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Projornal mostrou ser possível a união de jornalistas para trabalho conjunto

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11.04.2021 - 18:49:09
A Redação

Goiânia – A Cooperativa dos Jornalistas de Goiás (Projornal) demonstrou ser possível a união dos profissionais de uma mesma área para atuarem em conjunto, de forma organizada e produtiva, com resultados para aqueles que efetivamente participarem de suas atividades. A opinião é do jornalista Jales Naves ao responder o questionário da jornalista Kalyne Menezes, que faz doutorado em Comunicação, Cultura e Cidadania na Universidade Federal de Goiás (UFG) e vai abordar a Projornal em sua tese. “É um sistema que funciona e exige muita disciplina e educação para a cooperação, compreender o momento e a responsabilidade de cada um em todo o processo”, afirmou, para acrescentar: “Não é fácil, mas é viável. Ela deixou o exemplo”.

 
Ele integrava um grupo de jornalistas formados pela UFG que se reunia com frequência para discutir questões da área e trabalhou em conjunto em algumas atividades. Eles se uniram mais a partir da demissão de um deles de um semanário goianiense e denunciaram as dificuldades do mercado de trabalho em Goiás no I Congresso Nacional de Jornalistas pela Liberdade de Imprensa, realizado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo, em 1978.
 
O grupo continuou unido e buscou alternativas. Jales coordenou as discussões que levaram à criação da Projornal, a terceira fundada no Brasil. Ele explicou que a Cooperativa nasceu da análise crítica do jornalismo praticado em Goiás, diante das fortes restrições no mercado, com fechamento de publicações e de sucursais, como do “Jornal de Brasília” e do “Correio Braziliense”.


Kalyne Menezes, doutoranda em Comunicação pela UFG (Foto: Arquivo Pessoal)
 
Discussões e trabalho conjunto
Desde a época da Universidade – explicou – “vínhamos nos reunindo, muitos colegas, para conversas, discussões e trabalhos conjuntos, para participar das entidades existentes, como a Associação Goiana de Imprensa e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Goiás, e estando sempre próximos. O mercado de trabalho estava em expansão, mas com reduzidas oportunidades para os novatos, e tínhamos uma participação mais organizada”. Em 1976, a convite do jornalista José Asmar, da nova direção dos Diários Associados em Goiás, o grupo assumiu a Redação da “Folha de Goiaz”, quando Jales foi Chefe de Reportagem da equipe, e implantou um novo ritmo, em termos jornalísticos, que chegou a preocupar a concorrência. Ficaram apenas três meses nessa experiência.
 
Depois, ele viajou para a Bélgica, onde começou um curso de pós-graduação em Comunicação na Universidade Católica de Louvain, Ao retornar a Goiânia, em julho de 1978, foi convidado trabalhar no jornal “Cinco de Março”, onde já estavam muitos colegas. Logo de início teve um problema: não aceitou o sistema adotado pela empresa, de não anotar o salário na carteira de trabalho. Em função disso, foi demitido e, ato contínuo, toda a redação se demitiu, voluntária e solidariamente. “Esse ato nos uniu mais, e decidimos continuar juntos”, enfatizou.
 
Era outubro e no final do mês decidiram denunciar a difícil situação do mercado de trabalho em Goiás e questões afins no I Congresso Nacional de Jornalistas pela Liberdade de Imprensa, na Câmara Municipal da Capital paulista, nos dias 26 a 28. Nesse encontro a delegação de Goiás assumiu e defendeu a proposta do jornalista Joãomar Carvalho de Brito Neto, intitulada “No desrespeito ao trabalho, o cerceamento da liberdade”, no qual incluiu a “Nota de esclarecimento” sobre episódios recentes na imprensa goiana.

