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Reféns do medo

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10.02.2019 - 12:39:40

Em meio aos números assustadores de denúncias de mulheres que relatam terem sido vítimas de abuso sexual por parte do médium João de Deus, em Abadiânia, algumas perguntas têm sido levantadas com muita frequência, tentando colocar em xeque a veracidade desses relatos. Afinal: “Por que essas mulheres não denunciaram antes?”; “Por que não reagiram?” Ou até mesmo: “Por que muitas delas voltaram para o atendimento com o médium mesmo após terem sofrido abusos anteriores?”.
 
Por mais que estas questões possam parecer relevantes à primeira vista, quando aprofundamos melhor nossa compreensão dos aspectos psicológicos envolvidos em situações de perigo extremo, como é o caso das situações de abuso sexual, percebemos que não há motivos para se questionar essas atitudes das vítimas.
 
Isto porque, em se tratando dos mecanismos de defesa utilizados por nosso cérebro diante de situações de perigo, a ciência nos traz a explicação neurobiológica de que nosso organismo possui um instinto natural de sobrevivência, que nos prepara para lutar ou fugir diante de uma ameaça. Nessas situações, nosso sistema de alerta ativa automaticamente o sistema nervoso, de modo a preparar nosso organismo para uma resposta rápida, seja ela de fuga (correr, sair) ou de luta (brigar, gritar ou até mesmo pedir ajuda). Para isso, há uma descarga importante de adrenalina em nossa corrente sanguínea, bombeando mais sangue para membros inferiores, capacitando nosso corpo, por exemplo, para essa reação.
 
No entanto, quando esse mecanismo natural de sobrevivência entende de alguma forma que não seremos fortes o suficiente diante do nosso agressor, compreendendo que falharemos em lutar ou fugir, outra resposta ainda mais primitiva da nossa espécie é ativada. É o que chamamos de congelamento. Em animais, seria o equivalente a ficar estático diante do predador, de modo a não atrair sua atenção e assim, evitar danos maiores.
 
Deste modo, fica mais fácil compreender porque tantas mulheres sequer tiveram forças para gritar ou pedir ajuda no momento em que os abusos ocorriam. Além disso, devemos considerar o grau de fragilidade que estas vítimas apresentavam. Fragilidades estas que muitas vezes eram justamente o motivo que as fizeram buscar pelo atendimento com o médium, como última esperança e alternativa diante dos seus sofrimentos. Com dificuldades emocionais importantes, estavam em situação de extrema vulnerabilidade diante do abusador.
 
Assim, sob a influência do medo, todos nós estamos realmente sujeitos a paralisar. A, inclusive, duvidar da nossa memória, da nossa percepção e do nosso juízo da realidade. Muitas vítimas relatam que chegaram a duvidar de si mesmas, questionando se não estavam “exagerando em suas percepções”. E outras, inclusive, chegaram ao ponto de retornar aos atendimentos, por medo das ameaças e do poder que o médium demonstrava possuir.
 
É importante salientar que nenhuma explicação pode ser conclusiva e generalizada para todos os casos, uma vez que cada história tem sua particularidade. No entanto, compreender melhor o modo como funcionamos, nos ajuda a sermos, pelo menos, mais empáticos diante do sofrimento alheio.

*Ana Carolina Ribeiro é psicóloga, especialista em Trauma Psicológico

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por Ana Carolina Ribeiro

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