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(Foto: Michelly Matos)

Pit dogs: porta de entrada para o empreendedorismo e motor econômico de Goiânia

Com apoio do Sebrae Goiás, empreendedores do setor buscam profissionalização e inovação para manter viva a tradição na Capital

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06.06.2026 - 14:42:27

Catherine Moraes e Kamylla Rodrigues
Especial para AR

Goiânia – O cheiro da chapa quente se espalha antes mesmo do primeiro sanduíche ficar pronto. O pão prensado chia e o hambúrguer estala. Em uma praça do Jardim América, em Goiânia, Walter Rodrigues acompanha a montagem dos pedidos. Aos 73 anos, ele ainda chega cedo, conversa com clientes antigos, observa o movimento das mesas e confere se está tudo funcionando. Há mais de cinco décadas, a rotina para ele começa assim: entre o barulho da chapa e o entra e sai de clientes que transformaram o pit dog em um dos maiores símbolos da cultura popular goianiense.

Waltinho’s Lanches fica no setor Jardim América. (Foto: Michelly Matos)

Em Goiânia, os pit dogs estão em praças, esquinas e avenidas. São mais de 3 mil no estado e 1.500 na capital. Hambúrgueres diversos, milho, batata palha, bacon, queijo, presunto, alface, tomate, salsicha e até mesmo uma rodela de abacaxi (há quem ame e quem odeie). Do X-Salada ao famoso X-Tudo, esses são os principais ingredientes e para acompanhar, o famoso molho de ervas, popularizado em Goiânia há mais de 30 anos. O sanduíche prensado vai além da comida rápida. Ele carrega histórias de famílias inteiras, sustenta pequenos empreendedores, movimenta bairros e cria conexões.

Segundo levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Goiás (Fecomércio GO), o setor gera aproximadamente 40 mil empregos diretos e indiretos em Goiás. A maioria dos estabelecimentos é formada por negócios familiares e microempresas, que desempenham papel fundamental na economia e na geração de renda.

Walter Rodrigues na porta de seu pit dog (Foto: Michelly Matos)

“Eu já tenho 55 anos mexendo com isso”, resume Walter, um dos pioneiros dos pit dogs de Goiânia. O ponto atual funciona há 45 anos no mesmo lugar, na Praça Santos, no Jardim América. Mas a história começou muito antes, quando ele deixou o interior de Minas Gerais ainda jovem e veio para Goiânia em busca de trabalho.

Foi o cunhado quem apresentou o universo dos pit dogs. Walter começou trabalhando em um dos trailers mais conhecidos da época, na Praça do Avião. “Naquele tempo não tinha mesa. O pessoal comia nos carros, tinha aquelas bandejinhas de encaixar na porta. A gente fazia de tudo: chapa, atendimento, levava refrigerante pros carros”, lembra.

Depois de dez anos como funcionário, decidiu comprar o próprio pit dog. O negócio cresceu junto com a cidade e junto com a família. Hoje, as filhas comandam outros pontos espalhados pela capital. “Elas falaram: ‘não quero mexer com outra coisa não, pai’. Foram entrando no negócio também”, conta. Um dos pit dogs fica no Jardim América e outro na região da T-9, próximo ao Terminal Bandeiras. O empreendedor afirma que outros familiares também acabaram entrando no ramo. “Meu irmão tem, meu cunhado também. Foi todo mundo aprendendo.”

Segundo a Fecomércio, cerca de 96% da população goiana já consumiu sanduíche de pit dog, seja presencialmente ou por delivery. O horário de maior movimento é o período noturno, especialmente por volta das 20h e nos finais de semana. O público, por sua vez, é bastante diversificado, incluindo estudantes, trabalhadores, famílias, frequentadores de eventos e pessoas que buscam lazer noturno. Já o ticket médio varia entre R$ 25 e R$ 45.

Patrimônio
Os pit dogs nasceram em Goiânia ainda nas décadas de 1960 e 1970 e, ao longo do tempo, se consolidaram como parte da identidade urbana da capital. Em 2020, o modelo foi reconhecido oficialmente como patrimônio cultural imaterial de Goiás e de Goiânia (desde junho de 2021). Mais do que pontos de alimentação, os trailers espalhados pelas praças ajudaram a construir hábitos, encontros e memórias afetivas de gerações inteiras.

