Nasci loira. Mas disso não tenho a menor culpa. Passei minha infância querendo ser morena. No mínimo, como a Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo ou como minha prima que ficava da cor de chocolate quando ia à praia – ao invés de camarão, como eu. Na minha opinião, beleza tinha que ter cor.
Naquela época, a vida em technicolor fazia mais sentido, já que até televisão era colorida… Na verdade, o mundo à minha volta e principalmente as pessoas me pareciam mais interessantes, mais autênticos, se fossem negros ou mestiços. Era também a época dos Novos Baianos, de Black-Power e Gil, Caetano, Gal, Jorge Ben, Pelé, todos eles levavam a nação ao delírio. As músicas, o futebol, as comidas, os moleques brincando na feira ou na praia, as tias Nastácias dos livros ou do dia-a-dia me faziam acreditar que a alma do Brasil vinha da África. Sem esquecer da minha querida Joaninha que fazia quitutes iniqualáveis na casa da minha avó, enquanto contava histórias encostada na pia, mão na cintura, apoiada em um pé só, meio índia, meio bruxa, muito sábia. Na minha infância, tudo que tinha origem negra, vinha acompanhado de um sorriso aberto e franco. Um olhar límpido.
Talvez por isso, eu também quisesse ser colorida. Planejei até ter uma filha com esse nome. Na escola me chamavam de “branquela” e meu olho azul virava “olho azedo”. Não me ofendia, mas me entristecia pertencer a essa minoria menos dotada de alegria. Com o passar dos anos, me acostumei, me transformei e adquiri talvez ares de camaleoa. Como Janis Joplin, pretendi ter uma certa alma negra, no sentido mais blues da palavra.
O meu Brasil sempre foi negro e mestiço. E acredito que essa é também a sua grande força. A capacidade de misturar várias raças e culturas diferentes – indígena, negra, européia, asiática, árabe – de uma forma não completamente harmônica, mas extremamente tolerante. Uma dinâmica quase única que chamou a atenção de outros países e povos. Muitos políticos e intelectuais, como Stephan Zweig – fugindo da brutal intolerância de uma Europa subjugada por Hitler – inspiraram-se no Brasil para defender uma visão de mundo mais generosa e multicultural. Porém, uma das nossas características sempre foi também, a união de um laissez-faire tradicional com um oportunismo cordial em que para tudo se dá um “jeitinho”, até para o racismo.
Um racismo sempre negado na hora do chá entre louças de porcelana e queijos vindo do Reino. Racismo negado pela nossa benevolência e a necessidade de louvar o país de um povo heróico, deitado em berço esplêndido. Mas, por trás dessa benevolência, dessa cordialidade, desse ufanismo esconde-se um racismo institucional e histórico. Fruto de décadas e séculos de escravagismo, encerrado em 13 de maio de 1888 de forma absolutamente desestruturada, forçado por pressões internacionais e pela necessidade de renovação política e econômica interna. A recém-nascida República Brasileira não se preocupou em oferecer aos ex-escravos a assistência necessária, principalmente de moradia e de educação, para tornarem-se parte ativa do novo Estado e participantes igualitários do mercado de trabalho assalariado.
Para um problema de ordem estrutural é preciso também uma solução estrutural, não apenas cordial. Por isso, acredito nas cotas raciais, sobretudo nas universidades, como um primeiro passo para transformar o racismo camarada brasileiro em um processo de integração dinâmico e concreto. Pois educação é o início, meio e fim. A verdadeira força do nosso país só poderá se desenvolver em igualdade de chances e essa igualdade precisa ser institucionalizada. Só assim nossa alma negra, generosamente mestiça poderá respirar plenamente.
Na realidade, sempre estranhei a imagem do Brasil retratada nas novelas da Globo. Principalmente depois de morar no exterior e sair do gueto burguesia-bossa nova-zona sul. Recentemente, a escritora moçambicana Paulina Diziane confirmou essa mesma visão, ao afirmar que as novelas brasileiras passam uma imagem de país branco e por isso ela tem medo do Brasil. Há alguns meses, senti também um certo constrangimento ao assistir com meus filhos o filme The Help – Histórias Cruzadas de Tate Taylor – e ter que explicar-lhes que até hoje existem no Brasil banheiros construídos exclusivamente para empregados domésticos, em sua maioria negros, realidade criticada no filme como pertecente a um passado racista. Infelizmente, racismo ainda não é passado em muitos lugares do mundo, nem mesmo na Europa, onde, nos últimos anos, tem sido cada vez mais explorado pelos partidos populistas de direita.
Exatamente nesse campo, o Brasil poderia também se mostrar um país visionário, que é na realidade sua tendência natural. Acreditar nas suas muitas qualidades e enormes riquezas, humanas, materiais, culturais. Ter orgulho de sua diversidade. Gerar, mostrar e implantar tendências. Esse país genuinamente mestiço, originalmente multicultural é o que encontro também espalhado pela Europa. Esse Brasil que nos deu Pixinguinha, Machado de Assis, Cartola, Seu Jorge, Castro Alves, Garrincha, Melodia, Elza Soares, Chiquinha Gonzaga. Nada mais justo, que seus filhos recebam também seu lugar na História que me orgulho tanto de construirmos juntos.