Nele, Joãomar afirmou que “em Goiás a censura empresarial tem se constituído no maior obstáculo a uma prática jornalística correta. Ou seja: que atenda ao leitor. No entanto, há outros problemas, concretos. Nós entendemos que a prática do Jornalismo corresponde a um direito que não se restringe a uma categoria profissional (os jornalistas). E mais do que isto, o Jornalismo, sobretudo numa região como a nossa, deve se constituir num indispensável instrumento de transformação da realidade”. Criticou o estreito relacionamento entre empresas jornalísticas e o Estado, de dependência financeira, não incentivando a atuação do profissional. Apontou, como consequência, que cai o nível da informação, reduz a preocupação social do jornalista; uniformiza a informação; e desestimula a reportagem investigativa, além de limitar o mercado de trabalho.

 
Da união surge a Projornal
Na volta a Goiânia, o grupo decidiu continuar unido e buscou alternativas. Uma delas foi a criação de uma Cooperativa de Jornalistas, a partir de um modelo que vinha repercutindo em Porto Alegre, a Coojornal, que surgiu em 1974 e tinha seu jornal com esse nome. “Coordenei a Comissão Organizadora dessas discussões e em 12 de dezembro de 1978 criamos a Cooperativa dos Jornalistas de Goiás Ltda. (Projornal)”, destacou. Seus objetivos: organizar, reunir, registrar e editar a produção de seus associados; executar serviços de imprensa e propaganda; e produzir jornais, revistas, livros e outras publicações.
 
A primeira Diretoria da Cooperativa (1979-1981) foi presidida pela jornalista Marli Brasil, “que teve pulso forte para administrá-la nos difíceis dois primeiros anos – era uma primeira experiência de gestão para todos, manteve o equilíbrio financeiro e enfrentou com firmeza as disputas internas, sempre prejudiciais a qualquer projeto coletivo”, destacou.
 
Nesse primeiro mandato (1979-81) Jales integrou o Conselho de Administração da Cooperativa, coordenou seu Departamento de Jornalismo (Pequenas Publicações), que prestava serviços para terceiros, e foi eleito membro do Conselho Editorial do “Jornal de Deboche”, veículo próprio da Projornal.
 
Agência de Notícias e pequenas publicações
A Projornal foi criada por 29 profissionais e começou seu trabalho por uma Agência de Notícias, para produzir e vender o trabalho jornalístico dos associados, e pela elaboração e produção de jornais para empresas públicas e privadas, como as cooperativas agropecuárias, para numa segunda etapa lançar o seu próprio jornal. “O planejamento foi otimista: produção de 10 jornais por mês, para gerar receita para manter a Cooperativa e trabalho para os cooperados. O entusiasmo foi grande, mas esbarrou na falta de profissionais de outras áreas para viabilizar os negócios, como publicitários e pessoal de venda, para prospectar e trazer novos serviços. Já no início não conseguimos realizar atividades para utilizar a mão de obra de seus integrantes, criando um certo desestímulo”, sublinhou.
 
No planejamento orçamentário de 1979 o que foi projetado para ser realizado em um mês acabou sendo feito em um ano, por falta de pessoal e de estrutura: oito jornais, tamanhos tabloide e ofício, totalizando 27 edições – “O Barnabé”, da Associação dos Funcionários Públicos do Município de Goiânia; “O Liberal”, do Sindicato dos Engenheiros do Estado de Goiás; “Informe Comigo”, da Cooperativa Mista dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano, de Rio Verde; “Compsgol Jornal”, da Cooperativa Mista dos Produtores de Soja de Goiatuba; “Informativo Campal”, da Cooperativa Agropecuária Mista de Paraúna; “Jornal das Cooperativas”, da Organização das Cooperativas do Estado de Goiás; “Informativo”, do Clube de Engenharia de Goiás; e “Teto”, da Companhia de Habitação de Goiás.
 
Nesse primeiro ano a Agência Projornal produziu 53 reportagens e as comercializou – duas delas foram de autoria de Jales Naves: “O movimento estudantil já existe de novo em Goiás”, publicada no “Jornal Opção” de 18.04.1979, elaborada em conjunto com Laurenice Noleto Alves e comentário de Marly Paiva; e “A chacina do Meruri – Crime sem castigo”, com comentário de Antônio Carlos Moura, no jornal “Cinco de Março’”, de 02/08.04.1979. Quanto às demais matérias, os jornais “O Popular” e “Jornal de Brasília” publicaram simultaneamente um caderno, utilizando 15 textos; e ainda foram veiculadas na “Folha de Goiaz” e no “Top News”, de Goiânia; no “Coojornal”, de Porto Alegre; “Jornal da República”, de São Paulo; e na revista “IstoÉ”.
 

