Jales Naves
Especial para A Redação
Goiânia – Inaugurada em 21 de abril de 1960, Brasília mudou o Brasil de lugar. Puxou o centro de gravidade do país do litoral para o coração do território e obrigou a nação a tomar posse do seu interior. A afirmação é da pesquisadora Lenora de Castro Barbo, doutora em Arquitetura e Urbanismo, ao falar, em nome do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, no Simpósio “Juscelino Kubitschek: 50 anos de ausência (1976-2026)”, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em agosto. “Dela irradiaram as estradas, a principal delas foi fruto do projeto de um deputado eleito por Goiás, a Belém–Brasília, que o próprio Juscelino chamou de ‘espinha dorsal da nacionalidade’”. “Brasília foi erguida por centenas de milhares de candangos, vindos sobretudo do Nordeste e de Goiás, que fixaram raízes e deram origem às cidades ao redor. Ela integrou, povoou, aproximou e reduziu a velha assimetria entre um litoral cheio e um interior esquecido”, afirmou.
Cinquenta anos depois da ausência de Juscelino, “o que fica? Fica a lição de que o desenho de um território é inseparável de um projeto de nação. Fica a prova de que ciência, política e arte, quando se dão as mãos – de Cruls a Goiás, de Lúcio a Niemeyer, sob a coragem de um estadista –, são capazes de tirar uma capital do nada”, frisou. “E fica, para nós de Minas e de Goiás, um orgulho compartilhado: o de que o filho de Diamantina teve a grandeza de servir ao Brasil inteiro. Juscelino não construiu apenas uma cidade; construiu uma certeza: a de que este país pode ser maior do que as suas próprias dúvidas”, completou.
Ela disse da honra de falar de JK em Minas Gerais, na terra que o viu nascer, em Diamantina, e que o entregou ao Brasil. Sua palestra, “Da Constituinte de 46 ao Cerrado: A coragem política e o desenho urbano na inflexão de Kubitschek”, repercutiu positivamente e ela foi muito aplaudida pelos presentes. “Entre uma data e um chão, há uma travessia e é ela que quero lhes propor. Brasília foi, ao mesmo tempo, um ato de coragem política e um ato de desenho: um estadista e uma geração de artistas. E, para que essa travessia acontecesse, muita coisa precisou ser preparada antes. inclusive, e é disso que trata a minha pesquisa, pelas mãos de Goiás”.
O IHGG esteve representado, na solenidade, pela professora Márcia Santos.
Sonho antigo e ciência
A ideia de interiorizar a capital não nasceu com Juscelino: “atravessa a nossa história. Desde 1813, Hipólito da Costa, e depois José Bonifácio e Francisco Varnhagen, apontavam para o mesmo lugar: o divisor das águas do Brasil, o coração do território, onde nascem três das nossas grandes bacias hidrográficas. Por quase dois séculos, porém, isso foi apenas uma bela abstração”, anotou.
A ideia virou ciência na Primeira República, com duas comissões chefiadas pelo astrônomo Luiz Cruls, entre 1892 e 1896. Cruls e sua equipe desbravaram o sertão de Goiás, demarcaram os 14.400 km² do Quadrilátero Cruls e provaram, com dados, que aquele planalto era habitável, fértil e salubre. O botânico Auguste Glaziou catalogou as madeiras, identificou um antigo lago e sugeriu devolvê-lo ao seu leito – “o embrião do nosso Lago Paranoá. Nascia ali a ‘solução histórica’: a prova científica, inexpugnável, de que a capital deveria ser no Planalto Central. Guardem essa expressão, pois ela é a chave do que vem a seguir”.
Duelo das capitais
A Constituição de 1946 tornou a mudança imperativa e mandou criar uma comissão técnica, com o debate acendendo num embate regional que a historiografia muitas vezes esquece. De um lado, o Planalto Goiano, ancorado na solução histórica de Cruls. “De outro, uma proposta mineira: levar a capital para o Triângulo Mineiro, mais perto das áreas já dinamizadas. Dois projetos, dois engenheiros: pelo Triângulo, o mineiro Lucas Lopes, com a sua “Memória de 1946”; pelo Planalto Central, o goiano Manoel Demósthenes Barbo de Siqueira, com os “Estudos sobre a Nova Capital”, de 1947”.
“E – peço licença para sublinhar isto diante de vocês, mineiros — naquele momento, o deputado Juscelino Kubitschek estava com Minas. Ele apoiou a emenda do Triângulo Mineiro; foi ele, aliás, quem pediu que a Memória de Lucas Lopes fosse anexada aos Anais da Constituinte. Juscelino, em 1946, defendia a sua terra. O desfecho veio em 1948: reunida a comissão do general Polli Coelho, votou-se, e, por sete votos a cinco, venceu o Planalto Goiano. Guardem esse Juscelino de 1946, o mineiro que defendeu Minas, porque a grandeza do que ele faria depois só se mede em contraste com este ponto de partida”.
