.

Recentemente, a unidade adquiriu novos equipamentos de tomografia e ressonância magnética com Inteligência Artificial integrada. Entre eles, destaca-se a ressonância magnética de 1,5 tesla, da Siemens Healthineers, equipada com tecnologias como o Deep Resolve Sharp, que aumenta significativamente a nitidez das imagens, e o Deep Resolve Boost, que melhora o sinal e reduz o tempo dos exames.

(Foto: HCC)

Na prática, isso se traduz em diagnósticos mais confiáveis, processos mais ágeis e maior conforto para os pacientes. Com essa evolução, o HCC reafirma seu compromisso com a qualidade assistencial, utilizando a inovação como aliada para salvar vidas e oferecer um cuidado cada vez mais eficiente à comunidade.

O médico cardiologista Gerson Luis Urnau explica que a implantação de sistemas como esses é resultado de investimentos contínuos em inovação. Segundo ele, a utilização da IA no Hospital das Clínicas de Carazinho promove benefícios diretos tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde, principalmente em termos de qualidade, segurança e eficiência.

a Região Centro-Oeste, o Estado de Goiás também tem se destacado com a implantação de novas tecnologias para auxiliar a saúde pública. O recentemente inaugurado Complexo Oncológico de Referência (Cora) passou a contar com o “Capricórnio”, uma tecnologia que usa a IA para auxiliar médicos a tornar mais ágeis e precisos o diagnóstico e o tratamento do câncer.

Com o uso de modelos do Gemini, o Capricórnio consegue processar, rapidamente, uma vasta quantidade de literatura médica e integrá-la aos dados individualizados e anonimizados dos pacientes, acelerando a identificação de tratamentos oncológicos de forma personalizada. As informações ficam disponíveis no PubMed, que tem seus dados armazenados em formato vetorial no BigQuery, plataforma de armazenamento e gerenciamento de dados do Google Cloud. Nesse sentido, o Gemini atua como a camada conversacional que possibilita ao médico realizar buscas precisas, em português e em linguagem natural, para discussões de casos clínicos.

O PubMed é um banco de dados global mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina do National Institutes of Health, principal agência do governo dos EUA responsável por pesquisas biomédicas e de saúde pública, que contém mais de 35 milhões de artigos biomédicos e cresce de 1,5 milhão a 1,7 milhão de novos artigos biomédicos publicados por ano, o que significa que o volume total de conhecimento biomédico dobra a cada 73 dias.

As buscas vetoriais no PubMed possibilitam aos médicos realizar pesquisas de maneira semântica, indo além do cruzamento de palavras-chave exatas. Isso tem um impacto relevante no tratamento, pois, com as buscas tradicionais, os pesquisadores podem deixar de encontrar um estudo de caso relacionado pelo simples fato de terem usado termos ligeiramente diferentes para descrever a mesma condição. Com o Capricórnio, o corpo clínico, em especial os oncologistas, consegue dedicar mais atenção aos pacientes e consumir literatura pertinente ao tratamento específico, ajustando sua abordagem rapidamente e melhorando os potenciais resultados para os pacientes submetidos a esses procedimentos críticos.

O secretário da Saúde, Rasível dos Santos, que também é médico, destaca que o diferencial da ferramenta está relacionado à contribuição para diagnósticos mais assertivos. “Ajuda a iniciar o tratamento sem atraso, porque vai pegar toda a base de dados que está no PubMed, cruzar as informações para verificar qual tratamento traz os melhores resultados”, pontuou. “Apesar da velocidade e da precisão tecnológica, a inteligência artificial não substituirá a avaliação médica e não vai tomar nenhuma decisão de tratamento de forma autônoma”, disse.

Inaugurado em junho do ano passado, o Cora já realizou mais de 3.896 atendimentos, tendo a oncologia pediátrica como grande destaque da unidade. O hospital atende pacientes de Goiás, de Rondônia, do Amazonas, de Mato Grosso e também do Distrito Federal.

Robôs suíços ajudam crianças com câncer a recuperar movimentos no Cora (foto: Iron Braz)

Robótica no centro cirúrgico

Embora a Inteligência Artificial e a robótica não sejam a mesma coisa, juntas, podem transformar a realidade dos centros cirúrgicos. Para se ter noção, o Brasil realizou a primeira telecirurgia com o uso de um robô em junho deste ano, no Hospital de Amor de Barretos, em São Paulo. O procedimento de longa distância beneficiou um paciente em tratamento oncológico no SUS (Sistema Único de Saúde), em Porto Velho (RO), a 2,7 mil quilômetros de distância de onde a equipe médica atuava.