Matéria publicada da Agência Projornal pelo "Cinco de Março" (Foto: Arquivo de Jales Naves)
 
“Tive menor participação no “Jornal de Deboche”, uma proposta idealista dos cooperados Wilmar Alves e Jorge Braga, de um veículo próprio”, explicou, ao justificar seu maior envolvimento com as outras áreas da Cooperativa. “O projeto visava ocupar o espaço vazio na imprensa goiana com jornalismo de humor, mantendo o pé na realidade sociocultural, política e econômica do Estado, e possibilitar uma apreciação analítica de temas diversos”, anotou.

“Era intenção, também, provocar abertura no mercado de trabalho, oportunizando a profissionais que até então não tinham tido o devido aproveitamento de suas potencialidades; oferecer posicionamento crítico ao leitor quanto ao que recebia da imprensa diária; e servir de apoio, inclusive formando pessoal e prática editorial”. Para ele, “foi uma experiência positiva, que contribuiu para discutir o jornalismo feito em Goiás, mas que esbarrou na falta de estrutura empresarial e comercial da Cooperativa”.

 
A Projornal também lançou o livro de poemas “Cantigas menores”, de dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, MT.
 
Luta pela sobrevivência e trabalhos
Na luta pela sobrevivência, 1980 repetiu os dados do primeiro ano, com a produção de 23 trabalhos: “Jornal das Cooperativas”, da OCG, quatro edições; “Compsgol Jornal”, igualmente quatro edições; “O Liberal”, três edições; “Informativo Construart”, de Cuiabá, MT, uma edição; “Teto”, da Cohab-GO, três edições; “Informativo Campal”, duas edições; “Informativo Municipal”, da Prefeitura de Petrolina de Goiás, uma edição; “O Barnabé, da AFPMG, duas edições; “Informativo ASCEEG”, da Associação do Servidores da Caixa Econômica do Estado de Goiás, três edições; “O Comurguinho”, da Associação dos Servidores da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), uma edição; e “O Mineral”, do Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios e Derivados de Petróleo do Estado de Goiás, uma edição.
 
A Agência Projornal produziu 55 reportagens, das quais 18 em atendimento a acordo com o Conselho Editorial da ‘Mesa Redonda’, que sete entidades da área de Engenharia mantiveram semanalmente, primeiro em “O Popular” e depois no “Diário da Manhã”.
 
Incentivar novas fontes de trabalho
Nas discussões que faziam na época, concluíram que o padrão da imprensa goiana não correspondia ao potencial existente para melhor exercitá-la, não havia perspectivas de crescimento e muitas publicações morreram no nascedouro ou com pouco tempo de existência. “As restrições continuavam progredindo e inviabilizando novos projetos”, enfatizou. “Era um número considerável de jornalistas capacitados e eficientes, cujo trabalho profissional poderia adquirir uma projeção bem maior se devidamente aproveitado. Além disso, o Curso de Jornalismo da UFG, desde 1971, jogava novos jornalistas no mercado, sem encontrarem uma equivalente oportunidade por parte das empresas”.
 
A ideia era privilegiar e incentivar novas fontes de trabalho, para não permitir que o Curso de Comunicação fosse apenas um núcleo de preparação de mão-de-obra para determinadas empresas jornalísticas. Da mesma forma, absorver esses profissionais disponíveis “e, pretensamente, reorientar o próprio sentido dos meios de comunicação, considerando que os cooperados seriam os donos de sua produção, com essa estrutura localizada no próprio Estado”.
 
“O modelo da Coojornal serviu de base. No entanto, eles estavam em estágio diferente, inclusive economicamente, criaram uma estrutura mais apropriada e conseguiram dar passos mais direcionados para o veículo próprio, avançando mais", afirmou Jales Naves.
 
