Jales Naves
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – Jurista, professor universitário e escritor, o advogado Antônio Marcos Nohmi, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, foi empossado na manhã de quinta-feira, dia 29, como sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, e já anunciou o desejo de aprofundar a cooperação entre as duas instituições. “Que possamos aproximar pesquisadores, promover encontros, compartilhar conhecimentos e desenvolver projetos capazes de revelar, ainda mais, a riqueza dos vínculos históricos entre Minas e Goiás”, propôs. “Que os caminhos que, no passado, foram percorridos em busca do ouro, sejam hoje percorridos em busca do conhecimento, da cultura e da amizade”.
Com experiência em Direito Internacional e Arbitragem, ele possui mestrado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas, por onde se graduou em Direito (1995), é doutorando em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais e especialista pela Universidade de Lisboa. Leciona na Universidade FUMEC desde 1997. A obra “Direito Internacional na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 segundo a jurisprudência” é um marco em sua produção; também é autor de “Arbitragem Internacional – Mecanismos de Solução de Conflitos entre Estados”.
Responsabilidade
Ao falar, em nome dos outros sete empossandos, Nohmi destacou que “existem momentos em nossas vidas que nos sentimos acolhidos por uma história maior do que a nossa e por pessoas que compartilham conosco o compromisso de preservar a memória, cultivar o conhecimento e servir à cultura brasileira”. “É esse o sentimento que nos reúne nesta manhã na histórica Casa Rosada de Goiânia”.
Receber o título de associado correspondente do IHGG, como explicou, representa, “para cada um de nós, uma honra extraordinária”. Mas representa, acima de tudo, uma responsabilidade. “A responsabilidade de corresponder à confiança daqueles que nos escolheram e de contribuir efetivamente para a continuidade da missão desta Casa”.
O IHGG, fundado em 07.10.1932, acaba de completar 94 anos de existência, e acompanhou as transformações de um Estado que soube preservar suas raízes enquanto construía novos caminhos para o futuro. “São quase 10 décadas dedicadas ao estudo, à pesquisa, à preservação documental e à valorização da história e da cultura goianos”. “Ingressar em uma instituição com essa trajetória é receber uma herança de responsabilidades”, reconheceu.
Liderança
Em seu pronunciamento, Nohmi dirigiu uma palavra muito especial de reconhecimento ao presidente Jales Mendonça. “Meu amigo, se assim posso chamá-lo, muito obrigado pela generosidade com que nos recebe, pela confiança depositada em cada um de nós e pelo trabalho que tem realizado à frente deste Instituto”. “Sua incontestável liderança demonstra que respeitar a tradição significa reconhecer as bases sobre as quais podemos construir o futuro”.
Jales Mendonça entre os novos sócios correspondentes Antônio Marcos Nohmi e Fábio Chateaubriand (Foto de Clodoaldo Marques)
Citou uma demonstração expressiva dessa capacidade de congregar pessoas e instituições há exatamente um ano. Nos dias 30 e 31 de outubro de 2025, Goiânia acolheu o VIII Colóquio dos Institutos Históricos e Geográficos, dedicado ao tema ‘Dom Pedro II e o Brasil: 200 anos’, disse. “Foi um encontro memorável, que reuniu representantes de diferentes regiões do país, para refletir sobre a formação nacional e sobre a preservação da memória brasileira”.
“Sob a liderança do presidente Jales e com a dedicação de seus colaboradores, Goiânia se tornou, naqueles dias, um verdadeiro ponto de encontro da história e da cultura nacionais”, frisou. “E é significativo que, um ano depois, estejamos novamente reunidos, agora para celebrar o ingresso de novos associados, que estiveram presentes naquela ocasião”.
O Colóquio aproximou instituições, ressaltou. “Esta solenidade aproxima ainda mais as pessoas. E são pessoas que dão vida, sentido e continuidade às instituições”.
Caminhos históricos
Nohmi falou de Minas Gerais, “terra de onde venho, terra dos Inconfidentes e de JK, e onde tenho a honra de presidir o IHGMG”. “Minas e Goiás compartilham caminhos históricos, tradições culturais, experiências humanas e uma maneira muito própria de compreender a vida”. “Nossa aproximação vem de longe”.