A iniciativa se tornou um marco para o SUS ao democratizar o acesso a ferramentas de tecnologia avançada e demonstrar, na prática, como a combinação entre cirurgia robótica, conectividade de alta performance e equipes especializadas pode ampliar procedimentos de alta complexidade em regiões distantes dos grandes centros.

Equipe de médicos em Porto Velho (RO) acompanha cirurgia robótica realizada em Barretos (SP) — (Foto: Divulgação/HA)

Para o médico Luis Romagnolo, cirurgião, diretor de Inovação do HA e diretor científico do IRCAD América Latina, o maior benefício está na possibilidade de aproximar pacientes e equipes locais de cirurgiões com alta expertise, mesmo quando a distância física seria um obstáculo. “O grande benefício para o paciente é ter acesso à experiência de um cirurgião que, muitas vezes, não conseguiria estar presente por causa da distância. A tecnologia aproxima esse profissional da equipe local e ajuda a entregar o melhor cuidado possível. É levar cirurgiões de alta expertise para pacientes do Sistema Único de Saúde, em tempo real”, destacou.

A estrutura utilizada para o procedimento contou com uma rede dedicada de fibra óptica, redundância em 5G e recursos de segurança para garantir estabilidade, baixa latência e integração entre os equipamentos. A latência, que corresponde ao tempo entre o comando feito pelo cirurgião e a resposta do robô, é um dos fatores mais importantes para que a telecirurgia aconteça de forma segura.

Maior precisão e qualidade de vida

Em um centro cirúrgico, a precisão é fundamental e, ao mesmo tempo, muito desafiadora. Existem procedimentos que podem durar horas, com o médico em pé e, ao mesmo tempo, tendo que se inclinar sobre o paciente, com os movimentos das mãos, muitas vezes, limitados por ferramentas rígidas.

Essas limitações podem ser superadas com o auxílio de robôs, como ocorre na cirurgia robótica. Nessa técnica, o equipamento é comandado por um médico. A máquina, nesse sentido, propicia mais precisão, mobilidade e certo conforto aos cirurgiões. Os profissionais médicos passam a contar com um filtro de tremor e a possibilidade de executar as cirurgias sentados, além de uma visão ampliada.

Na prática, o médico cirurgião fica na sala cirúrgica comandando o robô, que repete todos os movimentos realizados pelas mãos do profissional. O médico cirurgião é quem se responsabiliza por controlar e operar o paciente. O profissional permanece na mesma sala, em uma espécie de cabine (cockpit, em inglês).

(Foto: Divulgação)

Na urologia, por exemplo, a cirurgia robótica, minimamente invasiva, é considerada uma evolução da laparoscopia, que é um procedimento cirúrgico realizado com uma incisão no abdômen e a introdução do laparoscópio para visualizar e tratar a área doente. Nesse sentido, é uma forma mais moderna de tratar câncer de próstata e problemas de rim e bexiga.

O médico Guilherme Andrade, urologista com foco em Uro-oncologia e Cirurgia Robótica, enfatiza que a técnica é extremamente confiável e capaz de promover maiores benefícios aos pacientes. “É uma máquina que está disponível, mas o cirurgião precisa estar capacitado para utilizá-la. Costumo dizer que o robô é como se fosse um avião, em que o piloto precisa estar apto, entender como funciona e estar preparado para saber lidar com possíveis intercorrências. Na Medicina é da mesma forma, em que a robótica é muito útil e pode nos levar mais longe, com resultados melhores”, declarou em entrevista à reportagem do jornal A Redação.

O especialista ressalta, ainda, que as chances de falha do robô são mínimas. Ele explica que essa tecnologia foi desenvolvida de modo a avisar sobre possíveis intercorrências, para que o profissional capacitado possa compreendê-las em tempo hábil. Desse modo, por meio de sinalização nas cores amarela e vermelha, a máquina comunica quando existe algum problema, dos mais simples aos mais graves. Andrade reforça que se trata de uma situação incomum.

No que diz respeito à qualidade de vida dos pacientes, Andrade enfatiza que cada área tem uma particularidade. “Na urologia, quando falamos dos principais procedimentos, a exemplo da remoção da próstata com o robô no tratamento do câncer, o menor sangramento é, sem dúvida, o maior benefício. Com isso, reduz-se também a necessidade de cuidados intensivos, o que contribui para uma melhor recuperação e um retorno mais rápido às atividades”, detalhou, ao complementar que a prostatectomia assistida por robô está associada a menor incidência de disfunção erétil e incontinência urinária, efeitos colaterais temidos nesse tipo de procedimento no âmbito urológico.

