São muitos os equívocos na decisão de trasladar o painel vandalizado de frei Nazareno Confaloni para o Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia. Aliás, estes, os equívocos, começaram a se alinhar quando a Secretaria Estadual da Educação do Estado de Goiás abandonou em 2019 o prédio que ocupava por décadas sem, contudo, entregar contratualmente as chaves aos proprietários, que se recusaram a recebê-las. Gerado o impasse, o prédio ficou à mercê de vândalos que fizeram dele seu esconderijo e, do painel artístico, uma superfície de assombros, com camadas e camadas de tinta derramada sobre seus traços e, por fim, a espessa cobertura de um produto semelhante ao piche, o mesmo que se usa para dar liga à matéria asfáltica. Passados quatro anos deste atentado ao patrimônio artístico e histórico tornado processo burocrático vagando para lá e para cá sem solução, foi finalmente decidido pelo Conselho Estadual e Secretaria de Cultura (11/07) que o painel será retirado do prédio que praticamente não existe mais e levado para o CCON.

Esse tempo prolongado para se chegar à conclusão sobre seu destino contribuiu, ele mesmo, para se tornar mais um algoz do painel vandalizado, aprofundando seus danos, primeiramente por meio de infiltrações, goteiras e mofos que foram surgindo e, posteriormente, fazendo incidir os raios solares diretamente sobre sua superfície ou a água da chuva, quando até mesmo o telhado do prédio foi arrancado.
Agora, se faz novo dano ao painel ao decretar seu encaminhamento de forma equivocada, sem ouvir os colegas contemporâneos do artista e sua família na Itália, interessada nos desdobramentos. A arquitetura de Niemeyer, com seus traços contemporâneos marcantes, está bem longe da linha da Arte Moderna com que Confaloni tratava suas obras. Haveria, portanto, um choque estético irreconciliável. Prosseguindo no equívoco, temos que na concepção do prédio contemporâneo não foi imaginado um lugar que alojaria uma obra semelhante ao tamanho avantajado do painel, que mede 9×3,5metros.
Ademais, a decisão menciona que será realizado no local “o armazenamento da obra e futuro restauro”, o que vai requerer pesquisas e estudos antes de sua demorada restauração ser iniciada, redundando em um tempo imprevisível em que o painel estaria necessariamente isolado por tapumes e lonas, dando ao local um aspecto de canteiro de obras. Por outro lado, os equívocos desta decisão se tornam ainda mais gritante quando sabemos que os responsáveis por ela tinham em mãos a solicitação para que o painel fosse trasladado para o nascente museu que tem o nome do artista, na cidade de Goiás. Para receber o painel foi inclusive preparada uma parede especial, com a metragem e as condições ambientes exigidas.
O museu segue seu curso e será inaugurado no dia 12 próximo. E a monumental paredebranca, ilustrando os equívocos, estará vazia.
*Px Silveira é biógrafo do artista e representante da família Confaloni no Brasil, curador da Exposição de Longa Duração que inaugura o Museu Histórico Dominicano Frei Nazareno Confaloni, na cidade de Goiás, dia 12 de agosto de 2023. pxsilveira@me.com.br