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O sítio da Gruta do Diogo foi o primeiro a ser explorado em Serranópolis (Foto do autor)

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21.07.2026 - 08:48:39

De férias, fomos conhecer Serranópolis, no sudoeste goiano. Dois motivos me moveram: é o local onde viveram pelo menos três gerações da minha família materna e uma das províncias arqueológicas mais importantes do Brasil.

Seis gerações atrás, José Primo da Costa Lima migrou de Sant’Anna do Sapucaí, atual Silvianópolis, no sul de Minas, para essa região, então pertencente ao município de Rio Verde, e posteriormente a Jataí (Serranópolis só se emancipou em 1958). Ele se assentou justamente na chamada Serra do Cafezal, área de relevo acidentado formado sobre os arenitos mesozoicos (de entre 252 e 66 milhões de anos atrás) da borda da Bacia Sedimentar do Paraná, onde também intrusões basálticas produziram os solos férteis para a cultura do café, que foi importante na região do século XIX à primeira metade do século XX.

Essas mesmas rochas formaram a base de ferramentas das primeiras populações ancestrais que ocuparam Serranópolis, com registros datados e amplamente aceitos na arqueologia remontando há cerca de 12 mil anos antes do presente. Os abrigos rochosos formados sobre esses arenitos, de que a região é rica, guardam registros fundamentais que contam parte importante da história da ocupação humana na América do Sul: impressionantes pinturas rupestres e restos de culturas da pedra lascada, pedra polida e de tradições ceramistas mais recentes.

Se a história familiar se dissolve nas brumas do tempo há cerca de dez gerações no passado, quando documentos praticamente deixam de existir, o que dizer da história de ocupação do continente e do território que é hoje o Brasil?

Nesse sentido, a discussão sobre a ocupação das Américas, último continente alcançado pelo ser humano, é objeto de controvérsias e debates fascinantes na arqueologia e na antropologia.

Durante décadas, vigiu inconteste o chamado “Paradigma de Clóvis”, em referência a uma cultura com ferramentas líticas sofisticadas que se espalhou por grande parte da América do Norte por volta de 13 mil anos antes do presente, sobrevivendo da coleta e da caça sobretudo da megafauna do Pleistoceno — a época geológica que se estende de 2,58 milhões a 11,7 mil anos antes do presente. Essa fauna era composta por mamutes, mastodontes, preguiças-gigantes, tigres-dente-de-sabre e cavalos americanos, entre outros mamíferos de grande porte.

Dada sua onipresença e a fatores ambientais relacionado à última glaciação, os povos Clóvis foram tomados como os primeiros americanos. Teriam chegado pela Beríngia — o corredor de terra exposto entre a Sibéria e o Alasca pela queda do nível do mar durante essa última glaciação — e  descido, em seguida, pelo Corredor de Mackenzie, um caminho livre de gelo entre as geleiras Laurentina e da Cordilheira que ocupavam quase todo o Canadá e boa parte do norte e oeste dos Estados Unidos, por volta de 13 mil anos antes do presente. Dali, teriam se espalhado pelo continente numa velocidade espantosa, como uma frente de colonização que chegou à Patagônia em poucos séculos.

Com o poder e predominância da arqueologia norte-americana, achados que não se encaixavam na cronologia lógica oriunda do paradigma — com datações anteriores a 13 mil anos, por exemplo — foram simplesmente invalidados e desconsiderados. Pouco a pouco, entretanto, as evidências se acumularam e, por fim, racharam o dique. Determinante para seu rompimento, foi o sítio de Monte Verde, na Patagônia chilena, descoberto e escavado, a partir de 1977, por Tom Dillehay, arqueólogo norte-americano da Universidade Vanderbilt.

O que encontrou era perturbador para o paradigma: estruturas de madeira que pareciam habitações, restos de plantas alimentares, ferramentas de pedra e ossos de mastodonte — tudo preservado excepcionalmente bem pela turfa úmida do local.

