Logo

Os universitários “analfabetos”

WhatsAppFacebookLinkedInX
17.07.2014 - 18:03:29

Em 2012, uma pesquisa do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa apontou que 38% dos estudantes universitários brasileiros eram analfabetos funcionais. Este ano, uma nova pesquisa, feita agora pela Universidade Católica de Brasília, constatou que esse número subiu para 50%.

Uma pergunta não me sai da cabeça: como assim? Como uma pessoa incapaz de elaborar e compreender textos complexos pode ter um título de graduação ou pós-graduação?

Pode ser o milagre brasileiro, o jeitinho brasileiro, a falha no sistema de educação brasileiro. Não é meu objetivo neste momento buscar culpados ou criticar qualquer programa de incentivo à educação, embora eu tenha argumentos para tanto. Uma informação: a maioria dos estudantes nessas condições vêm de escolas públicas e estudam em faculdades particulares.

Meu foco agora é no indivíduo, no que pode ser feito apesar dessa realidade tão assustadora. Eu digo assustadora com base em um simples raciocínio lógico: se metade dos universitários são analfabetos funcionais, e se as universidades não estão preocupadas em preencher essa lacuna deixada pela educação básica, é dedutível que essas pessoas chegarão ao mercado de trabalho carentes de habilidades comunicativas essenciais no mundo corporativo.

E provavelmente façam parte de uma outra estatística, que mencionei aqui em outro texto: a dos 40% de candidatos a uma vaga de emprego que são reprovados em seleções por causa da redação.

A falta de leitura, de um ensino digno e contextualizado da língua portuguesa e da preocupação em se capacitar especificamente em linguagem faz com que hoje muitas pessoas fiquem à margem da sociedade. Fica difícil imaginar alguém que passe quatro anos de sua vida fazendo um curso superior sem ser capaz de ler analiticamente um livro técnico e adquirir conhecimento. E sem ter o interesse de, como autodidata, ou buscando cursos de aperfeiçoamento, melhorar essa habilidade.

Durante muito tempo revisei trabalhos de conclusão de curso e monografias. Muitos deles eram apenas um amontoado de citações incoerentes, costurado com frases de efeito e breves comentários sem sentido. Curiosa, eu jogava trechos no google e caía direto naqueles sites de trabalhos prontos e até na Wikipédia.

A impressão que temos de que “dá pra empurrar com a barriga” leva muita gente à cômoda solução de encomendar seus trabalhos. O que não se pensa é que só o diploma não vale nada, se não vem acompanhado do aprendizado a que se propõe um estudante. Infelizmente, a nossa cultura de valorizar papelada e estatística se reflete na sala de aula. Ser aprovado é mais importante que aprender.

Sinceramente não sei onde quero chegar com isso. Só gostaria de dividir as informações e a minha preocupação com essas pessoas que não pensam em se comunicar bem, que compram trabalhos e que enchem os arquivos acadêmicos e nossas timelines de textos incompreensíveis, frases capengas e palavras que não existem.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Leticia Borges

*Leticia Borges é especialista em Língua Portuguesa, jornalista, professora e palestrante.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]

Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]