A Redação
Goiânia – Hoje em dia, os celulares se tornaram praticamente uma extensão de nosso corpo. Nesse novo mundo moderno, a gente usa o celular para aprender, para se comunicar, para fazer pagamentos e para tomar praticamente qualquer tipo de decisão. De comprar, investir ou assinar, tudo acontece com poucos toques na tela e de forma muito ampla, principalmente no Brasil.
As compras on-line hoje são muito mais eficientes com o nosso dia a dia, com mais inclusão, mas também trouxeram um alerta para os consumidores, que agora se preocupam com a possibilidade de os celulares estarem incentivando gastos mais intensivos sem limites. Nossa ideia neste artigo é justamente explorar como o comportamento de compras é cada vez mais móvel.
O celular como catalisador do gasto imediato
Com o avanço dos smartphones, fazer qualquer tipo de compra de produtos e serviços ficou muito mais simples. Antes, era preciso sacar dinheiro, ir até uma loja e interagir com o vendedor.
A nossa interação com a forma de fazer pagamentos mudou completamente com a chegada dos smartphones. Hoje, no Brasil, algumas estatísticas mostram que mais de 88% da população possui celular com acesso à internet, e o Brasil é um dos líderes mundiais em termos de acesso, com uma média superior de 5 horas por dia.
Na prática, isso significa que as transações financeiras acontecem na palma da mão em um ambiente repleto de estímulos o tempo todo com notificações, ofertas e recompensas visuais.
Isso tudo cria uma sensação de urgência que acaba incentivando o consumo cada vez maior e mais frequente através do celular. Dessa forma, a compra deixou de ser um evento e acaba se tornando um reflexo, algo completamente intuitivo, através da interface dos celulares, que pode ser um fator que aumenta os riscos de compulsão de jogo.
Pagamentos invisíveis e a perda da noção de valor
Além disso, os pagamentos através do celular acabam sendo parcialmente invisíveis, através do Pix, carteiras digitais, cartões de salvos e pagamentos através de um clique. Hoje, no Brasil, o Pix é o método de pagamento mais utilizado, com mais de 60 bilhões de transações no ano passado.
Mais velocidade e menos reflexão
Embora essa velocidade e a facilidade de uso sejam vantagens óbvias para o consumidor, elas também acabam reduzindo o tempo de reflexão. Ou seja, na prática, a gente acaba pensando menos antes de fazer uma compra, e isso pode levar a decisões muito impulsivas.
Ao fazer uma compra utilizando o método automático, com o fixo e o cartão salvo no celular, o nosso cérebro não processa essa informação da mesma forma que funcionava ao fazer pagamento com dinheiro ou usando um cartão.
O papel dos aplicativos no estímulo ao consumo
Os smartphones são dispositivos que não são nem um pouco neutros. Muito pelo contrário, eles são criados para manter a atenção dos usuários constantemente e oferecer estímulos visuais o tempo todo.
Na prática, ao utilizar um smartphone, a gente recebe notificações de ofertas por tempo limitado, contadores regressivos, bônus instantâneos e recompensas virtuais, praticamente todo o tempo.
Um exemplo clássico aqui são os jogos de cassino, que se apoiam muito na ideia de urgência e aproveitam os aplicativos de celular para enviar promoções instantâneas baseadas em comportamentos de usuários como, por exemplo, oferecendo um bônus de rodadas em um caça-níqueis clássicos assim que o usuário baixa o aplicativo, incentivando o usuário a se cadastrar e fazer um depósito.
Esses elementos ativam mecanismos de recompensa do cérebro, e com mais velocidade do que nunca. Em vários setores, desde e-commerce até apostas fintechs, esse design é muito potente.
Por fim, isso pode levar a que os usuários acabem gastando mais ao utilizar o celular do que gastariam para fazer uma compra similar em uma loja de física ou usando o método de pagamento mais tradicional.
Crédito fácil no bolso: conveniência ou armadilha?
Outro ponto crítico é a popularização do crédito via smartphone. Hoje, os apps oferecem parcelamento em poucos cliques, crédito pré-aprovado, limites ajustáveis em tempo real e opções de compre agora, pague depois.
Segundo dados do Banco Central, o endividamento das famílias brasileiras segue elevado, com mais de 77% das famílias endividadas em 2024, sendo o cartão de crédito um dos principais vilões. Quando o crédito está sempre disponível no celular, o risco de uso sem planejamento aumenta.
O problema não é o crédito em si, mas a ausência de atrito. Quando não há pausa para pensar, o consumo vira reação emocional.
Conclusão: consciência é o novo controle
É verdade: os smartphones estão empurrando a gente para hábitos de consumo mais rápidos, mais impulsivos e, em muitos casos, mais arriscados. Mas o outro lado da moeda também existe, e eles oferecem um monte de ferramentas de controle, se a gente souber usar.
Para o consumidor, o grande desafio é desenvolver essa consciência digital: saber onde está gastando, por que está gastando e quando é hora de parar. Para as marcas, a responsabilidade é aprender a equilibrar conversão com cuidado, sem transformar cada notificação em um empurrão para o excesso. E, para os reguladores, o trabalho é tentar acompanhar a velocidade da tecnologia sem matar a inovação no caminho.
No fim das contas, o smartphone não decide nada sozinho. Ele só cria o ambiente onde as decisões acontecem. E, em um mundo em que tudo é instantâneo, aprender a respirar fundo antes de clicar em “pagar” talvez seja um dos atos financeiros mais inteligentes que podemos ter.
