O domínio exercido pelo Grupo Jaime Câmara durante décadas sobre a comunicação em Goiás deixou marcas profundas e danosas no jornalismo goiano. Embora tenha construído veículos de grande alcance e influência, o modelo adotado pela empresa também é alvo de críticas recorrentes de profissionais da imprensa, ex-funcionários e setores do mercado, que apontam consequências negativas para o desenvolvimento da atividade jornalística no estado.
Entre as críticas mais recorrentes está a postura considerada arrogante por parte do grupo ao longo de sua trajetória. Durante décadas, a empresa teria agido como se fosse dona absoluta da informação em Goiás, tratando concorrentes com desdém e mantendo uma lógica de mercado fechada, pouco aberta à inovação e à diversidade de vozes. Esse comportamento, segundo profissionais da área, contribuiu para sufocar iniciativas independentes e atrasar a evolução do ecossistema de comunicação no estado.
Também são frequentes as reclamações sobre a política salarial historicamente baixa para jornalistas, fotógrafos, radialistas, cinegrafistas e demais profissionais da comunicação. Muitos trabalhadores relatam que o grupo consolidou um padrão de remuneração inferior ao praticado em grandes centros do país, criando um “teto” salarial reduzido e limitando a valorização da mão de obra especializada em Goiás.
Outro ponto frequentemente mencionado é o controle quase hegemônico do mercado de mídia goiano por muitos anos. Com forte concentração em televisão, rádio, jornal impresso e internet, o grupo teria dificultado o surgimento e fortalecimento de concorrentes locais, reduzindo a pluralidade de vozes e limitando oportunidades para novos projetos de comunicação independentes.
Críticos também afirmam que a linha editorial adotada ao longo de décadas contribuiu para um jornalismo excessivamente conservador, burocrático e pouco inovador. Em vez de estimular formatos modernos, linguagem contemporânea e investimentos em jornalismo investigativo, digital e multimídia, a empresa teria mantido uma visão considerada provinciana e pouco conectada às transformações do mercado nacional e internacional.
Nesse cenário, nomes como Isanulfo Cordeiro e João Unes costumam ser apontados como exceções dentro de uma estrutura considerada engessada. Ambos são reconhecidos por profissionais da área pela qualidade técnica, pela capacidade intelectual e pela contribuição ao jornalismo goiano. Ainda assim, críticos avaliam que o ambiente empresarial e editorial mais amplo do grupo limitava avanços estruturais e impedia mudanças profundas na cultura organizacional da empresa.
A dificuldade de modernização ficou ainda mais evidente com a chegada da era da internet e das plataformas digitais. Enquanto veículos nativos digitais avançavam em velocidade, linguagem, distribuição e engajamento, o Grupo Jaime Câmara permaneceu preso a estruturas tradicionais e a uma lógica ainda fortemente dependente do impresso e da televisão aberta.
Nesse processo, o grupo acabou sendo ultrapassado no ambiente digital por iniciativas mais ágeis e adaptadas ao novo consumo de notícia, como o Mais Goiás e A Redação. Os portais conquistaram relevância, audiência e presença digital justamente explorando espaços que os veículos tradicionais demoraram a ocupar, especialmente nas redes sociais, no jornalismo em tempo real e na produção de conteúdo voltado ao consumo online.
A falta de investimentos estruturais também aparece entre as críticas mais frequentes. Profissionais apontam que Goiás perdeu espaço na produção cultural e jornalística justamente porque não houve aposta consistente em inovação, tecnologia, formação de talentos e fortalecimento da indústria criativa local. Enquanto outros estados modernizaram seus ecossistemas de mídia, Goiás permaneceu durante muito tempo preso a modelos tradicionais de comunicação.
Na área cultural, as críticas também são severas. Há avaliações de que o grupo nunca exerceu papel relevante de incentivo contínuo à cultura goiana, à produção audiovisual, ao cinema, à literatura e à música local em escala compatível com sua influência econômica e política. Para muitos, faltou visão estratégica para transformar Goiás em um polo regional de comunicação e criatividade.
O resultado, segundo analistas do setor, foi um ambiente profissional limitado, com fuga de talentos para Brasília, São Paulo e outros mercados mais dinâmicos. Muitos jornalistas goianos precisaram deixar o estado em busca de reconhecimento profissional, melhores salários e espaço para inovação.
Diante desse cenário, cresce no mercado a expectativa em torno da nova fase sob controle do Grupo Zahran, atual acionista majoritário. A avaliação de profissionais do setor é de que o conglomerado precisa romper com velhos vícios administrativos e editoriais, abandonar a postura de superioridade histórica e investir efetivamente em modernização, inovação digital, valorização profissional e renovação cultural para tirar o complexo de comunicação do buraco e recolocar Goiás em posição competitiva no jornalismo brasileiro.
Mesmo reconhecendo a importância histórica do grupo na consolidação dos meios de comunicação em Goiás, cresce entre profissionais da área a avaliação de que o modelo concentrador, pouco inovador e financeiramente restritivo contribuiu para atrasar o desenvolvimento do jornalismo goiano e reduzir sua competitividade nacional.
João Bosco Bittencourt é jornalista

Parabéns amigo, texto impecável colocações irretocáveis e visão digna do grande profissional que você é.