A Redação
Goiânia – Pirenópolis volta a integrar a circulação do Dandô – Movimento de Arte e Saberes Dércio Marques. Nesta sábado (22/8), às 20h, a Comunidade Educacional de Pirenópolis (COEPi) recebe a cantora, instrumentista e compositora Kátya Teixeira, idealizadora e coordenadora do movimento, para a abertura de uma nova agenda que terá continuidade nos próximos meses com artistas brasileiros.
A retomada da circulação pela cidade recupera uma relação que antecede a própria criação formal do Dandô. Foi em Pirenópolis, em 2012, durante um encontro que reunia artistas brasileiros e chilenos e era produzido pela COEPi, que Kátya começou a compartilhar a ideia de criar uma rede que conectasse músicos, produtores, espaços culturais e públicos de diferentes cidades. “O primeiro sopro do Dandô aconteceu aí, nesse momento. Ainda não era o Dandô, era a primeira ideia”, relembra Kátya.
Naquele período, a artista vinha amadurecendo um projeto de circulação inspirado também pela trajetória do cantor, compositor, violeiro e pesquisador Dércio Marques, falecido em 2012. Para Kátya, Dércio fazia parte de uma linhagem de artistas viajantes, trovadores que, por meio da música, levavam histórias e experiências de um território a outro. “Ele foi uma inspiração para nós todos nesse sentido. Não só pelo músico e pelo artista maravilhoso que foi, mas pelo ser humano e por essa forma de entender a arte como transformação”, afirma.
De uma rede de artistas nasceu o Dandô
A ideia de criar uma iniciativa dedicada à circulação artística já acompanhava Kátya desde o início dos anos 2000. O projeto inicialmente imaginado, porém, exigia uma estrutura financeira que dificultava sua realização. Após a morte de Dércio Marques em uma homenagem promovida a ele no Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros, em 2012, a artista passou a enxergar outra possibilidade: utilizar uma rede que já existia informalmente entre músicos, produtores e espaços culturais espalhados pelo país.
Em vez de criar uma estrutura centralizada, a proposta seria conectar pessoas que já produziam cultura em seus territórios e construir a circulação de forma 1 colaborativa. “Percebi que a gente já tinha uma rede de artistas e produtores fazendo coisas nos seus lugares, sobrevivendo, mostrando o que estava acontecendo e se comunicando. Eles só precisavam juntar forças”, conta.
Durante aproximadamente um ano, Kátya percorreu cidades e conversou com artistas e produtores sobre a proposta. Os encontros começaram em pequenos formatos: um artista chegava à cidade, era recebido por outro artista local, realizava a apresentação e, ao final, permanecia para uma conversa com o público.
Em 2013, o movimento ganhou também o nome pelo qual se tornaria conhecido. A sugestão de Dandô partiu do violeiro Levi Ramiro, em referência a uma composição de João Bá gravada por Dércio Marques. O nome curto também dialogava com a ideia de deslocamento, circulação e movimento.
A experiência ganhou escala. Kátya relembra que, em determinado período da trajetória, o circuito chegou a cerca de 80 cidades e realizava aproximadamente 300 apresentações por ano. As conexões ultrapassaram as fronteiras brasileiras, aproximando artistas e parceiros de outros países da América Latina e também da Europa.
A produtora do evento na COEPi, Isabella Rovo, destaca essa característica do projeto. “O Dandô não é apenas uma série de shows, o projeto se estrutura a partir da troca de experiências, repertórios e saberes”, explica. Segundo ela, a proposta é fazer com que cada passagem por uma cidade estabeleça conexões com o território e aproxime o público de artistas e produções que nem sempre encontram espaço nos circuitos e mídias convencionais.
Do circuito de música ao Movimento de Artes e Saberes
A trajetória também acompanhou as transformações ocorridas no próprio setor cultural. Em 2020, quando a pandemia interrompeu as circulações presenciais previstas para dezenas de cidades, o Dandô passou a desenvolver ações pela internet, entre elas a TV Dandô, além de oficinas, mostras, rodas de conversa e encontros virtuais.