X-tudo do pit dog de Walter Rodrigues (Foto: Michelly Matos)

O reconhecimento dos Pit Dogs como patrimônio imaterial de Goiânia surgiu da articulação dos responsáveis pelas lanchonetes, por meio de seu sindicato – Sindicato dos Proprietários de Pit Dogs de Goiás (Sindipitdog) -, com a vereadora Sabrina Garcez, que foi a autora do Projeto de Lei 178/2020. O projeto de Lei surge em um contexto marcado pelo temor de expulsão de muitos Pit Dogs tradicionais da cidade de suas instalações por determinação do Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) e, posteriormente, pela pandemia da Covid-19, que fragilizou muito os empreendimentos pela cidade. O projeto de lei tramitou na Câmara dos Vereadores entre 2020 e 2021, dando origem à Lei 10.634/2021, que reconheceu a gastronomia e a cultura dos Pit Dogs como Patrimônio Imaterial de Goiânia.

Professor de história da Universidade Federal de Goiás (UFG), Raul Lanari afirma que ainda que este tenha sido um passo importante no reconhecimento dos Pit Dogs como referência cultural de Goiânia, a medida, a seu ver, surte pouco efeito para os objetivos a que se propõe. “Para que o Estado proteja e incentive a permanência de um bem cultural, é preciso que sejam feitos estudos técnicos e acadêmicos pormenorizados, que dão origem ao que chamamos de “Dossiê de Registro”. O Dossiê, que deve ser feito pelo Poder Executivo é que vai apresentar o histórico completo do bem cultural, a forma como ele acontece e, especialmente, as medidas necessárias para preservar a existência deste bem”, acrescenta.

Raul Lanari (Foto: divulgação)

Lanari diz que o processo feito pelo Poder Legislativo resultou em uma lei que, se por um lado reconhece e declara os Pit Dogs patrimônio imaterial de Goiânia, por outro não avança na pesquisa de sua história nem propõe que medidas devem ser tomadas para que eles continuem existindo. “Falta, a meu ver, um interesse maior da Prefeitura Municipal de Goiânia em dar andamento aos processos de patrimonialização de bens culturais na cidade com a elaboração de estudos históricos, antropológicos e arquitetônicos e a aprovação destes estudos pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural”, defende.

A Câmara Municipal de Goiânia afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que apoiou a transformação desse segmento em patrimônio histórico imaterial em Goiânia e em Goiás, por se tratar de uma área de alimentação e gastronomia que faz parte da tradição cultural da cidade. Além disso, possui iniciativas de defesa e preservação desse patrimônio como, por exemplo, a aprovação e manutenção de legislações que asseguram o trabalho de empreendedores e trabalhadores. Além disso, pontuou que atua na defesa dos códigos da legislação da cidade para ofertar melhores condições de trabalho e de funcionamento do segmento. Finalizou dizendo que o diálogo é permanente e que está aberta às proposições de comerciantes e comerciários.


Tradição

Para Walter, o diferencial goianiense nunca esteve apenas no sanduíche. “Não tem em nenhum lugar do Brasil igual aqui. O pit dog de Goiânia é diferente. É tradição mesmo”, afirma.

Mais do que tradição afetiva, os pit dogs também movimentam uma cadeia econômica significativa em Goiás. Segundo o presidente do Sindicato dos Proprietários de Pit Dogs de Goiás (Sindipitdog), Ademildo Pinheiro, o setor gera cerca de 25 mil empregos apenas na Região Metropolitana de Goiânia. “90% do que consumimos nos pit dogs é comprado em Goiânia ou em Goiás. Isso movimenta renda, gera emprego e fortalece a economia local”, afirma.

