Logo

Prato feito pesa mais no bolso do brasileiro

WhatsAppFacebookLinkedInX
08.12.2019 - 11:15:15

São Paulo – O tradicional prato feito do brasileiro – arroz, feijão, bife, batata e ovo – está pesando mais no bolso do consumidor. A alta de preços de quase todos alimentos básicos acumulada nos últimos 12 meses até novembro supera a inflação geral do País, de 3,27% para o período. A inflação deve fechar este ano com folga abaixo do centro da meta de 4,25% fixada pelo governo. "Essas pressões não comprometem a meta de inflação, mas o bolso da população", afirma André Braz, coordenador do IPC do FGV/ IBRE.

Ele destaca que, pelo fato de serem alimentos básicos, a alta do preço da comida castiga mais os mais pobres, especialmente a grande massa de desempregados e subempregados. Nestes casos, a renda do trabalho encolheu ou sumiu. O sinal de alerta de que se alimentar ficou mais caro soou quando o preço da carne vermelha disparou, puxada pela alta de preço do boi no campo. No final do mês passado, a cotação da arroba bateu o recorde de R$ 231, de acordo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).

Com isso, segundo relatos, alguns cortes da carne bovina chegaram a subir quase 50% nos açougues. Na média nacional, a carne vendida ao consumidor aumentou 14,43% nos últimos doze meses e mais da metade só em novembro, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Analistas consideram que ocorre uma tempestade perfeita no mercado de carne bovina. O aumento de 10% das exportações em volume neste ano, puxada pela China que enfrenta problemas na oferta de proteína animal, atraiu os exportadores que recebem em dólar pelo produto.

Somado a isso, o consumo doméstico, que normalmente cresce nesta época do ano por causa da injeção do 13.º salário, ganhou vigor com o dinheiro extra do FGTS. Do lado da oferta, Wander Fernandes de Sousa, analista de carnes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), lembra que hoje há escassez de bois para abate por causa da entressafra, quando os animais ficam magros.

Nos últimos anos, por causa de preços defasados da arroba, houve abate de matrizes. Isso também reduz a disponibilidade de produto hoje. Os supermercados dizem que não têm como evitar o repasse de preço ao consumidor porque os produtos são perecíveis e os estoques normalmente são enxutos. "Não temos como absorver essa alta de custos", diz Ronaldo dos Santos, presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), admitindo que as negociações com os fornecedores ficaram mais tensas nas últimas semanas, especialmente num mercado com concorrência muito acirrada.

A reação imediata desse cabo de guerra entre indústria e comércio é que o consumidor colocou o pé no freio nas compras. Na carne bovina houve uma redução de 10% a 15% nos volumes vendidos, conta Santos. Já no frango e nos ovos, ele notou aumento de 10% nas vendas no período. Nos bares e restaurantes, essa ginástica não é tão fácil. Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que representa um milhão de estabelecimentos no País, diz que, na maioria das vezes a substituição de ingredientes não agrada aos clientes.

"Há esforço para trocar a carne por frango ou peixe, mas isso esbarra no hábito alimentar." A saída encontrada pelos bares e restaurantes, segundo Solmucci, tem sido aumentar em cerca de 15% o preço do prato feito ou manter a carne, mas em versões mais em conta. Há restaurantes de Belo Horizonte (MG), por exemplo, que trocaram o tradicional bife do prato feito por carne moída: "A carne moída ocupa mais espaço e é mais em conta."

Pressões a caminho
Além das pressões nos preços dos alimentos do prato feito, Braz, da FGV, lembra que a forte desvalorização cambial que houve no início de novembro, que fez o dólar passar de R$ 4,20, poderá contaminar os preços em dólar de commodities. O milho e soja, usados na ração de frango e suínos, e o trigo, boa parte importado e que entra no preparo do pão francês das massas, poderão ficar mais caros.

Consumidores tentam driblar os aumentos
Cada um do seu modo, os brasileiros estão se virando para tentar manter o prato feito na mesa. Trocar o bife caro pelo frango ou ovo, que são mais baratos, ir mais vezes ao supermercado à caça de ofertas e até mudar horário da feira são as alternativas usadas pelos consumidores para driblar a alta de preços dos alimentos básicos. Desempregada desde que nasceu a filha, de cinco meses, Ana Daniela Andriani Oliveira, de 26 anos, conta que, antes da disparada de preço, cozinhava carne diariamente para as duas filhas pequenas e o marido.

Nas últimas semanas, ela substituiu a carne pelo ovo e conseguiu reduzir parcialmente o aumento de despesa. "O preço do ovo subiu também, eles aproveitam", reclama. Diante da forte alta de preços de alimentos básicos, o advogado Damião Márcio Pedro, de 58 anos, decidiu cozinhar mais em casa para economizar. "Antes de ir comer fora, agora penso bem", conta Pedro. No passado recente, ao menos uma vez por semana ele ia ao restaurante. "Hoje, é uma vez a cada 15 dias e olhe lá."

