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Por Cidades mais Resilientes

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05.11.2024 - 08:00:00
 
Já deu pra perceber que as mudanças do clima vieram para ficar. Teremos que seguir nos esforçando para que o planeta se aqueça o menos possível, mas será preciso também nos adaptarmos a esse novo clima, no geral mais extremo e imprevisível. São as duas palavras que se repetem à exaustão na mídia e nos debates técnicos: mitigação e adaptação – trabalhar para diminuir as emissões de gases que provocam o Efeito Estufa e nos planejarmos para lidar com suas consequências. Para isso, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima vem construindo o Plano Clima, que se desdobra justamente nesses dois componentes: mitigação e adaptação.
 
Do lado da mitigação, o país tem compromissos estabelecidos internacionalmente, pelos quais se obrigou a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa  em 37% até 2025 e em 43% até 2030. Isso demanda que estados e municípios também façam sua parte, mudando suas matrizes energéticas e meios de mobilidade, controlando a poluição industrial e de outras fontes e incentivando uma economia mais verde.
 
Para nos adaptarmos àquilo que será inevitável, precisamos primeiro entender, em cada região, como seremos impactados. Com esse objetivo, o Idesa, Instituto de Desenvolvimento Econômico e Socioambiental, em parceria com o Instituto Iandé Verde, o Ciamb, Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da UFG, e a Iniciativa Cerrados da Fiocruz, estão realizando o projeto Cidades Resilientes – Mudanças Climáticas, Adaptação Urbana e Direitos Humanos, patrocinado pela Prefeitura de Goiânia, através da Secretaria de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas.
 
Concluímos um relatório inicial, que ficará disponível ainda esta semana no site do projeto. Ele faz um diagnóstico da situação do município frente às mudanças do clima, analisa o contexto político e institucional e aponta um conjunto de estratégias a serem debatidas em um seminário aberto, que acontecerá nos dias 25 e 26 deste mês, na UFG. A ideia é a de que o documento e o evento sirvam como catalisadores para iniciar esse diálogo tão necessário, mas ainda incipiente, em Goiânia.
 
Apesar de certa carência de estudos e modelagens mais precisos em relação ao impacto das mudanças climáticas para o Cerrado, as pesquisas existentes apontam para um clima mais seco, com prolongamento da estiagem, aumento de temperaturas, diminuição geral das chuvas e redução da umidade do ar.
 
Não obstante, a cidade precisa se preparar para lidar com diferentes impactos relacionados à água – em sua escassez ou excesso. Será necessário, por isso, como temos visto, buscar também soluções para as enxurradas, enchentes e alagamentos cada vez mais severos e frequentes. 
 
 
Nesse sentido, apesar dos riscos e de situações de vulnerabilidade, o relevo relativamente plano nos coloca em uma situação menos desfavorável do que cidades com ampla ocupação de encostas e áreas de risco. Além disso, Goiânia caminha para ter em breve um plano de drenagem moderno, em conclusão pela UFG, que trará a preocupação com esses impactos e apontará caminhos para lidarmos com eles.
 
É para os extremos que virão na estação seca, entretanto, que parecemos menos preparados. Os episódios de elevada poluição do ar por material particulado em suspensão, por que passamos este ano, em função das queimadas, mostraram isso. 
 
As estiagens mais severas e prolongadas tendem a favorecer o acúmulo desse tipo de material no ar e incentivam a proliferação de incêndios na vegetação. Somam-se a eles, a baixa umidade do ar para causar sérios impactos à saúde. Esse tipo de poluição comprovadamente causa diferentes tipos de doenças respiratórias e cardiovasculares, além de estar associada ao desenvolvimento de câncer. Pior ainda, a poluição afeta de maneira desproporcionalmente mais severa grupos vulneráveis, como crianças e idosos, além de sobrecarregar o sistema de saúde.
 
Uma das estratégias fundamentais sugeridas pelo estudo é a implantação de um sistema abrangente de monitoramento da poluição do ar que permita um acompanhamento mais cuidadoso e a emissão de alertas sobre episódios extremos. Goiânia conta hoje com apenas uma estação de monitoramento da qualidade do ar operada pela Semad, a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado de Goiás.
 
O prolongamento e intensificação das estiagens também devem acender uma luz de alerta em relação ao abastecimento de água. Embora Goiânia conte com um plano de saneamento recente, o estudo sugere a necessidade de revisá-lo, considerando a possibilidade de diminuição da disponibilidade hídrica nos próximos anos.
 
Precisamos, por fim, considerar a forte possibilidade de ondas de calor extremo, que igualmente afetarão desproporcionalmente os grupos mais vulneráveis, como famílias que vivem em moradias pouco ventiladas e pessoas que trabalham ao ar livre, considerando também seu impacto sobre o sistema de saúde.
 
Não é preciso pânico, mas não podemos varrer esses problemas colocados já no horizonte do presente para baixo do tapete. Precisamos nos servir do estado da arte do conhecimento científico e de instrumentos democráticos de planejamento para criar mecanismos que tornem as cidades mais resilientes, isto é, capazes de absorver esses choques com mínimas perdas e manter a estabilidade de seus processos econômicos e a qualidade de vida.
 
O seminário Cidades Resilientes será aberto a todos os interessados e acontecerá nos dias 25 e 26 de novembro, no auditório do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, no Campus Samambaia. Programação completa e inscrições em breve pelo site do projeto.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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