Ademildo Pinheiro (Foto: arquivo pessoal)

O presidente do Sindipitdog afirma ainda que muitos negócios de sucesso nasceram dentro dos trailers espalhados por Goiânia. “O pit dog é uma porta de entrada para o empreendedorismo. Muitos empresários começaram ali e depois criaram marcas, fábricas e outros negócios. O pit dog virou parte da cultura goiana. Tem gente que comemora aniversário, encontra amigos depois da igreja, começa namoro e até casa depois de se conhecer em pit dog.”

Mas manter essa tradição viva exige resistência. Walter cita as dificuldades enfrentadas por quem trabalha na rua: burocracia, exigências do poder público, falta de estrutura e insegurança jurídica. “Todo ano aparece um problema. Licitação, fiscalização, regras. Às vezes a gente quer melhorar o espaço e não consegue autorização”, relata.

Mesmo assim, ele continua. “Minha filha fala que chega a tarde e já quer vir pro pit dog. É o contato com o povo, conversar, ver o movimento. Pra mim isso aqui é tudo.”

Nova geração
Do outro lado da cidade, uma nova geração de empreendedores mantêm viva essa mesma tradição, mas agora misturando o clássico goiano com conceitos modernos de gastronomia.

Today foi criado por Jessica Oliveira (Foto: Michelly Matos)

Foi durante a pandemia que a empresária Jessica Oliveira Mendes decidiu comprar um trailer usado e transformar a insistência do pai em um negócio de verdade. Até então, ela trabalhava com a família no ramo de material de construção e nunca tinha atuado profissionalmente com alimentação. “Meu pai sempre quis mexer com comida, mas desistia rápido das coisas. A ideia do trailer era começar pequeno, sem gastar muito.”

O plano inicial durou apenas um mês. O pai desistiu do negócio, mas Jessica resolveu continuar. A princípio, apenas para recuperar o dinheiro investido. O que ela não imaginava era que o empreendimento mudaria também a vida do irmão, Weverton Oliveira Mendes, de 40 anos.

Em 2011, Weverton sofreu um grave acidente de moto e perdeu os movimentos da cintura para baixo. Passou anos sem trabalhar, enfrentando limitações físicas e emocionais. “O acidente me bloqueou muito. Eu era muito ativo e fiquei muito tempo parado”, conta.

Depois de dois anos usando cadeira de rodas e muita fisioterapia, voltou a andar com auxílio de muletas. Ainda assim, permaneceu afastado do mercado de trabalho por anos. Foi Jessica quem o chamou para ajudá-la no trailer de hambúrgueres. “No começo, eu achei que não conseguiria ajudar em nada. Mas ela me colocou no atendimento e aquilo mudou minha vida.”

Os primeiros eventos vieram logo depois, especialmente durante o Natal do Bem, realizado em Goiânia após a pandemia. O movimento intenso, o contato com o público e o reconhecimento dos clientes despertaram algo que Weverton não sentia havia muito tempo: pertencimento. “Quando eu vi que conseguia atender bem, conversar com as pessoas e ajudar no negócio, tudo começou a mudar”, diz.

A experiência transformou não apenas a renda da família, mas também a autoestima dele. Hoje, Weverton é considerado por Jessica o principal vendedor do negócio. “Ele criou um jeito próprio de atender. Virou uma paixão”, afirma a irmã.

Weverton, irmão de Jessica, se reencontrou no empreendedorismo (foto Michelly Matos)

O trailer virou pit dog fixo em 2024, com o nome de ‘Today’. Instalado no Jardim América, o espaço aposta em hambúrgueres artesanais e defumados, mas sem abandonar a essência popular dos tradicionais sanduíches goianos. “A gente queria trazer algo diferente, mas acessível. Um lugar onde qualquer pessoa pudesse sentar e comer bem”, explica Jéssica.

Jessica passou a participar de festivais gastronômicos, que se tornaram uma oportunidade de crescimento e visibilidade. Em 2025, o pit dog da família voltou a participar do Burger Time, um dos principais festivais de hambúrguer da capital, e levou o primeiro lugar. “Hoje o cliente não quer só comer. Ele quer experiência, quer ambiente, quer lembrar daquele lugar”, resume.

