Ao sair da casa da família, depois das férias de mais de 30 dias numa cidade do interior da Bahia, Gervásio ligou o som do carro, acertou o volume num sertanejo animado e pegou a estrada rumo à sua casa. Sozinho, cantava alto, com os vidros abertos, quase se afogando com o vento na cara. Depois da primeira parada num posto à beira da estrada para um copo generoso de café forte, seguiu viagem.
Alguns quilômetros depois, Gervásio avistou um homem parado no acostamento da rodovia, com uma lona amarrada a uma árvore e duas caixas ao lado. A curiosidade fez o viajante parar. Diminuiu o volume do som do potente Pioneer, tirou os óculos de sol e perguntou ao senhorzinho: “Ei, amigo, tem o que aí?”, na esperança de que este lhe oferecesse uma porção de frutas frescas da região ou uma barra de doce. “É tatu!”, respondeu o nativo.
Gervásio nasceu e foi criado no sertão. O pai, agricultor desde sempre, plantava mandioca e milho e rezava para que houvesse chuva suficiente para granar o cereal. Contava mesmo era com a força da terra e a esperança para colher as raízes milagrosas da mandioca, salvação de todos no sertão. Seu Eleotério, pai de Gervásio, fazia de tudo para colocar comida no prato da família: a mulher e seis filhos. Além da mandioca, pequenos lagartos eram iguaria constante no jantar. Vez ou outra, o agricultor tinha a sorte de cruzar com uma capivara perdida ou um tatu. Aí o jantar virava banquete. E dona Sizenanda, a esposa, sabia preparar uma farofa de tatu como ninguém.
E foi lembrando da iguaria da mãe que Gervásio se aprofundou no assunto com o vendedor de beira de estrada. Indagou sobre a procedência do animal e recebeu uma resposta óbvia: “É daqui, do mato mesmo”. O caçador de tatus, então, explicou a ele que vendia os animais vivos para manter a carne fresca e ensinou a Gervásio como proceder ao abate e ao preparo. Convencido de que faria a farofa da mãe, pagou por um animal, colocou-o no porta-malas do carro e rompeu estrada.
Cinquenta quilômetros à frente, avistou um posto policial. Um agente no meio da pista fez sinal para que ele encostasse o carro. Gervásio já nem se lembrava mais do tatu. Foi quando diminuiu o volume do som e escutou um barulho estranho no porta-malas e se lembrou do animal. Tarde demais! “Boa tarde, senhor”, cumprimentou o policial. Gervásio respondeu sem hesitar. O policial pediu que ele descesse do veículo. Conferiu todos os documentos, fez um comentário sobre o clima — quente acima da média nos últimos dias — e perguntou a Gervásio sobre o pneu de estepe: “Senhor, e o estepe, está inteiro? Posso ver?”.
Por um instante, o viajante titubeou, mas percebeu que era inevitável abrir o porta-malas. E abriu! Qual não foi a surpresa do policial ao ver um tatu correndo em círculos, meio tonto. “Senhor, o que é isto?”, perguntou, quase sem acreditar. Gervásio, de pronto, contou uma história surpreendente. “Rapaz, esse aí é o Teotônio, meu tatu de estimação”, começou a lorota. “Encontrei ele debaixo da mãe morta, atropelada na beira da estrada, faz uns três anos. Era filhotinho. Cabia numa mão! Cuidei dele para que não morresse e até treinei. E o bicho se apegou a mim e não quis mais ir embora. Eu adotei e hoje cuido dele. Teotônio é ensinado e faz tudo que eu mando”. Ainda desacreditado, o policial perguntou a Gervásio se ele sabia que era ilegal transportar animais silvestres. O viajante insistiu: “Mas ele é ensinado e faz tudo que eu mando. Eu solto ele aqui, mando ele ir e depois assovio e ele volta”.
Duvidando, mas querendo ver o que o viajante faria, o policial, então, pediu que ele demonstrasse o poder de dominação sobre o tatu. Gervásio pegou o animal, assustado com as circunstâncias, colocou-o no chão, à beira da estrada, e gritou batendo os pés: “Corre, Teotônio!”, e o tatu sumiu no meio do mato. O policial riu e se voltou ao viajante: “Vai, agora assovia e chama o tatu de volta”. Com cara de estranheza, Gervásio encarou o policial e perguntou: “Tatu? Que tatu?”. O policial insistiu: “O tatu que estava no porta-malas do seu carro, ora!”. Gervásio deu de ombros, encarou o policial e rebateu: “O senhor disse que viu um tatu aqui? Eu nunca vi um tatu na minha vida”. O policial, desconfortável com a situação, alterou a voz e foi incisivo: “O senhor pode ser preso por transportar animal silvestre. E tatu é animal silvestre”. Guardando os documentos na carteira, Gervásio se voltou ao policial e arrematou: “Senhor policial, então eu estou cego! Repito: nunca vi um tatu”. Entendendo a esperteza do viajante e que já tinha perdido o flagrante, o policial se deu por vencido e dispensou-o. Gervásio colocou os óculos no rosto, entrou no carro, ligou o som e pegou o rumo de casa.
Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo
