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Pesquisa com psicodélicos avança no Brasil, apesar de entraves e preconceito

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07.08.2022 - 08:00:00

José Abrão
 
Goiânia – A Netflix estreou em julho a minissérie documental Como Mudar a sua Mente, que compartilha o mesmo nome e tema do livro do jornalista Michael Pollan sobre o potencial medicinal de diversas drogas psicodélicas. Tanto o livro quanto o documentário, apresentado pelo próprio jornalista, abordam o chamado renascimento da ciência psicodélica a partir dos anos 1990, e que ganhou mais força desde 2010, no mundo todo.
 
De fato, a mudança está acontecendo, mesmo fora dos laboratórios. Em 2019, a Califórnia, nos Estados Unidos, descriminalizou o uso da psilocibina, conhecida como cogumelos mágicos. Ao mesmo tempo, tramita um projeto para legalizar a substância no território estadual. O Estado americano de Washington também trabalha, desde o início deste ano, para permitir o uso medicinal destes cogumelos no tratamento de doenças mentais. Além disso, já no começo de 2023, a FDA (Food and Drug Administration), agência americana com um papel similar ao da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pode legalizar o uso medicinal do MDMA (A 3,4-metilenodioximetanfetamina), substância conhecida como ecstasy, que se provou muito eficaz no tratamento de estresse pós-traumático.
 
Porém, estas substâncias, assim como LSD (Dietilamida do Ácido Lisérgico), o DMT (dimetiltriptamina) e mesmo o THC (tetra-hidrocarbinol) e o canabidiol, entre tantas outras, permanecem ilegais no Brasil e na maior parte do mundo: ter, usar ou produzi-las é crime. Mas a pesquisa avança com a promessa de que estas mesmas drogas, consideradas há décadas como muito perigosas e ameaçadoras, possam trazer grandes avanços na saúde, especialmente no tratamento de doenças mentais.
 
Psicodelia à brasileira
O principal campo ocupado pelo Brasil nas pesquisas com psicodélicos envolve a ayahuasca, bebida produzida a partir da combinação da videira Banisteriopsis caapi com a Psychotria viridis, que possui o psicodélico DMT utilizada para rituais religiosos como o Santo Daime. No campo dos psicodélicos, a ayahuasca é a única substância com uso legal no Brasil. Seu uso recreativo e posse ou produção do composto DMT isolado, porém, permanece criminalizado.
 
Essa condição única, jurídica e cultural, permite que os pesquisadores tenham um pouco mais de espaço e liberdade. O estudo clínico mais significativo realizado até agora é do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A neurocientista Fernanda Palhano faz parte da equipe que tem estudado os efeitos da ayahuasca em pacientes com casos graves de depressão resistente a tratamentos convencionais. “O Brasil tem essa vantagem em relação a outros países. Temos uma substância psicodélica com um acesso científico facilitado”, diz.



Fernanda Palhana é neurocientista na UFRN (Foto: acervo pessoal)

 
A pesquisa avaliou um grupo de 29 pacientes, divididos aleatoriamente em dois, em que metade tomou placebo. As pessoas que tomaram ayahuasca permaneceram com uma melhora significativa no quadro depressivo, mesmo sete dias após receberem a dose.
 
“Esse resultado é interessante por dois motivos. O primeiro é que pegamos pacientes graves, que não responderam a tratamentos convencionais anteriores. Um deles até havia tentado a eletroconvulsoterapia (ECT), que é o padrão ouro no tratamento de depressão resistente. E ele melhorou com a ayahuasca”, relata Palhano. “O outro fator é que os tratamentos com os antidepressivos convencionais levam de duas a três semanas para começarem a fazer efeito, enquanto nós já vimos algum resultado com um dia. Tem ação rápida”, completa.
 