O ambiente digital permitiu ainda tornar mais visíveis outras expressões que já orbitavam o circuito. Entre 2020 e 2021, começaram a ser organizados núcleos e atividades ligados a diferentes linguagens e temas. O Dandô deixou então de se apresentar apenas como um circuito de música e passou a se constituir como Movimento de Arte e Saberes Dércio Marques. Kátya ressalta que, apesar das mudanças de formato e da redução do ritmo das circulações, o movimento permaneceu ativo. Nesse processo, encontros nacionais continuaram sendo realizados, presencial ou virtualmente, e passaram a existir também caravanas, residências e atividades de caráter regional.
A proposta recupera um princípio presente desde a origem do projeto: não apenas passar pelas cidades, mas criar vínculos. Para Kátya, a continuidade 2 do Dandô está ligada justamente à capacidade de adaptar sua forma de atuação sem perder o princípio que motivou sua criação: estabelecer encontros por meio da arte. “A prioridade do Dandô é manter aceso o sonho, manter acesa a vontade de estar arreunido”, resume.
Nova circulação do Dandô em Pirenópolis, Brasília e Olhos D’agua
A presença de Kátya Teixeira na abertura da programação da COEPi no dia 22 de agosto, às 20h, reúne, assim, três elementos ligados à trajetória do Dandô: a artista que idealizou o movimento, Pirenópolis, cidade presente nos primeiros momentos de construção dessa rede, e a violeira goiana Amanda Ricoldi.
Katya é cantora, instrumentista, compositora e pesquisadora da cultura popular. Construiu sua trajetória a partir de viagens e encontros com mestres, artistas e manifestações culturais de diferentes regiões do país. Em seu trabalho, reúne cantos, ritmos, narrativas e sonoridades recolhidos ao longo dessas experiências.
Com mais de três décadas de carreira, possui oito álbuns lançados, além de singles e colaborações com diferentes artistas e projetos. Seus trabalhos receberam indicações ao Prêmio da Música Brasileira e ao Prêmio Profissionais da Música. Kátya também recebeu duas vezes o Troféu Catavento, da Rádio Cultura de São Paulo, e, em 2025, o Prêmio Inezita Barroso, da Câmara Municipal de São Paulo.
Amanda Ricoldi é cancioneira, violeira, compositora e brincante, com mais de 19 anos de atuação nas artes circenses e na cultura popular brasileira. Sua pesquisa artística transita entre a música, a palhaçaria e as manifestações tradicionais, tendo a viola caipira como companheira de cena e elemento de conexão com o público.
Antes de chegar a Pirenópolis, Kátya Teixeira passa por Brasília, onde realiza roda de prosa na Oca do Sol dia 19, e por Olhos d’Água, no dia 21 com apresentação no NACO – Núcleo de Artes do Centro-Oeste.
Programação terá continuidade
A passagem de Kátya abre uma sequência de atividades do Dandô na COEPi no ano em que a instituição completa 30 anos. A programação já prevê outros dois encontros ainda neste ano. No dia 18 de setembro, será a vez do Duna.Duo, formado por Kaise Ribeiro e Adriano Rocha.
No mês de outubro a COEPi ainda realiza mais uma edição, fortalecendo o intercâmbio entre artistas e iniciativas culturais de todo o Brasil. As informações e datas serão divulgadas ao longo da programação.
Esta atividade de circulação do Dandô é produzida pela COEPi dentro do Projeto Ipê de Pé, contemplado pelo Edital de Manutenção de Espaços 3 Culturais da Política Nacional Aldir Blanc, instituída pelo Ministério da Cultura e viabilizada pela Secretaria de Cultura do estado de Goiás.
Serviço:
Dandô – Movimento de Arte e Saberes Dércio Marques | Circuito Cerrado
22 de agosto: Kátya Teixeira e Amanda Ricoldi
Horário: 20h
Local: COEPi – Pirenópolis (GO) Rua do Carmo, 0 – Bairro do Carmo – Pirenópolis (GO)
Entrada Gratuita (apoio PNAB-GO/MinC)
21 de agosto Katya Teixeira e Kaise Ribeiro com João Fleury
Horário: 20h
Local: NACO – Olhos Dágua (GO) Praça Central de Olhos D’água
Contribuição solidária

Maravilhosa síntese sobre o Dandô trazendo mais conexão com o Dandô Cerrado neste momento tão fundamental de transição em que fortalecer a cultura de raiz é fundamental.A coragem de Katia fortalecer todo circuito