Em suas observações, o planejamento da Projornal “foi muito otimista para um mercado que não conhecíamos e não tivemos condições de montar uma estrutura profissional e empresarial para apoiar esse início”. Começou com um capital pequeno, cada um com Cr$ 5.750,00, para integralização de cinco cotas partes, o que totalizava um capital subscrito de Cr$ 166.750,00. A projeção era gerar uma receita de Cr$ 4,1 milhões já no primeiro ano, com produção jornalística, “e o resultado ficou bem abaixo”. Inclusive, nem todos conseguiram subscrever suas cotas.
 
Bem aceita pelos jornalistas
Os jornalistas receberam muito bem a criação da Cooperativa, muitos se mostraram surpresos, mas não houve uma aproximação com as entidades e os profissionais “não abraçaram a proposta de mudança que pensávamos ser possível fazer. Quem já estava empregado ficou em seu canto”, esclareceu.
 
Quando foi montado o “Jornal de Deboche”, sem muita discussão interna e sem um planejamento com base na realidade, inclusive nas partes de gestão e financeira, “sentimos a dificuldade dessa proposta: desde o início foi pequena a participação dos cooperados, basicamente dos seus idealizadores, e mais de quem não era associado”, afirmou, para completar: “A questão gerou muita polêmica, criou animosidades e mostrou o despreparo para uma ação conjunta de todos, pela forma como o assunto foi conduzido”.
 
Trabalho amador, sem profissionalismo
Olhando hoje, de longe, Jales considerou que eles foram, na época, muito amadores, sem profissionalismo ou mentalidade empresarial, e por isso “deixamos de ocupar espaço no mercado. Produzimos jornais para empresas, matérias jornalísticas para jornais e revistas e fotos, e poderíamos ter ido mais longe, com projetos mais ousados, viáveis e importantes para todos, especialmente em termos de contribuição política”.
 
Dos veículos de informação para terceiros faziam a parte técnica e encomendavam os serviços gráficos, que eram entregues direto nas empresas. Com o “Jornal de Deboche”, produção própria, “não tínhamos uma estrutura de comercialização e o sistema de distribuição dos exemplares nas bancas era precário, o que não possibilitou sua maior circulação”.
 

Capa da primeira edição do "Jornal das Cooperativas" (Foto: Arquivo de Jales Naves)
 
Falta de informações e de educação para a cooperação
As maiores dificuldades enfrentadas – como explicou – foram a falta de conhecimento do sistema cooperativista, de uma educação para a cooperação, de uma visão mais empresarial do projeto, que possibilitasse a geração de receitas e o maior aproveitamento do potencial de seus cooperados, e de mais envolvimento de todos no projeto. “Faltou criar uma estrutura de apoio e suporte para comercialização dessa produção e utilização da mão-de-obra existente”, acrescentou. “Participei mais nos dois primeiros mandatos da Cooperativa”.
 
No segundo biênio (1981/1983) Jales foi eleito Presidente, em chapa única, quando manteve o mesmo entusiasmo do início da Cooperativa, com seu trabalho e suas propostas para torná-la uma alternativa de ocupação para os cooperados. Entre os planos, a ampliação do número de publicações para terceiros e a criação de cadernos, para discutir temas específicos e comercializá-los com os veículos de comunicação; para vestibulandos, mostrando nossa história e a realidade socioeconômica e política; e um terceiro, com o selo ‘Debate”, para discutir a história, levantar informações e reescrevê-la. Eram muitas as ideias e poucos para viabilizá-las.
 
“A grande maioria dos cooperados tinha emprego, dedicava-se a ele e não se dispôs a enfrentar as adversidades naturais quando se vai ousar e construir novos caminhos”, enfatizou.
 
Quando deixou a presidência da Cooperativa e transferiu para os colegas a condução de seus trabalhos, passou a dar maior assistência à OCG. Tinha sido indicado pela Projornal para representá-la na direção da entidade representativa do sistema estadual, a Organização das Cooperativas do Estado de Goiás (OCG). Depois de três meses, com a renúncia do Presidente, foi eleito, por unanimidade, para concluir o mandato, e acabou ficando 10 anos na função.
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por Raphaela Ferro

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