Molho verde é uma das especialidades do Today. (Foto: Michelly Matos)

Sebrae como motor
A mudança no comportamento do consumidor já é percebida pelos empreendedores do setor. Um estudo do Observatório Sebrae mostra que, no cenário pós-pandemia, os clientes passaram a buscar mais do que alimentação: querem experiência, personalização e conexão com os estabelecimentos.

É justamente nessa combinação entre tradição e reinvenção que o Sebrae Goiás enxerga o futuro dos pit dogs. Segundo a analista do Sebrae Goiás, Camila Carvalho, os pequenos negócios como os pit dogs têm papel central na economia local, especialmente por gerarem renda e emprego dentro dos próprios bairros. “Os pit dogs movimentam a economia do território onde estão. Muitas vezes quem trabalha ali mora na própria região”, explica.

Ela destaca que a maioria dos empreendimentos segue um perfil familiar, tanto na operação quanto na sucessão dos negócios. “É muito comum o pai passar o ponto para os filhos e toda a família participar do funcionamento”, afirma.

Analista do Sebrae Goiás, Camila Carvalho afirma que os pit dogs têm papel central na economia local (Foto: divulgação)

O Sebrae atua desde a formalização do negócio até orientações sobre gestão financeira, marketing digital e segurança alimentar. Além disso, a instituição também apoia iniciativas voltadas à valorização da cultura gastronômica goiana, como a rota turística Goiânia Gastronômica e festivais do setor.

Para Camila, o principal desafio dos pit dogs é equilibrar tradição e inovação. “O consumidor não busca mais só o produto. Ele quer atendimento, experiência, identidade”, diz. Ela avalia que o sucesso duradouro desses empreendimentos está justamente na capacidade de manter a memória afetiva sem deixar de evoluir. “O pit dog atravessa gerações porque faz parte da história das pessoas. Mas isso sozinho não sustenta um negócio. É preciso gestão, inovação e profissionalização.”

O crescimento do turismo gastronômico e da busca por experiências regionais também ajuda a explicar a força dos pit dogs em Goiânia. Um boletim de tendências do Observatório Sebrae aponta que consumidores têm buscado cada vez mais experiências autênticas ligadas à identidade cultural local, movimento que fortalece segmentos tradicionais da gastronomia regional.

Obstáculos
Apesar da força cultural e econômica, o setor enfrenta desafios crescentes. Ademildo afirma que a concorrência com aplicativos, os altos custos operacionais, a burocracia e a falta de mão de obra estão entre os principais obstáculos enfrentados pelos empreendedores.

“A margem de lucro diminuiu muito. Hoje o empresário precisa ter gestão eficiente, controle financeiro e qualificação para sobreviver”, afirma. Segundo ele, a disputa envolvendo licenças e autorizações para funcionamento dos pit dogs em áreas públicas também preocupa o setor. “Nós defendemos que os atuais permissionários tenham segurança jurídica para continuar trabalhando. Se mudar tudo de uma vez, existe o risco de perdermos esse conhecimento tradicional.”

As novas regras dos pit dogs em Goiânia

As discussões sobre os pit dogs em Goiânia não passam apenas pela tradição cultural ou pela força econômica do setor. Nos últimos anos, as regras para obtenção de licenças e funcionamento desses estabelecimentos também passaram por mudanças importantes na capital.

Segundo a gerente de habilitação de atividades da Prefeitura de Goiânia, Ana Paula Carneiro Melo Silva, o modelo antigo de autorização funcionava de forma diferente da atual legislação. Até a aprovação do novo Código de Posturas, em 2023, qualquer interessado em abrir um pit dog podia solicitar autorização diretamente à prefeitura. “O interessado indicava o local e o pedido passava por análise de vários órgãos, como trânsito, fiscalização urbana e planejamento. Se tudo estivesse regular, a autorização era concedida”, explica.

Após a aprovação, o permissionário podia instalar o equipamento e recebia uma permissão de funcionamento renovada anualmente, mediante pagamento de taxas relacionadas à ocupação do espaço público. Com a mudança no Código de Posturas, os novos pit dogs passaram a depender de licitação pública. Segundo Ana Paula, a alteração ocorreu após recomendações do Ministério Público para tornar o processo mais transparente. “Ainda existem regulamentações complementares sendo definidas, mas a mudança já está prevista no novo código”, afirma.

