Samuel Straioto
Goiânia – Antes de decidir em quem votar em outubro de 2026, o eleitor goiano pode se deparar com uma pergunta mais simples, e mais incômoda: você lembra em quem votou na última eleição? A resposta, para uma parcela expressiva dos brasileiros, é não. E é exatamente nessa brecha entre o voto passado esquecido e o voto futuro ainda indefinido que os principais grupos políticos de Goiás estão trabalhando neste momento.
A menos de um mês das convenções partidárias, pré-candidatos ao governo do estado percorrem o interior, participam de eventos religiosos e agropecuários, realizam atos públicos e mobilizam lideranças regionais. A estratégia tem muitos nomes — pré-campanha, construção de imagem, articulação política. Mas o objetivo é um só: estar na cabeça do eleitor quando ele entrar na cabine de votação.
O esquecimento não é uniforme. Ele cresce quanto menor é a visibilidade do cargo. O eleitor tende a lembrar do voto para presidente com muito mais facilidade do que do voto para deputado estadual ou vereador — cargos que disputam atenção com dezenas ou centenas de nomes ao mesmo tempo. Pesquisas de comportamento eleitoral realizadas no Brasil nos últimos ciclos eleitorais indicam que mais da metade dos eleitores não consegue recordar, com precisão, todos os candidatos em quem votou na eleição anterior. Para deputados e vereadores, esse índice pode superar 60%.
“Existe uma hierarquia da memória eleitoral que acompanha a hierarquia da visibilidade dos cargos”, explica o cientista político Rodrigo Andrade. “O eleitor lembra do presidente porque a disputa presidencial domina o noticiário por meses. O governador vem em seguida. Deputados e vereadores, para a maioria dos eleitores, ficam na sombra depois da eleição.”
Gestão ou candidato?
Não lembrar o nome de quem votou, porém, não é o mesmo que votar sem critério. O eleitor pode não guardar o nome, mas carrega impressões sobre a gestão, a memória de uma entrega, o sentimento de aprovação ou decepção com um governo.
É sobre essa camada de memória afetiva que os candidatos a cargos executivos geralmente tentam agir. Em Goiás, a estratégia do grupo governista é um exemplo claro: ao levar Ronaldo Caiado ao interior do estado em eventos que o associam a Daniel Vilela, o grupo não busca apenas mostrar força — busca transferir para o pré-candidato a memória positiva que o eleitorado guarda da gestão anterior.
“O eleitor não vota no padrinho. Ele vota na ideia de que o projeto que aprova vai continuar”, avalia Rodrigo Andrade. “A memória da gestão é o ativo mais valioso que um grupo político pode ter. Mais do que qualquer cabo eleitoral.”

Desafio
O maior desafio de qualquer pré-candidato neste momento não é o adversário. É a indiferença. A grande maioria dos eleitores brasileiros não acompanha política fora do período eleitoral — e mesmo durante a campanha oficial, a atenção se concentra nas últimas semanas antes da votação. Estudos de comportamento eleitoral indicam que entre 40% e 50% dos eleitores brasileiros tomam sua decisão de voto apenas nos dias finais da campanha, muitos deles influenciados pelo horário eleitoral gratuito, por debates televisivos e pela movimentação das redes sociais naquele período específico.
Isso cria um paradoxo para os grupos políticos: eles precisam trabalhar agora, mas o eleitor só vai prestar atenção de verdade em setembro e outubro. A pré-campanha, nesse sentido, não fala diretamente ao eleitor comum — ela fala às lideranças intermediárias, aos prefeitos, aos vereadores, aos cabos eleitorais que vão, eles sim, mobilizar o eleitorado quando o momento chegar.
“O político que vai ao interior agora não está conquistando o voto do agricultor. Está conquistando o prefeito que vai conquistar o voto do agricultor”, resume um dirigente partidário goiano que pediu para não ser identificado. “A campanha real começa em agosto. O que se faz agora é montar a estrutura.”
O calendário
As convenções partidárias das Eleições 2026 ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto, conforme calendário estabelecido pelo TSE — o período em que os partidos deliberam sobre coligações e escolhem oficialmente seus candidatos. A campanha eleitoral só pode começar em 16 de agosto, um dia após o encerramento do prazo para registro de candidaturas. Há, portanto, pouco mais de três semanas entre o fim das convenções e o disparo oficial da campanha — tempo curto demais para construir do zero o reconhecimento de um nome junto a um eleitorado que, até então, mal estava prestando atenção.
Na fase da pré-campanha, os cotados já podem mencionar a possível candidatura, divulgar propostas em entrevistas, debates e nas redes sociais, além de participar de eventos partidários fechados. O que a lei não proíbe, a estratégia recomenda. Mas há um limite claro no alcance dessas ações: o eleitor médio não está consumindo entrevistas políticas em junho. Ele vai começar a fazer isso em setembro.
A dificuldade real de chegar ao eleitor
O político que disputa um cargo majoritário enfrenta, na pré-campanha, uma equação de comunicação difícil. O espaço de mídia espontâneo — aquele que não depende de compra de publicidade — é dominado por quem já está no poder. Um governador que entrega uma obra, um vice-governador que inaugura um hospital, um senador que articula uma emenda federativa: todos geram notícia sem precisar de campanha oficial. Quem está fora do poder precisa criar fatos políticos do zero, e esses fatos precisam ser relevantes o suficiente para furar o filtro da indiferença do eleitor.
A televisão aberta permanece o veículo de maior penetração junto ao eleitorado do interior goiano, especialmente nas faixas etárias acima de 40 anos. Mas o acesso a ela, fora do horário eleitoral gratuito, depende de inserções pagas — proibidas antes do início oficial da campanha — ou de aparições editoriais que dependem da relevância jornalística do fato gerado. Resta, então, a presença física no território e as redes sociais.
As redes, por sua vez, têm alcance real entre um público já politicamente engajado — que provavelmente já tem preferência formada. O eleitor que ainda não decidiu e que vai decidir na última semana raramente está seguindo pré-candidatos no Instagram em junho. Ele vai chegar às redes, se chegar, quando o debate eleitoral dominar os grupos de WhatsApp da família e da igreja.
