O Dezembro Vermelho é mais do que uma campanha anual, é um chamado contínuo para manter viva a conscientização sobre o HIV, a Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis. A data existe porque, mesmo com tantos avanços, ainda convivemos com desinformação, preconceito e desigualdades que afastam pessoas do diagnóstico e do tratamento.
Desde 2017, o Brasil reconhece oficialmente a importância dessa mobilização. Décadas após o impacto devastador da epidemia nos anos 1980, quando o medo e a falta de informação marcaram gerações, a ciência avançou de forma extraordinária. O relatório mais recente do UNAIDS mostra que 40,8 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo, com 1,3 milhão de novas infecções apenas no último ano. Apesar disso, ainda há milhões sem acesso ao tratamento — e é para eles que campanhas de conscientização continuam sendo fundamentais.
No Brasil, que completa 40 anos de resposta organizada à epidemia, o cenário exige atenção permanente. Em Goiás, mais de 1,5 mil novos casos foram registrados neste ano. Os números revelam que, embora o tratamento garanta hoje qualidade de vida e expectativa de vida elevadas, o enfrentamento ao HIV não pode retroceder. Informação, prevenção e diagnóstico precoce seguem sendo pilares essenciais.
A conscientização também é crucial para combater o estigma — um dos maiores obstáculos enfrentados por quem vive com HIV. Falar abertamente sobre o tema encoraja o uso de métodos preventivos, promove o acesso a testes e reforça que o tratamento regular suprime a carga viral, permitindo que a pessoa viva plenamente.
Nesse cenário, iniciativas como as do Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT) desempenham papel decisivo. A unidade promove palestras, rodas de conversa, fóruns com profissionais e pacientes que orientam ações de vigilância. São atividades que unem ciência, cuidado e diálogo, aproximando o tema da sociedade.
O trabalho interno do HDT com seus colaboradores também fortalece a campanha, com debates sobre adesão ao tratamento, desmistificação de informações e atividades educativas que tornam as equipes ainda mais preparadas para acolher e orientar. Cada profissional bem informado se torna multiplicador de conhecimento e respeito.
As ações externas, como atividades educativas em escolas e abordagens em espaços públicos, ampliam o alcance da mensagem. Distribuição de autotestes, preservativos e materiais informativos aproxima o tema do cotidiano e facilita o acesso à prevenção.
O Dezembro Vermelho, portanto, é um convite coletivo para combater o preconceito, assumir responsabilidade sobre a própria saúde, exigir políticas públicas efetivas e garantir que a informação chegue a todos. Enquanto houver desigualdade, desinformação e discriminação, a campanha seguirá essencial. Porque falar sobre HIV/AIDS é, acima de tudo, falar sobre vida.
*Vivian Furtado é médica infectologista e diretora técnica do HDT