A pesquisa agora está testando o DMT isolado, que tem um efeito psicodélico agudo mais curto, inferior a uma hora, enquanto a ayahuasca como bebida dura quatro horas. “Isto aumenta a viabilidade do tratamento clínico. Temos estudado modelos de intervenção, não um tratamento de uso contínuo. Levando quatro horas, é uma grande dificuldade manter o paciente sob supervisão por todo esse período. A DMT isolada reduziria esse tempo, permitindo atender um número maior de pacientes”, explica a pesquisadora. Segundo ela, há também uma viabilidade financeira envolvida. 
 
O avanço, porém, outra vez esbarra nas proibições: como o DMT é ilegal, a nova fase precisa lidar com diversos procedimentos legais e autorizações especiais para avançar.
 
Dimitri Daldegan-Bueno, psicólogo pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade de Auckland na Nova Zelândia, abordou a ayahuasca por outro ângulo: de que ela ajuda no combate ao abuso de outras substâncias, principalmente do cigarro, do crack e do álcool. "Fizemos uma pesquisa de baixo custo, que foi aplicar questionário a pessoas que relataram ter parado de fumar após uso da ayahuasca”, explica.
 
Também foram usados outros mecanismos para avaliar a dependência dos participantes, assim como a experiência mística, um fator importante no potencial terapêutico dos psicodélicos. Foram formados dois grupos: um que parou de fumar e um que não. “Comparando os resultados, observamos que a experiência mística era um fator de proteção. A pessoa que marcou que teve um alto índice de experiência mística tinha mais chance de parar de fumar”, conta o pesquisador.



Dimitri pesquisou a influência da ayahuasca na dependência química (Foto: acervo pessoal)

 
A experiência mística é um importante componente terapêutico dos psicodélicos. Segundo Dimitri, quanto mais intensa, maiores as chances de desdobramentos positivos nos tratamentos. “É a dissociação do tempo e do espaço, da sensação de união com o todo e a perda de sentido de fronteira com as outras pessoas e com o universo”, explica. A ação está ligada até ao termo "psicodélico", que significa, grosso modo, “revelar a mente”.
 
Com bons resultados preliminares, o cientista vê espaço para que outras pesquisas com ayahuasca se aprofundem na área da dependência química. Além disso, o pesquisador planeja estudar a microdosagem do DMT na sua tese de doutorado, prevista para o ano que vem, com a intenção de observar um fator específico: “Na microdosagem, não há experiência mística. Será que mesmo assim existem efeitos positivos duradouros?”, questiona.
 
Lucas Maia, biólogo formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com mestrado pela Unifesp e doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) nas áreas de psicofarmacologia e saúde mental, também desenvolveu estudos com a ayahuasca e com a maconha, considerada um psicodélico atípico. O principal componente psicodélico da maconha, ou cannabis, é o THC (tetra-hidrocarbinol).
 
“A rigor, o THC é um psicodélico. É uma substância que gera alteração qualitativa de percepção. A cannabis em doses mais altas pode alterar essa percepção, mas é muito diferente de psicodélicos como ayahuasca ou LSD, que vão proporcionar uma experiência muito mais imersiva e introspectiva em doses pequenas”, explica.
 
Com a ayahuasca, Maia estudou o impacto do uso ritual da bebida em pacientes com doenças graves. O estudo teve 14 participantes com doenças físicas e não psiquiátricas. Sete tinham câncer. Os outros sete tinham o vírus da imunodeficiência humana (HIV), esclerose múltipla, doenças degenerativas, entre outras. “Abordamos pacientes lidando com angústia e com o medo da morte. O resultado foi bastante objetivo: o uso facilitou a aceitação através de experiências introspectivas e subjetivas”, conta, também salientando a importância do fator místico no uso terapêutico.