O advogado diz que está indo mais vezes às compras para aproveitar as promoções. E também, nos últimos tempos, está mais atento aos preços. A aposentada Marisa Lima, de 62 anos, também acha que a inflação está controlada, mas apenas na renda. "No resto, está nada, o salário está congeladíssimo, defasado", afirma. Apesar de não comer carne, o marido e os filhos consomem o alimento. "Acho o aumento da carne um absurdo. Carne agora é de vez em quando e reforço as refeições com legumes", diz.

Feijão, no entanto, é obrigatório nas refeições da família e, na sua opinião, não tem como substituí-lo. Uma alternativa para minimizar a alta na despesa em geral com alimentação foi mudar o horário de ir à feira. Nos últimos tempos ela tem idos mais perto do fim da feira, a chamada "hora da xepa", para gastar menos. A diretora de teatro Simone Pompeo, de 59 anos, divorciada e com dois filhos, adotou a mesma estratégia de Marisa. "Antes, ia à feira às 8h para ficar livre, agora é só às 13h, quando os preços caem", diz ela, que consegue uma economia de 50% indo mais tarde. Ela também optou por cozinhar em casa para reduzir gastos e comer melhor. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. (Agência Estado)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Roberta Rodrigues Silva

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Negócios
30.10.2026
FICCA Goiás registra crescimento de 25% no número de negócios

A Redação Goiânia – Os três dias de negócios e milhares de encontros entre empresários e clientes durante a FICCA Goiás — Feira da Indústria, Comércio, Cooperativismo, Empreendedorismo e Agronegócio —, no Centro de Convenções Goiânia, resultaram em aproximadamente R$ 1 bilhão em acordos comerciais. O valor representa crescimento de 25% em relação à primeira edição […]

NEGÓCIOS E INOVAÇÃO
30.10.2026
Expoind 2026 conecta indústrias, impulsiona negócios e amplia mercado em Goiás 

A Redação Goiânia – A terceira edição da Feira de Negócios e Soluções para a Indústria Goiana (Expoind) terminou quinta-feira (29/10) com novos contratos, contatos comerciais e perspectivas de expansão para empresas fornecedoras do setor industrial. Realizada pela Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), de 27 a 29 de outubro, no Centro de Convenções […]

Empreendedorismo
29.10.2026
FICCA Goiás apresenta tecnologias que transformam empresas e negócios em Goiânia

A Redação Goiânia – Soluções tecnológicas inovadoras são destaques da FICCA Goiás — Feira da Indústria, Comércio, Cooperativismo, Empreendedorismo e Agronegócio, que segue até esta quinta-feira (29/10), no Centro de Convenções de Goiânia. As tecnologias apresentadas vão da automação de tarefas operacionais à inteligência artificial aplicada à gestão, às vendas, à produção rural e ao cuidado […]

Economia
28.10.2026
FICCA Goiás traz panorama da economia e desafios do setor produtivo para 2027

A Redação  Goiânia – A força da economia goiana, as oportunidades de expansão dos negócios e os desafios que o setor produtivo terá pela frente em 2027 marcaram a abertura oficial da FICCA Goiás 2026 – Feira da Indústria, Comércio, Cooperativismo, Empreendedorismo e Agronegócio, nesta terça-feira (27), no Centro de Convenções de Goiânia. A solenidade […]

Negócios
27.10.2026
FICCA 2026 abre programação com mais de 200 expositores em Goiânia

Taíssa Queiroz Goiânia – A Feira da Indústria, Comércio, Cooperativismo, Empreendedorismo e Agronegócio de Goiás (FICCA 2026) teve sua abertura oficial nesta terça-feira (27/10) no Centro de Convenções de Goiânia. Realizada até esta quinta-feira (29/10), o evento conta com 200 expositores com a programação voltada à geração de empregos, networking e inovação. A Ficca é uma […]

Política
27.10.2026
Caiado não descarta disputar eleições em Goiás em 2030

Ludymila Siqueira  Goiânia – O ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) afirmou que deve disputar as eleições para o Palácio das Esmeraldas em 2030. Ele, que está sem cargo eletivo pela primeira vez desde 1994, disse que tem projetos para manter sua atuação política ativa pelos próximos quatro anos, especialmente com foco em Goiás, quando o governador Daniel […]

Oportunidade
08.10.2026
Empresa oferta 20 vagas de emprego na área financeira em Goiânia e Rio Verde

A Redação Goiânia – A Nexgen Capital, escritório com sede em Goiânia, está com 20 vagas abertas para assessores de investimentos por meio do programa XP Future. A oportunidade é voltada para profissionais com experiência comercial que buscam migrar ou crescer no mercado financeiro. As oportunidades são para as cidades de Goiânia e Rio Verde […]

Negócios
29.09.2026
SuperAgos 2026 supera projeções, bate recordes e movimenta mais de R$ 350 milhões em negócios

A Redação Goiânia – A SuperAgos 2026 encerrou sua 23ª edição superando as expectativas e confirmando a força do encontro promovido pela Associação Goiana de Supermercados (AGOS). Realizada entre os dias 22 e 24 de setembro, no Centro de Convenções de Goiânia, a feira contabilizou mais de 22 mil acessos nos três dias, reuniu profissionais ligados […]