Samuel Straioto
Goiânia – O PT pode definir o nome do produtor rural Flávio Faedo como candidato ao governo de Goiás em 2026. O encaminhamento interno do partido surpreende diante das articulações que estavam sendo construídas até então, mas tem uma lógica clara: visa atacar um problema crônico dos petistas no estado — a falta de diálogo com o agronegócio, frente amplamente dominada pelo bolsonarismo e historicamente resistente ao PT. No segundo turno de 2022, Bolsonaro venceu em Goiás com 58,71% dos votos válidos contra 41,29% de Lula, uma diferença de mais de 650 mil votos construída especialmente no cinturão do agro do sudoeste goiano, onde cidades como Rio Verde e Jataí entregaram ao ex-presidente mais de 61% dos votos. É exatamente desse território que o partido quer tirar sua carta mais surpreendente.
O nome surpreende porque foge ao perfil dos candidatos que estavam sendo ventilados até então, incluindo o ex-deputado estadual Luiz César Bueno, o advogado Valério Luiz e o jornalista Cláudio Curado. A avaliação é que Faedo tem algo que nenhum deles carrega: credenciais reais dentro do setor que o PT mais precisa conquistar.
Accorsi na articulação
A movimentação em torno do nome do sojicultor tem uma protagonista clara: a deputada federal Delegada Adriana Accorsi, presidente do diretório estadual do PT em Goiás. É ela quem está defendendo internamente a candidatura de Faedo e quem o acompanhou nas reuniões desta quarta-feira (20) em Brasília.
Pela manhã, Accorsi e Faedo estiveram com o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e com o vice, Jilmar Tato. À tarde, o grupo seguiu para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A presidente estadual tem pressionado a direção nacional por uma definição mais rápida da chapa majoritária goiana — e o nome do produtor rural é sua aposta pessoal para destravar o impasse. Com a proximidade das convenções e a chapa majoritária ainda em aberto, Accorsi entende que o PT precisa de um nome que dialogue com o eleitorado do interior, especialmente com o agro, onde a resistência ao partido é mais enraizada.
Diversas reuniões aconteceram nesta quarta-feira, 20. Ficou acertado que o assunto seria avaliado internamente e Faedo também faria uma análise com sua família sobre a possibilidade de candidatura. A oficialização do nome como possível candidato ao governo de Goiás deve acontecer em até 10 dias
Quem é Flávio Faedo?
Com 63 anos, Flávio Faedo nasceu no Rio Grande do Sul, mas se considera goiano depois de quatro décadas vivendo no estado — tem até Título de Cidadão Goiano. Formado em Administração Rural pela Universidade de Passo Fundo, construiu sua trajetória no agronegócio do sudoeste goiano com passagens por cargos representativos do setor: presidiu a Associação de Produtores de Grãos por cinco anos, fundou o Clube Amigos da Terra, presidiu a Comissão de Fibras e Oleaginosas da Federação da Agricultura de Goiás (Faeg), integrou a Comissão de Grãos do Sindicato Rural de Rio Verde por nove anos e foi vice-presidente da Federação Brasileira Plantio na Palha representando Goiás.
Na política, disputou apenas uma eleição — como candidato a vice-prefeito de Rio Verde pelo PT. É filiado ao partido há quarenta anos, combinação incomum para alguém que construiu nome no setor que mais rejeita a sigla.
A pauta do campo como condição
Faedo não estava entre os nomes cogitados — ele próprio confirma. E deixou no ar uma condição não declarada: a receptividade às pautas que está levando ao PT Nacional e ao governo Lula parece ser a base para decidir se aceita ou não entrar na disputa.
Seu nome surgiu, segundo ele, diante de “uma certa resistência do agro em relação ao PT” — resistência que, com seu histórico, teria condições de reduzir.
Faedo explicou que as reivindicações dos produtores rurais giram em torno do Plano Safra e das condições de crédito para produtores arrendatários — aqueles que plantam em terras alugadas e partem com custo mais alto do que os proprietários. “Está pegando uma fase difícil, de pouca rentabilidade na atividade”, relatou em breve entrevista por telefone.
“Nós estamos reivindicando uma taxa de juros menor, um seguro onde o produtor garanta uma renda mínima e que dê uma segurança para os bancos emprestarem para esses produtores que estão com mais dificuldades do que os outros”, completou.
A aposta e o que ela representa
Para o analista político Rodrigo Andrade, a movimentação revela o tamanho do desafio petista no estado. “O PT sabe que não ganha o governo de Goiás sem penetrar no interior e no agro. A vantagem de Bolsonaro foi construída tijolo a tijolo nas cidades médias do sudoeste goiano, onde o produtor rural tem peso eleitoral real. Um nome como Faedo não vai reverter essa equação sozinho, mas pode abrir conversas que candidatos tradicionais do partido simplesmente não conseguem ter”, avalia.
Andrade aponta que o bolsonarismo no agro goiano não é apenas preferência eleitoral — é identidade. “O produtor rural do sudoeste de Goiás não votou em Bolsonaro só por política econômica. Votou porque se enxergou representado. Para o PT disputar esse eleitor, precisa de alguém que carregue as mesmas referências culturais e profissionais — e que tenha credenciais para provar”, analisa.