As regras atuais, no entanto, ainda geram debates jurídicos. Isso porque existe uma discussão em andamento envolvendo os permissionários antigos, que receberam autorização antes da mudança na legislação. A definição sobre a necessidade ou não de eles participarem futuramente de processos licitatórios segue em análise. A prefeitura estima que Goiânia tenha atualmente cerca de 500 pit dogs cadastrados em logradouros públicos.

Além das autorizações, os estabelecimentos também precisam seguir uma série de regras urbanísticas e sanitárias. O gerente de fiscalização de atividades econômicas da prefeitura, André Barros, explica que a fiscalização ocorre principalmente a partir de denúncias feitas pela população ou por órgãos oficiais. “No caso dos pit dogs, primeiro é feita uma notificação para apresentação da autorização. Se houver irregularidade e ela não for corrigida, o equipamento pode ser interditado e removido”, afirma.

Segundo ele, os pit dogs instalados em calçadas são considerados exceção no novo Código de Posturas. Apenas os já existentes podem permanecer nesses locais. Entre as exigências estão limite máximo de 15 metros quadrados, respeito à circulação de pedestres e autorização específica para instalação de mesas e cadeiras.

Outra confusão comum, segundo André, envolve os microempreendedores individuais (MEIs). Muitos permissionários acreditam que o registro como MEI substitui a autorização municipal, o que não acontece. “O MEI é um enquadramento tributário e previdenciário. Ele não substitui a permissão urbana da prefeitura. Para atuar em área pública, o que vale é a autorização municipal”, explica. Segundo a prefeitura, as permissões para funcionamento de pit dogs em espaços públicos são concedidas em nome da pessoa física responsável pelo equipamento, e não no CNPJ da empresa.

Para a Fecomércio, entre os principais desafios estão a burocracia para obtenção e renovação de licenças, além do aumento constante dos custos dos insumos, principalmente das proteínas. “Muitos pequenos empreendedores enfrentam dificuldades para manter toda a documentação regularizada devido à complexidade dos processos. Nesse contexto, o Sindpitdog orienta os empresários sobre alvarás, Vigilância Sanitária e exigências do Corpo de Bombeiros.

Regras atuais para funcionamento:

* Equipamentos em calçadas são exceção no novo código;
* Área máxima permitida: 15 m²;
* Mesas e cadeiras exigem autorização específica;
* Não podem bloquear circulação de pedestres;
* Venda de bebida alcoólica é proibida;
* Fiscalização ocorre principalmente por denúncias;
* Irregularidades podem gerar interdição e remoção do equipamento.

O primeiro Pit Dog surgiu no início da década de 1970, em Goiânia

Pit dog é símbolo, retrato e tradução goiana. Muito antes de os trailers se espalharem pelas praças, avenidas e esquinas, o pit dog ainda era apenas uma ideia na cabeça de Jacob Abdala Rassi.


Jacob Abdala Rassi (Foto: álbum de família)

Foi no início de 1970 que ele e o irmão Jorge Rassi decidiram transformar um modelo de sanduíche visto durante uma viagem a Curitiba em algo totalmente novo na capital goiana. A história é contada pela filha de Jacob, Anastácia Taveira, que cresceu acompanhando de perto a relação do pai com o comércio e, anos depois, também se tornaria dona de pit dog. “Meu pai já morava em Goiânia e foi passear em Curitiba com a minha mãe. Lá ele viu um modelo de sanduíche e resolveu criar algo parecido aqui”, relembra.

Anastácia Taveira cresceu acompanhando de perto a relação do pai com o comércio. (Foto: arquivo pessoal)

Segundo Anastácia, Jacob não trouxe apenas a ideia. Ele trouxe também funcionários e chapeiros de Curitiba para ajudar na implantação do negócio em Goiânia. Mas o formato criado por ele acabou ganhando características próprias. “Lá não existia pit dog, não tinha trailer. Ele viu um modelo de sanduíche e resolveu criar os trailers aqui”, conta.

