Logo

Reorganizando nossas vidas

WhatsAppFacebookLinkedInX
13.04.2021 - 08:53:01

Imaginem a aflição de um náufrago à procura de uma tábua de salvação, qualquer coisa para agarrar no meio do oceano. O desespero de famílias que perdem, nesses dias de pandemônio, entes queridos. Ou a angústia trazida por desastres ambientais, como o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em Minas Gerais, no dia 25 de janeiro de 2019, que deixou um rastro de destruição e mortes.

Estamos vivendo momentos de aflição e angústia. A ansiedade cai sobre nós com seus reflexos sobre o cotidiano, paralisando projetos iniciados, afastando outros que ainda estavam na prancheta do planejamento e, acima de tudo, injetando em nosso espírito a incerteza, a dúvida, o medo. Por mais planejada que seja uma pessoa, ela se junta ao gigantesco cordão dos desvalidos que se sentem perdidos por ter suas vidas desorganizadas.

É certo que a resiliência e a coragem de enfrentar os mais terríveis males fazem parte do roteiro da sobrevivência humana. Por isso, vemos perfilados na arena do combate gente de todos os calibres, homens e mulheres, jovens e velhos, dispostos a afastar ameaças e a lutar pelo bem-estar. Mas o fato é que esse vírus que contamina nossos corpos e atormenta nosso espírito causa mudanças em nosso dia a dia. Na vida de uns, produz profunda alteração, em outros, provoca o reordenamento de tarefas cotidianas, introduzindo novos hábitos, determinando rotas diferentes dos traçados originais. Nossas vidas foram, sim, desarrumadas.

Por mais que o empresário, o executivo de um grande grupo, quadros tarimbados e experimentados na arte de enfrentar desafios, acreditem que pouca coisa mudará em suas vidas, o amanhã não será o mesmo. O trabalho assume nova modelagem com o enxugamento de estruturas, o home office, a simplificação da papelada, o redimensionamento de budgets, a procura incessante de inovação, o uso da internet, enfim, as redes sociais funcionando como extensões de nosso cérebro e nossos braços.

Mas as mudanças de ordem material, em pleno curso, terão infinitamente menor impacto do que as forjadas por nossa mente. A começar pelo conceito de tempo, morte e vida. Sêneca (4.aC – 65) já pregava: “Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é que não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores”.
 
A cada dia dos recordes de mortos, somos levados a enxergar que a eternidade está ali, a um palmo. Os dribles mentais que às vezes costumamos fazer, pensando que temos ainda o vigor da adolescência, a capacidade de saborear as coisas boas da vida, fenecem.
O translúcido espelho da realidade está ali adiante de nós. Como ia dizendo, no plano espiritual o facho das mudanças será bem luminoso. A solidariedade, por exemplo, é uma das sementes a germinar na seara dos valores. Viveremos com mais intensidade a virtude da amizade, que é a cola da fraternidade. Os amigos serão inseridos no círculo do compartilhamento, característica de uma sociedade convivencial. Bem sabemos que a rotina do cotidiano forma oceanos entre amigos, os laços vão se desmanchando, o tecido social se esgarça na poeira do tempo. Por isso, teremos de batalhar para que o distanciamento não maltrate a integração espiritual, procurando retomar os caminhos encruzilhados do passado, evitando a competitividade leonina do presente, reconhecendo que o viver sob intenso sufoco corrói a humanidade que nos habita.

Teremos de recolocar a vida e toda sua intensidade no mais alto pedestal dos valores. Hoje, de tanto ouvirmos a numerologia da morte, este ato final da espécie torna-se banalizado. A imaginar “um tanto faz, tanto fez”, como se a vida não fosse o sagrado dom que Deus nos deu.

Poderemos, sim, ser competidores, ambiciosos, heróis de grandes empreendimentos, sem esquecer, porém, nossa identidade humana. Pinço Confúcio: “a humanidade é mais essencial para o povo do que água e fogo. Vi homens perderem sua vida por se entregarem à água ou ao fogo; nunca vi alguém perder a vida por se entregar à humanidade”.
 
*Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político
 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gaudêncio Torquato

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]