Logo

Que Brasil é esse?

WhatsAppFacebookLinkedInX
15.05.2020 - 09:40:56
 
Votei no Bolsonaro, no segundo turno das eleições de 2018. No primeiro sufraguei o nome de um candidato que julgava melhor, honesto e comprovada capacidade administrativa e política. A inconsistente massa ignara não o quis. Minha opção na segunda fase eleitoral não se baseou em critérios técnicos, mas por opção única de pisar na cabeça do monstro da corrupção chamado PT, que levou o país ao caos.
 
Votei nele não tanto pelo seu curriculum de velho deputado, com 28 anos de Congresso, onde jamais saíra do núcleo do baixo clero (deputados sem brilho). Sabia ser ele avesso ao trabalho, pois nunca apresentou um único Projeto de Lei. Destacava-se não pela inteligência, mas pelos arroubos de grosseria e macheza. Mesmo sem conhecer, como até hoje não conheço, qualquer meta ou projeto de governo, isso porque, entre os piores, escolhe-se o aparentemente menos ruim.
 
Votei nele, mas minha opção seria anular o voto ou em branco. Mas ao saber que o Sérgio Moro, na época tido como o grande herói contra a endêmica corrupção mandando todos os ladrões de plantão para a cadeira, dava maior segurança contra os malfeitos. De lá pra cá ninguém mais foi preso. Será por omissão ou porque acabaram-se os ladrões? Demitiu esse ministro por ele não permitir que se politizasse a Polícia Federal. Da noite para o dia esse herói contra a corrupção foi transformando em bandido, por meio de fake news expelidas pelo chamado ‘Gabinete do Ódio’, o demonizando como faz com todos que dele discordam.
 
Votei nele, mas está pisando fora do prumo. Meus amigos que o seguem cegamente, como aquela radical militância petista que defendia o Lula até nos roubos, têm uma só pergunta a qualquer discordância de seu “líder”: Você é contra o Brasil? Quem colocaria em seu lugar? Como se fosse ele o salvador da pátria.
 
Votei nele, mas sou contra esse Brasil que caminha célere para se tornar uma nova Venezuela. Aliás, pelas suas constantes ações e desastradas falas, já roubou do Maduro a primazia do patrocínio no noticiário negativo internacional.
 
Votei nele, mas me desencanta os resultados econômicos de 2019. O desempenho da economia brasileira encolheu mais que no Governo Dilma (cadê o gênio Paulo Guedes?). A peste ainda não havia aqui chegado. E olha que o Temer já havia tirado a economia do fundo do poço, para o qual está voltando. E agora, depois da pandemia, o que será de nós ante um debacle mundial?
 
Votei nele, mas me decepciona pela falta de firmeza ideológica, de falar uma coisa de manhã e ter que, pessoalmente ou pela assessoria, desmentir à noite o que dissera. Ofender aos berros jornalistas e profissionais da imprensa livre, e por fake news denegrir os presidentes das duas casas do Congresso Nacional e ministros do Supremo Tribunal Federal, assim como demonizando todos aqueles políticos que poderiam fazer sombra à sua candidatura a reeleição. Especialmente aqueles que o apoiaram, como João Doria e Witzel, eleitos como ele pelo voto popular, aos quais não pedira um só voto; ao contrário, eles é que lhe deram apoio no segundo turno, pois foram ambos eleitos na primeira fase eleitoral.
 
Votei nele, mas me assusta assistir tanta incongruência de ser o único presidente a perder o protagonismo no combate ao coronavírus, na contramão da posição de todos os demais presidentes do mundo, até seu ídolo Trump. Demonizou governadores e prefeitos que tiveram a ousadia constitucional de desobedecer a sua postura genocida contra o isolamento social, que evitou muito mais mortes. “E daí? Todos vamos morrer mesmo, até eu!” – disse aos jornalistas que ouvem seu monólogo no cercadinho do Palácio da Alvorada. Demitiu um eficiente ministro da Saúde só porque esse virou “estrela” por um trabalho eficiente. Nomeou um poste ao qual nem comunica ao tomar medidas, por decretos, na área da saúde, para suspender o isolamento social, que poderia acabar como ato genocida durante a epidemia que os sábios e responsáveis governadores e prefeitos não cumprem, por ferir decisão judicial.
 
Votei nele, mas me decepciona um presidente que esconde seus exames quanto à Covid 19, se recusa a mostrar os resultados laboratoriais sobre sua contaminação, como mais uma brincadeira, alegando privacidade. Privacidade é para o cidadão comum, as autoridades eleitas têm que ser transparentes para não ocorrer como o acontecido com Tancredo Neves. Mesmo com essa negativa sobre o teste viral, limpa o nariz durante as estapafúrdias concentrações antidemocrática e esfrega o catarro em velhinhos e nos aficionados que vão lhe cumprimentar.
 
Votei nele por acreditar nas suas bravatas de que iria combater a corrupção e a Velha Política do toma-lá-dá-cá. Hoje se alia à chamada “banda podre” do Congresso, cantada publicamente pelo general Heleno durante a campanha – “Se gritar pega ladrão, não fica um no Centrão”. Show esse publicado não só na demoníaca Globo, mas até nas santificadas Band, Record e SBT.
 
Votei nele, mas não concordo com a barganha com os milionários DNOCS e o setor das ferrovias, com orçamento de mais de R$ 25 bilhões, com esse afamado grupo parlamentar, na compra de apoio no Congresso. É o mesmo que dar à raposa a guarda do galinheiro. O poder muda as pessoas, tanto que gastou mais no cartão corporativo do Governo, em despesas pessoais, no primeiro semestre de 2020, que Dilma e Temer juntos.
 
Votei nele, mas sou um dos 50 milhões de votos arrependidos.
 
 
*José Osório Naves é jornalista e escritor, presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás em três mandatos consecutivos (1965-1974).
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por José Osório Naves

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]