No século XVIII, como relatou, os caminhos da mineração ligaram diferentes regiões do interior da América portuguesa. O ouro impulsionou expedições, movimentou populações, favoreceu o surgimento de arraiais e contribuiu para a formação de sociedades que, embora distintas, desenvolveram profundas afinidades. “Mas é preciso lembrar: o ouro abriu caminhos, porém, foram as pessoas que construíram as cidades”.
“Homens e mulheres, livres e escravizados, trabalhadores, comerciantes, religiosos, artesãos e artistas deixaram suas marcas na formação de Minas Gerais e de Goiás. Em Minas floresceram Vila Rica, Mariana, Sabará, São João del-Rei e tantas outras localidades que testemunharam nosso passado colonial”. Em Goiás, surgiram núcleos como o Arraial de Sant’Ana, que daria origem a Vila Boa, atual cidade de Goiás, e Meia Ponte, hoje Pirenópolis.
“Quem percorre as ruas da antiga Vila Boa, nossa querida Goiás Velho, experimenta uma emoção familiar a quem conhece Ouro Preto, Diamantina ou Tiradentes. Os casarios, as igrejas, os becos, as festas religiosas e as tradições populares parecem estabelecer um diálogo silencioso entre nossas terras”, esclareceu.
Explicou que não se trata de histórias idênticas. “Cada região construiu sua própria identidade. Mas são histórias que se reconhecem, que se aproximam e que se iluminam mutuamente”. “E essa afinidade está na hospitalidade, na culinária, na conversa demorada, na valorização da família, no respeito aos mais velhos e no orgulho de pertencer à própria terra”.
Algo familiar
“Mineiros e goianos conhecem o valor de uma porta aberta, de uma mesa compartilhada e de uma boa prosa”, salientou. “Qualquer mineiro se sente muito à vontade em Goiás. Aqui encontramos algo profundamente familiar”, reforçou.
Essa proximidade também se revela na literatura.
De um lado, “Minas nos ofereceu Drummond, Adélia Prado e Guimarães Rosa, que transformou o sertão em uma reflexão universal sobre a condição humana. De outro, Goiás nos deu Cora Coralina, que encontrou nos becos, nas pedras, nas lembranças e na vida cotidiana de sua cidade a matéria de uma poesia capaz de tocar o mundo”. “E nos deu também Bernardo Élis, cuja obra revelou, com força e sensibilidade, personagens, conflitos e realidades do Brasil interiorano. São escritores que nos ensinam uma lição preciosa: o regional, quando tratado com verdade e profundidade, alcança o universal”.
Goiás também demonstrou, conforme apontou, extraordinária capacidade de transformação. “A construção de Goiânia, impulsionada por Pedro Ludovico Teixeira na década de 1930, simbolizou um novo momento da história estadual”. Mais tarde, a implantação de Brasília, em território anteriormente pertencente a Goiás, reafirmaria a importância do Brasil Central no projeto de integração nacional. “Assim, Goiás ajudou a redesenhar o futuro do país. E é essa combinação de tradição e renovação que torna tão relevante a missão deste Instituto”, reconheceu.
Espaços de reflexão
Os Institutos Históricos e Geográficos – como salientou – são espaços vivos de reflexão, convivência intelectual e transmissão de conhecimentos. “São lugares onde a memória encontra abrigo, mas também onde o passado é interrogado, compreendido e colocado em diálogo com o presente”. “Em uma época marcada pela rapidez das informações e pela facilidade do esquecimento, nossa missão se torna ainda mais necessária”, afirmou.
“Precisamos preservar os documentos, mas também ouvir as vozes que nem sempre encontraram lugar nos registros oficiais”, disse. “Precisamos valorizar os grandes acontecimentos, sem esquecer a vida cotidiana das comunidades e as contribuições daqueles que ajudaram, muitas vezes anonimamente, a construir nossa sociedade”.
É com esse espírito que recebeu a distinção de associado correspondente. “Nossa posse não deve representar o ponto de chegada de uma trajetória, mas o início de uma nova etapa de trabalho”, comentou, para concluir: “Queremos participar da vida deste Instituto, fortalecer o intercâmbio entre os institutos históricos e geográficos brasileiros e ampliar a presença da história regional na compreensão da história nacional”.
