Logo

Reféns do medo

WhatsAppFacebookLinkedInX
10.02.2019 - 12:39:40

Em meio aos números assustadores de denúncias de mulheres que relatam terem sido vítimas de abuso sexual por parte do médium João de Deus, em Abadiânia, algumas perguntas têm sido levantadas com muita frequência, tentando colocar em xeque a veracidade desses relatos. Afinal: “Por que essas mulheres não denunciaram antes?”; “Por que não reagiram?” Ou até mesmo: “Por que muitas delas voltaram para o atendimento com o médium mesmo após terem sofrido abusos anteriores?”.
 
Por mais que estas questões possam parecer relevantes à primeira vista, quando aprofundamos melhor nossa compreensão dos aspectos psicológicos envolvidos em situações de perigo extremo, como é o caso das situações de abuso sexual, percebemos que não há motivos para se questionar essas atitudes das vítimas.
 
Isto porque, em se tratando dos mecanismos de defesa utilizados por nosso cérebro diante de situações de perigo, a ciência nos traz a explicação neurobiológica de que nosso organismo possui um instinto natural de sobrevivência, que nos prepara para lutar ou fugir diante de uma ameaça. Nessas situações, nosso sistema de alerta ativa automaticamente o sistema nervoso, de modo a preparar nosso organismo para uma resposta rápida, seja ela de fuga (correr, sair) ou de luta (brigar, gritar ou até mesmo pedir ajuda). Para isso, há uma descarga importante de adrenalina em nossa corrente sanguínea, bombeando mais sangue para membros inferiores, capacitando nosso corpo, por exemplo, para essa reação.
 
No entanto, quando esse mecanismo natural de sobrevivência entende de alguma forma que não seremos fortes o suficiente diante do nosso agressor, compreendendo que falharemos em lutar ou fugir, outra resposta ainda mais primitiva da nossa espécie é ativada. É o que chamamos de congelamento. Em animais, seria o equivalente a ficar estático diante do predador, de modo a não atrair sua atenção e assim, evitar danos maiores.
 
Deste modo, fica mais fácil compreender porque tantas mulheres sequer tiveram forças para gritar ou pedir ajuda no momento em que os abusos ocorriam. Além disso, devemos considerar o grau de fragilidade que estas vítimas apresentavam. Fragilidades estas que muitas vezes eram justamente o motivo que as fizeram buscar pelo atendimento com o médium, como última esperança e alternativa diante dos seus sofrimentos. Com dificuldades emocionais importantes, estavam em situação de extrema vulnerabilidade diante do abusador.
 
Assim, sob a influência do medo, todos nós estamos realmente sujeitos a paralisar. A, inclusive, duvidar da nossa memória, da nossa percepção e do nosso juízo da realidade. Muitas vítimas relatam que chegaram a duvidar de si mesmas, questionando se não estavam “exagerando em suas percepções”. E outras, inclusive, chegaram ao ponto de retornar aos atendimentos, por medo das ameaças e do poder que o médium demonstrava possuir.
 
É importante salientar que nenhuma explicação pode ser conclusiva e generalizada para todos os casos, uma vez que cada história tem sua particularidade. No entanto, compreender melhor o modo como funcionamos, nos ajuda a sermos, pelo menos, mais empáticos diante do sofrimento alheio.

*Ana Carolina Ribeiro é psicóloga, especialista em Trauma Psicológico

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Ana Carolina Ribeiro

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]