1955: o chão preparado
Antes de Juscelino chegar, um ano fez toda a diferença: 1955. No plano técnico federal, a escolha do sítio ganhou velocidade com a aerofotogrametria, um levantamento aéreo de altíssima precisão, contratado sob o general Caiado de Castro, de família goiana. Consolidado pelo marechal José Pessoa, cuja comissão aprovou, em abril de 1955, o Sítio Castanho como o ponto exato, e traçou o primeiro desenho urbano, já com o Lago Paranoá.
Mas as condições concretas da mudança, quem as criou foi o Estado de Goiás. Sob o governador Juca Ludovico, Goiás declarou de utilidade pública a área, deu rito célere às desapropriações, abriu campos de pouso e estradas com Bernardo Sayão, garantiu o orçamento pela mão do senador Coimbra Bueno e comprou, à própria custa, as terras estratégicas do Sítio Castanho, para blindá-las da especulação. “Quando Juscelino tomou posse, o sítio exato, a segurança das terras, a infraestrutura inicial e a retaguarda orçamentária já estavam prontos. Goiás preparou o chão. E foi sobre esse chão preparado que a coragem de um estadista pôde, enfim, erguer uma capital”, salientou Lenora Barbo.

JK, o estadista
Na campanha de 1955, JK cruzou o Brasil mais de três vezes, num DC-3 equipado com escrivaninha e cama. Foi em Jataí, GO, que um cidadão o desafiou: “O senhor vai cumprir a Constituição e mudar a capital?”. Juscelino, que confessava, em particular, não ter a mudança entre suas prioridades, respondeu que sim: “se a Constituição mandava, ele cumpriria. Aquela pergunta, dizia ele, foi amadurecendo a ideia comício após comício”.
A mudança já estava na consciência do povo
JK venceu a eleição com cerca de 36% dos votos, pouco mais de um terço, a menor margem até então. Assumiu, em janeiro de 1956, sob estado de sítio, num país que tivera três presidentes em 1955 e sem receber a faixa de um antecessor eleito. E seu primeiro gesto foi revogar o estado de sítio e acabar com a censura. “Começou pacificando. Até então, ele dizia que, ao assumir, “só o local havia sido escolhido; tudo mais estava por fazer”. No quarto dia de governo, ao ouvir do Marechal Pessoa o estágio avançado dos trabalhos e da retaguarda goiana, Juscelino enxergou o que poucos enxergariam: que era possível. E fez de Brasília a meta-síntese do seu Plano de Metas, o motor dos “50 anos em 5”.
“E aqui está a grandeza que nos reúne. O mesmo Juscelino que, deputado mineiro, defendera o Triângulo, como Presidente encampou a solução do Planalto Goiano. Não por conveniência regional, pois a sua região havia perdido a disputa, mas por dever constitucional e por visão de país. Foi preciso um mineiro para pôr de lado o interesse de Minas e agir como estadista do Brasil inteiro. Ele transformou um preceito constitucional inerte em política de Estado ativa e ergueu, em três anos e meio, no cerrado bruto, o que muitos juravam impossível. Juscelino não uniu o Brasil apesar de ser mineiro; uniu o Brasil como só um grande mineiro saberia, colocando a nação acima da própria terra”, ressaltou Lenora Barbo.
Desenho urbano: a ousadia
A coragem política, sozinha, não ergue uma cidade: é preciso dar-lhe forma. “E aqui falo também como arquiteta, porque Brasília é um dos gestos de desenho mais ousados do século XX. Do concurso de 1956–57 saiu o Plano Piloto de Lúcio Costa. Um gesto quase primordial: dois eixos que se cruzam, um sinal da cruz lançado sobre o cerrado. O Eixo Monumental, do poder e do cívico; o Eixo Rodoviário, curvo, da vida cotidiana, organizado em superquadras arborizadas, livres das esquinas e dos cruzamentos da cidade tradicional”.
William Holford, um dos jurados, chamou-a de “a melhor ‘ideia’ para uma cidade-capital unificada” já dada ao urbanismo moderno. E Mário Pedrosa cravou: “Brasília é mais que urbanismo, é uma hipótese de reconstrução de todo um país”. “Se Lúcio Costa deu a ordem, Oscar Niemeyer deu o lirismo”.
“Com o concreto armado, material bruto, Niemeyer fez poesia. As colunas do Alvorada, que parecem tocar o chão de leve; as duas conchas do Congresso, uma para o alto, outra para baixo; a Catedral, que se abre ao céu como mãos em prece; o Itamaraty pousado sobre a água. Uma geração genial: Juscelino, Israel Pinheiro à frente da Novacap, Lúcio, Oscar, os engenheiros, os paisagistas e o exército anônimo dos candangos”.
Contra o horizonte imenso do cerrado, o traço e a curva fizeram mais do que desenhar uma cidade: “deram forma corpórea a um país que decidiu acreditar no próprio futuro. Brasília é a arquitetura como pedagogia cívica: o Estado se declarando, em concreto e vidro, como a busca do novo, do melhor, e da coragem de sonhar”, completou.

Lenora de Castro Barbo integra essa gama de grandes brasileiros que, como JK e todos os que se envolveram, desde o séc. XIX, no propósito de trazer para o Planalto Central a capital do país fez com que se interiorizasse o Brasil.
Parabéns, Dra. Lenora, você nos representa!