Já no que diz respeito aos benefícios para os profissionais, o urologista atribui isso, principalmente, aos resultados na melhora clínica dos pacientes. “Com toda a certeza, o mais importante é ver o resultado e a satisfação do paciente, quando recupera suas funções e fica curado da doença que estava sendo tratada. Esse é o nosso maior presente”, descreve, com um sorriso no rosto. “Além disso, utilizar o robô também prolonga a vida útil do cirurgião, quando comparamos com os métodos mais antigos”, detalhou o especialista.

Por que confiar em um robô?

Em um primeiro momento, o convite para ser operado por um “robô” pode parecer assustador. No entanto, as razões para uma preocupação maior devem ser quase nulas, afinal, a máquina é comandada por um profissional especializado e capacitado para realizar o procedimento. Conforme explica o cirurgião robótico Leonardo Emílio, do Einstein Goiânia, a cirurgia robótica vive hoje um momento de consolidação definitiva na Medicina moderna. Ele afirma que, inicialmente, havia a percepção de que se tratava de uma tecnologia restrita a poucos centros ou a procedimentos muito específicos.

Atualmente, o cenário é outro. Há uma enorme quantidade de evidências científicas, especialmente provenientes de grandes centros americanos, como a Mayo Clinic, Cleveland Clinic, Johns Hopkins Medicine e MD Anderson Cancer Center, demonstrando benefícios muito consistentes da cirurgia robótica em diversas áreas da cirurgia geral.

“Existe um imaginário popular de que o robô ‘opera sozinho’, mas isso não existe. O robô não toma decisões, não possui autonomia e não substitui o julgamento médico. Cada movimento realizado durante a cirurgia é comandado integralmente pelo cirurgião. A tecnologia deve servir ao ser humano, nunca substituí-lo”, explicou o especialista.

Na prática, observam-se cirurgias mais precisas, menor sangramento, menos dor no pós-operatório, recuperação mais rápida e redução importante das complicações, especialmente em procedimentos complexos, como os voltados ao tratamento de hérnias da parede abdominal, obesidade recidivada, diabetes e cânceres do aparelho digestivo.

O médico ressalta que a tecnologia evoluiu muito e que as plataformas se tornaram mais modernas. Com isso, os cirurgiões passaram a ser mais bem treinados e os hospitais, mais preparados. Isso aumentou a segurança do método e fez com que ele deixasse de ser uma “novidade tecnológica” para se tornar uma ferramenta extremamente consolidada dentro da boa prática cirúrgica.

Hoje, em muitos casos complexos, a pergunta não é mais “por que fazer robótica”, mas sim “por que não oferecer ao paciente uma tecnologia potencialmente mais segura e menos traumática?”, questionou Leonardo Emílio.

A cirurgia robótica permite movimentos extremamente delicados e precisos, associados a uma visão tridimensional ampliada em alta definição. Isso amplia significativamente a capacidade do cirurgião de preservar nervos, vasos sanguíneos e estruturas nobres. Na prática, isso significa menor agressão cirúrgica. O paciente normalmente apresenta menos dor, menor necessidade de analgésicos, recuperação mais rápida, menor tempo de internação e retorno mais precoce às atividades do dia a dia.

Em cirurgias oncológicas do aparelho digestivo, por exemplo, essa precisão pode favorecer dissecções mais refinadas e reduzir a taxa de complicações. Já nas hérnias complexas da parede abdominal, a robótica trouxe uma verdadeira revolução, permitindo reconstruções mais anatômicas e menos traumáticas.

Na cirurgia bariátrica revisional, que está entre os procedimentos mais difíceis da cirurgia digestiva, a robótica também representa um grande avanço pela capacidade de operar áreas com aderências intensas e anatomia alterada com mais segurança.

Mas existe também um benefício importante para o médico. O cirurgião opera sentado, com ergonomia muito melhor, menor desgaste físico e menos fadiga durante procedimentos longos e complexos. Isso melhora o conforto, a concentração e, potencialmente, a performance cirúrgica.

O médico ainda destaca que os resultados da cirurgia robótica não estão ligados apenas à tecnologia, mas também à formação adequada do cirurgião e à correta seleção dos pacientes. Quando bem indicada e realizada por equipes experientes, ela pode transformar completamente a recuperação e a qualidade de vida das pessoas. “A Medicina caminha para procedimentos cada vez menos invasivos, mais precisos e mais seguros. E a cirurgia robótica certamente é uma das maiores representantes dessa transformação. Acredito que o futuro será cada vez mais tecnológico, mas também cada vez mais humano. Isso porque quanto mais a tecnologia evolui, mais percebemos que nenhuma máquina substitui a sensibilidade, o julgamento e a relação de confiança entre médico e paciente”, arrematou.

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por Ludymila Siqueira

*Repórter

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