Goiânia – Se você me perguntasse o que fazer nesse final de ano, eu lhe recomendaria ler um livro: o Eclesiastes. Talvez você não goste da sugestão. Compreendo! Nesse mundo virtual, de devaneios lúdicos, cores psicodélicas, redes cibernéticas…. Que chato! Ler? E, além de tudo isso, é o mais mal-humorado livro da Bíblia. Amargo, ácido. Um livro que profere que “tudo é vaidade e correr atrás do vento”. Como aceitar um livro que diz que não há nada de novo, o que será já foi, nem ano novo há?
Como aceitar um livro escrito por um velho rei entediado com a vida, e que assevera com frequência “já vi, já fiz, já sei”; livro cruento, que abusa de adjetivos do tipo “absurdo”, “fútil”, “inútil” quando se refere à riqueza e ao prazer; assaz existencial, afirma ser melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa onde há festa (comida e bebida), pois a morte é o destino de todos, e os vivos devem levar isso muito a sério.
Contudo, por mais incrível que pareça, talvez seja esse livro a mais incisiva lição de ânimo que se pode obter em toda literatura universal. De fato, ele mostra que o Deus de Salomão é real, não escamoteia a verdade, não fantasia, e não enseja ilusões acovardadas. A crueza aparentemente aborrecida do Pregador expõe a realidade escaldante da vida debaixo do sol e, nessa condição inexorável, faz, pelo menos, três convites, difíceis de serem assimilados nesse mundo pós-moderno – sim, ilusionista, enganador, dionisíaco…
O primeiro convite é pensar! Pensar é a coisa mais difícil no mundo de hoje. Pensar dói! É tão difícil quanto viver. O “fazer pensar” proposto pelo filho de Davi ensina a dizer “não sei”, quando o mistério da própria vida não oferece resposta. Por isso o Eclesiastes leva o leitor a um realismo implacável, intenso, íntegro e integral.
O segundo convite é vencer o tédio! Deprecia o pusilânime ou o deslumbrado; valoriza o denodado, seja cético, ateu ou crédulo, mas sincero. Encara a realidade nua e crua. No mundo em que a depressão mata mais que as guerras, onde é insuportável respirar e dormir sem cocaína ou rivotril, onde o pânico prende todos ao delírio dos psicotrópicos ou do suicídio, só escancarando a realidade olho no olho é que se poderá ter esperança nesta e além desta vida.
O terceiro convite do Eclesiastes é o mais importante: “Lançar o pão sobre as águas!”. A eterna lei do retorno, a inexorável lei da semeadura. Se plantar, colherá! Pode até demorar, mais a fé como fonte do trabalho produzirá bons frutos! E depois de colher, não acumular, mas repartir. Pois, só o partilhar do pão e do vinho, com amor, pode quebrar a rotina enfadonha da vaidade e tornar novo o vinho e nova a ceia.
Por fim, o Eclesiastes leva o leitor a desistir de desistir, isto implica em ter paciência para que possa conhecer e apreciar a soberania e a longanimidade de Deus, e para quem quer encarar a vida de frente.
*Edemundo Dias de Oliveira Filho é advogado, pastor evangélico e coordenador do Instituto de Juristas Cristãos do Brasil/Goiás.