Os primeiros pit dogs surgiram na década de 70. (Foto: reprodução internet)

Os primeiros pontos começaram a funcionar na Rua 7, no Centro de Goiânia, entre as ruas 2 e 3. Depois vieram outras unidades no Centro e também na Praça do Avião. O próprio Jacob mandava fabricar os trailers e organizava praticamente toda a operação. “Era tudo muito artesanal. Ele fabricava pão, hambúrguer, tinha escritório para coordenar tudo”, lembra Anastácia.

Na época, Jacob e o irmão administravam juntos os negócios. Foi também nesse período que surgiu o nome que acabaria atravessando gerações. “Ele queria dar um nome para o sanduíche e colocou pit dog. Depois isso virou categoria”, afirma. A escolha do nome passou por três etapas até a definição. Primeiro foi Little Dog: Inspirado na raça do cãozinho, quase foi o primeiro nome batizado. Depois foi Petit Dog: Uma adaptação para soar mais fina, misturando o francês (petit: pequeno) com o inglês (dog). E por fim, Pit Dog: Para facilitar a pronúncia e evitar confusões, os irmãos aportuguesaram a expressão, criando o ícone da gastronomia goianiense.

Sem patente registrada, o termo acabou se popularizando espontaneamente. O empresário chegou a ter sete unidades entre lojas físicas e trailers, mas, segundo a filha, nunca imaginou a dimensão cultural que aquilo alcançaria décadas depois.

Hoje, mais de 50 anos depois, Anastácia observa os trailers espalhados pela cidade como uma continuação da história do pai.“Quando eu vejo um pit dog, eu vejo um pedaço da história do meu pai”, diz. Ela própria decidiu seguir o caminho da família anos depois. Após o nascimento da filha, abriu uma sanduicheria na Vila Brasília, onde permaneceu por sete anos. O negócio fechou após a pandemia, mas Anastácia ainda guarda os equipamentos e diz que sonha em voltar ao ramo futuramente. “Minha paixão é pit dog. Eu ainda tenho chapa guardada em casa”, conta.

Para ela, o reconhecimento dos pit dogs como patrimônio cultural imaterial de Goiânia e de Goiás também representa uma homenagem à trajetória iniciada pelo pai nos anos 1970. Mais do que um lanche, os pit dogs ajudaram a construir uma identidade própria para Goiânia. Entre histórias de famílias, pequenos empreendedores e clientes que atravessam gerações, eles seguem ocupando as esquinas da cidade — não apenas como pontos de comida, mas como espaços de encontro, memória e pertencimento.

Professor da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás (UFG), Raul Lanari explica que o crescimento no número de Pit Dogs acompanhou o processo de urbanização, tanto em Goiânia como em outras cidades de Goiás. “Em muitas cidades do interior, mesmo na década de 1990 ou 2000 não existiam Pit Dogs ou, quando muito, apenas um. Em Goiânia, já na década de 1970 observa-se um crescimento significativo, com mais de 80 estabelecimentos listados em apuração desde meados dos anos 1980”, informa.

O historiador afirma que os Pit Dogs são resultado de um processo de massificação cultural de hábitos alimentares estadunidenses que foram difundidos pelo mundo. “Este processo foi influenciado tanto pela política externa estadunidense de exaltação do ‘american way of life’ (tradução: estilo de vida americano) como pelo crescimento das cidades brasileiras e a adoção de hábitos de consumo urbanos, dos quais os modelos vinham da Europa, no começo do século XX, e dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial”.

A cultura das lanchonetes foi inicialmente, nos Estados Unidos, um elemento da juventude das cidades. Os carros estilizados, as roupas e os penteados, o hambúrguer e o milk-shake, o início do rock`n roll foram elementos associados a esta cultura e importados pelos brasileiros que viviam nas grandes cidades.