As datações iniciais de Monte Verde situaram o sítio em torno de 14.500 anos antes do presente — mil anos antes de Clóvis e na Patagônia chilena, a mais de 15 mil quilômetros de qualquer possível ponto de entrada pelo norte.

A recepção inicial foi hostil. Durante anos, Dillehay foi questionado, seus métodos contestados, suas interpretações minimizadas. Em 1997, entretanto, um grupo de arqueólogos céticos visitou o sítio para uma avaliação in loco, e o resultado foi uma espécie de rendição coletiva: Monte Verde era real, as datações sólidas, e o paradigma Clóvis se viu em sério aperto. O grupo publicou uma avaliação positiva no periódico American Antiquity, e o campo nunca mais foi o mesmo.

Hoje, fala-se em múltiplas ondas de ocupação provavelmente por diferentes rotas, e a ocupação das Américas é um campo bem mais aberto e cheio de buracos do que o paradigma de Clóvis desejava. Ganhou força sobretudo a ideia de uma rota pela costa do Pacífico, batizada de “Rodovia das Algas”. Segundo ela, grupos humanos já adaptados a ambientes costeiros e capazes de navegar em embarcações simples desceram rapidamente pela costa do Pacífico americano, aproveitando os ricos ecossistemas de algas marinhas que se estendiam de forma relativamente contínua da costa da Ásia até a América do Sul. Essa rota não exigia o corredor terrestre de Mackenzie — que só se tornou habitável na verdade por volta de 13 mil anos antes do presente —, e sugeria deslocamentos muito mais rápidos que qualquer migração terrestre interior.

Com a derrubada de Clóvis, sítios antes olhados com desdém e ceticismo foram reabilitados e são hoje explorados com grande interesse por sua importância para compor esse grande quebra-cabeças. É o caso, no Brasil, por exemplo, dos famosos sítios da Serra da Capivara, no Piauí, com datações de vestígios que remontam há pelo menos 22 mil anos, e o de Santa Elina, no Mato Grosso, com vestígios de ferramentas de pedras em camadas datadas entre 27 mil e 25 mil anos.

Os próprios vestígios mais antigos de Serranópolis, com cerca de 12 mil anos, não eram levados a sério pelo mainstream da arqueologia enquanto o paradigma permaneceu de pé — afinal, eram praticamente contemporâneos desses povos considerados o ancestral comum de todos os americanos originários.

A riqueza dos sítios de Serranópolis se desdobra em duas direções: guardam testemunhos de quatro fases distintas de ocupação sobrepostas e oferecem pistas para os caminhos da adaptação humana em um ambiente em progressiva transformação após o fim da última grande glaciação.

Os achados mais antigos incluem um esqueleto humano, que oferece essa datação de quase 12 mil anos e foi apelidado de “Zé Gabiroba” — ou mais formalmente de “Homem da Serra do Cafezal” —, um dos esqueletos humanos mais antigos da América do Sul. Esse indivíduo fez parte da primeira fase de ocupação da região, dentro da chamada Tradição Itaparica que habitou o Cerrado em uma fase bem mais seca e fria — cerca de 3 a 4 graus em média —, convivendo possivelmente com os últimos representantes da megafauna do Pleistoceno, especialmente preguiças-gigantes, gliptodontes e mastodontes. A paisagem desse Cerrado era muito mais aberta que a do presente, com predominância de campos limpos e campos sujos e vegetação mais densa apenas ao longo das calhas dos rios.

A reorganização climática não gerou aumento imediato de umidade. Ao contrário, a aridez na região se intensificou até cerca de 8 a 5 mil anos antes do presente. Com isso e uma provável diminuição da caça disponível, os caçadores-coletores que ocuparam a região se adaptaram a uma dieta que tinha como elemento importante moluscos bivalves que abundavam nos rios da região. Essa é a cultura da chamada Tradição Serranópolis. Estima-se que o Cerrado tenha se estabilizado ambientalmente em sua forma e extensão atual somente por volta de 5 mil anos atrás.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG. / [email protected]

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