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Quando nem tudo dá certo

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24.11.2011 - 23:24:23

A gente por aqui tem dito que o bom de Bragança é a Espanha. É adorável morar aqui, mas mais ainda pegar o carro num fim de semana e chegar às terras espanholas. Outro dia foi Zamora e Salamanca. Dessa vez foi Madri. Ai, Madri. Como me encantou, apesar de ter passado só um fim de semana. O que me conforta, ainda mais, é que podemos voltar assim que pintar um fim de semana livre. A Espanha, de algum modo, tem me conquistado. Como aqui estamos na divisa, tenho convivido com essa cultura, de certo modo. Os espanhóis são muy simpáticos, as cidades muy hermosas e as músicas muy buenas!

Mas acontece que nem toda viagem tudo dá certo. E se aprender com os próprios erros é sábio, com o dos outros mais ainda, esse texto vai para você, que não quer errar numa viagem para Madri. Ou outra cidade qualquer que não conhece e não tem um guia-amigo local. Na capital espanhola, por desencontros de datas e telefones de amigos que me ajudariam no tour, tive de me virar sozinha. Junto com os quatro amigos brasileiros que foram comigo.

Antes de dizer o que não deu certo, uma dica para você que quer pagar pouco com hospedagem e não andar de albergue em albergue. O hostelworld.com é um bom site (eu deveria cobrar pela propaganda) porque além de ter todos principais albergues cadastrados tem o mais importante: a qualificação de quem esteve lá. Lição um: leve isso sempre em conta. Acima de 85% está legal, leia o que os hóspedes falaram e olhe como cada item foi avaliado: segurança, localização, limpeza, etc. É batata, sempre corresponde.

Levando isso em conta, ficamos num bom hostel e muito bem localizado, perto da Calle La Palma, em Malasaña. Tudo por ali se faz facilmente a pé e de metrô. Portanto, mesmo antes de chegar em Madri eu já sabia que ia estacionar o carro e tirar de lá só para ir embora. E aí que entra o maior inimigo de minha viagem: o estacionamento. Uma verdadeira novela!

Sem saber que não era só achar uma vaga e estacionar, demoramos mais de hora procurando, em vão, uma vaga, até pararmos o carro num estacionamento a 2,50 euros a hora. Nisso decorreu um atraso considerável para assistirmos ao espetáculo Zarkana, do Cirque du Soleil, marcado para as 20h30. No meio da viagem de metrô para o circo, Dani, meu amigo, se lembra que esqueceu o ingresso no albergue e volta para buscar. Depois de descer do metrô, caminhando para o Madrid Arena, Pati (outra amiga) fica para trás, porque corremos muito à frente para saber se ainda poderíamos entrar.

Felizmente (ou infelizmente) conseguimos, todos, assistir à segunda parte do espetáculo. Foi meio espetáculo, mas não foi meio bom, como disse Dani. Assistir Cirque du Soleil é uma massagem na alma, emoção, inspiração e arte dessas de que a gente sai se sentindo melhor.

Felizes, de alma lavada, saímos do espetáculo, comemos e só faltava uma cervejinha para fechar a noite. A ideia era só buscar o carro e estacionar na rua. Saímos às 12h30 e voltamos às 3h. Achamos uma vaga mas, depois de muito perguntar, descobríamos que depois das 9h teríamos que, de duas em duas horas, pagar por aqueles poucos metros. Procuramos outro estacionamento e foi ali mesmo que o carro ficou. A cerveja ficou para outra noite. No dia seguinte, tiramos o carro de lá e nos afastamos consideravelmente do centro para encontrarmos uma vaga. Lição dois: esqueça estacionar na rua, pague um estacionamento e vá ser feliz.

Entramos madrugada planejando o tour diurno. Atitude sã! Lição três: planeje cada horinha sua, se seu tempo é curto. Para o dia e para a noite também. Depois da emoção de saber que poderíamos entrar no circo mesmo atrasados, ver o Dani chegando em tempo de ver o espetáculo e de reencontrar a Pati lá dentro, minha maior emoção em Madri foi no sábado: no Museu Reina Sofia, ver ao vivo a Guernica e todo o processo de Picasso até chegar à obra final. Os passeios diurnos foram todos bem sucedidos: além do Reina Sofia, Museo del Prado, bater perna na Gran Vía, almoçar na Plaza Maior, se deliciar com os artistas de rua e passear pela Puerta del Sol.

De noite, depois de fechar a novela do carro, só faltava ir para balada! Afinal, a fama da noite madrilenha não é fraca. As alemãs com quem dividíamos quarto deram a dica da noite: Kapital. A discoteca mais famosa de Madri, muito recomendada. “15 euros para entrar com direito a duas bebidas. A cerveja custa 12 euros”. Muito mal-acostumados com Bragança, a pagar 2,50 euros para entrar na boate e ter direito a quatro bebidas, fomos buscar saber se era o melhor mesmo para aquela noite. Uns espanhóis hospedados também no albergue nos sugeriram a Puerta del Sol, eles iam para lá. Fomos à frente e não encontramos nada. E veio a chuva, que já sabíamos que era prevista e mesmo assim saímos despreparados.

E fomos caminhando pelo toró, no frio, procurando por balada, como se nada acontecesse. Cansados de tomar chuva, passar frio e vontade de beber cerveja, entramos em qualquer pub e pedimos um chope. Sentamos, brindamos e bebemos: o chope estava quente. Olhamos um para cara do outro e começamos a rir: a noite não estava indo bem. Decidimos que era melhor optar pelo certo: ir para tal da Kapital e pronto. Mas já eram quase 3h. Metrô não passava mais. Táxi não carregava cinco pessoas. Era muito provável que o preço para entrar na boate também já tivesse subido.

Continuamos procurando, em vão, qualquer boate. Seguimos uns madirilenhos, entramos em duas boates onda-errada até que, enfim, desistimos da noite. Acabamos na Coca com pizza. Era engraçado, triste e decadente ver toda aquela energia e vontade de causar reduzida a uns bestas encharcados com cara de choro. Para fechar, caminhando de volta para o albergue, uns espanhóis escutaram nosso português brasileiro e o que começaram a cantar? “Nossa, nossa, assim você me mata, ai, se eu te pego…” e cantaram a canção inteira. A parte da música que mais me irritou não foi “ai, se eu te pego”. Foi “sábado na balada”. Dolorido ouvir aquilo sábado, às 5h, sem ter conhecido uma balada decente em Madri. Lição quatro: noites em capitais são mesmo mais caras. Compre umas bebidas antes, faça uns drink-games no albergue e siga o fluxo: vá para onde recomendarem.

O pior de tudo é que, de fato, Malasaña é o local mais recomendado para sair para pubs. Infeliz saber disso somente na volta. Planejamento de viagem é importante até para noite. E foi o que não fizemos. O dia estava todo traçadinho, cronometrado e calculado no mapa. Por isso, o domingo foi bem como o dia de sábado: churros com chocolate para começar o dia (típico!), passeio pelo Jardim Botânico e Parque del Retiro. Ainda que com uma chuvinha. Paciência, estamos no outono. Com aquele gostinho de quero mais, voltamos para Bragança. Mas volto urgente para me vingar da noche madrileña.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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