O X-Tudo é a tropicalização do hambúrguer estadunidense

O historiador Raul Lanari explica que o X-Salada foi um dos primeiros sanduíches a serem preparados pelos Pit Dogs de Goiânia e que foi uma apropriação dos sanduíches estadunidenses. Em geral, os hambúrgueres dos EUA são compostos por pão, carne, queijo e molho. A adição de bacon ganhou o nome de X-Bacon e mais incrementando, nasceu o X-Tudo, invenção tipicamente brasileira. No geral, em Goiás é feito com hambúrguer, queijo (geralmente mussarela), presunto, ovo, bacon, salsicha, tomate, alface, milho, batata palha.

X-tudo do Waltinho’s Lanche (foto: Michelly Matos)

“É possível dizer que o X-Tudo é a tropicalização do hambúrguer. Ele incorpora os elementos culturais alimentares importados dos Estados Unidos, mas os ‘traduz’ para o gosto local, incluindo uma miscelânea de ingredientes que varia de localidade para localidade no Brasil. Isso é muito interessante. Em Goiás, já temos, por exemplo, X-Tudo com guariroba, um palmito de uma espécie de palmeira do Cerrado. Em outros lugares, como em Manaus, alguns X-Tudo contém tucumã, fruto de uma palmeira amazônica”, exemplifica Lanari.

A gastronomia dos sanduíches de rua está espalhada por todo o país e pelo mundo. No Brasil, os Pit Dogs ganharam diferentes nomes, como “Podrão” no Rio e em Belo Horizonte, “Xis” em Porto Alegre e “Bauru” em muitas cidades paulistas. “Em outros lugares do mundo também encontramos importantes sanduíches de rua, como o Mitraillette na Bélgica, uma baguete recheada com carne, muito molho e batata frita, e o Bun Kebab na Índia e no Paquistão, um sanduíche de rua barato feito com hambúrguer de lentilha ou carne desfiada e molhos apimentados”, acrescenta o historiador.

Associado ao carro chefe, o sanduíche, temos os molhos. O tradicional trio “Maionese+Ketchup+Mostarda” ganhou, no Brasil (e não só no Brasil) concorrentes locais. Por aqui, o importante molho verde. Mas muitas lanchonetes, para se diferenciarem, elaboram molhos tártaros e agridoces.

Festivais lançam pit dogs em roteiros gastronômicos

O Pit Dog já faz parte da identidade cultural e gastronômica de Goiás. Desde 2025, alguns festivais passaram também a premiar os melhores pit dogs, além de proporcionar reconhecimento, inclusive, fora do Estado. Um dos exemplos é o Prêmio Encontro Gastrô, que em Goiás está na segunda edição e é realizado pelo jornal Correio Braziliense. Ao todo, o prêmio reúne 35 categorias organizadas em seis grandes grupos: Diversão, Lanches e Guloseimas, Boa Mesa, Alta Gastronomia e Profissionais. No ano passado, o Buldogs foi o vencedor. Neste ano, os vencedores serão conhecidos em 1º de julho.

Quando alguém visita a cidade, é comum buscar conhecer os pit dogs tradicionais. Em 2025, Goiânia também ganhou o inédito Festival Circuito X, que reuniu dezenas de estabelecimentos em um evento organizado pelo Sistema Fecomércio Sesc/Senac, com apoio da Confederação Nacional do Comércio Bens e Serviços (CNC), do Sebrae Goiás, Sindicato dos Proprietários de Pit Dogs e Lanches de Goiás (Sindipitdogs-GO) e Sicoob Secovicred. O Sebrae também apoiou os participantes com palestras e consultorias.

Festival X 2025 – Foto: Silvio Simões / Sebrae GO

O lançamento do Circuito X foi realizado de 8 a 10 de maio de 2025, na Praça das Artes, no Jardim Goiás, com a presença de 20 pit dogs, cada um com a melhor versão do x-salada. Em três dias, foram comercializadas mais de 10 mil unidades de sanduíches. Centenas de famílias estiveram presentes no evento que contou com shows, djs, brinquedos, cozinha show e oficinas gastronômicas. Segundo a Fecomércio, a edição de 2026 está prevista para setembro.

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por Michelle Rabello

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