O biólogo formado pela UFG e pesquisador, Lucas Maia (Foto: acervo pessoal)

 
Com a maconha, Lucas fez testes em camundongos para avaliar os antidepressivos do THC,  e de outras substâncias derivadas da cannabis, chamadas canabinoides, como por exemplo o canabidiol, utlizado no tratamento de epilepsia e Alzheimer. Ele encontrou efeitos antidepressivos e depressivos, dependendo da dose e da substância. “O THC, que é o maior responsável pelos efeitos psicoativos da maconha, mostra ações antidepressivas em doses baixas, porém apresenta efeitos tipo-depressivos em doses mais altas”, conta.
 
O canabidiol isolado, porém, não teve impacto nas cobaias durante o experimento, sendo necessária a sua combinação com o THC.  “Os canabinoides funcionam melhor quando interagem entre si. Isso favorece a noção de que extratos de cannabis funcionam melhor do que o componente isolado, o que já é reforçado por outros estudos feitos em humanos como, por exemplo, no combate da epilepsia”.
 
Longo caminho a ser trilhado
A ilegalidade das substâncias por si só já impõe barreiras jurídicas e financeiras que muitas vezes afastam cientistas interessados no campo. Além destes entraves, as pesquisas precisam passar por avaliação rigorosa de comitês de ética e ainda lidar com o preconceito em geral. “Para tentar ter acesso a uma droga derivada da cannabis, um colega gastou, um tempo atrás, cerca de R$ 8 mil só pela importação”, conta a bióloga Flávia Boos, doutoranda em Psicobiologia na Unifesp. “Então não temos nenhum estímulo. Há uma dificuldade jurídica e financeira muito grande. Além disso, o investimento em ciência caiu muito durante o governo Bolsonaro e já vínhamos de uma queda”, critica.
 
Neste cenário, o Brasil tem um papel de destaque, conforme centros de referência na pesquisa de psicodélicos se tornam consolidados. Com o objetivo de combater o preconceito e disseminar o conhecimento científico sobre estas drogas, um grupo de pesquisadores do qual Flávia, Lucas e Dimitri fazem parte criou o site Ciência Psicodélica.
 
“A gente sempre quis facilitar o acesso à informação e, na ciência, a publicação é feita principalmente em inglês. A gente queria disponibilizar um material recente em português para que nossa população tenha acesso às pesquisas atuais. Também apresentados o que são os psicodélicos e como elas funcionam”, explica Boos. “Buscamos divulgar a ciência psicodélica feita no Brasil, porque somos um país com um papel importante nesse renascimento mundial. E mostrar como é importante investir em ciência brasileira.”


 A pesquisadora da Unifesp, Flávia Boos (Foto: acervo pessoal)

Apesar dos avanços conquistados a duras penas pelos pesquisadores brasileiros, a realidade proibicionista faz com que o progresso seja a passos de formiguinha: mesmo com as descobertas recentes, os psicodélicos, incluindo a ayahuasca, ainda estão longe da descriminalização e do uso clínico cotidiano no Brasil. Com o progresso da descriminalização em grandes centros de influência, como os EUA, talvez isto acelere as coisas por aqui. Até lá, os pesquisadores defendem um maior compartilhamento de informação para combater o preconceito.
 
“Em primeiro lugar, é preciso se falar mais sobre drogas, legais ou ilegais, no Brasil, pois elas são utilizadas de qualquer forma. Portanto, as pessoas precisam estar informadas sobre seus efeitos e riscos”, avalia. “Psicodélicos são ilegais no Brasil e na maior parte do mundo. Mesmo assim, quem quiser ter acesso, vai encontrar por vias ilegais. Porém, não há nenhum controle sobre a substância que está sendo vendida, pela própria característica da ilegalidade”, completa.
 
Para Palhano, documentários como o da Netflix e sites como Ciência Psicodélica ajudam exatamente a ampliar essa discussão e a desmistificar o tema. “A divulgação desta forma alcança muitas pessoas e parte do apelo é mostrar pacientes que se beneficiaram. Quando você vê um relato em primeira mão de um paciente que melhorou, você começa a enxergar o benefício: por que uma pessoa que eu conheço não pode se beneficiar desse potencial terapêutico existente?”, diz a neurocientista.

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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