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Os quinze anos da performance arte-educativa do Ciranda da Arte

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18.06.2020 - 12:40:44
 
Goiânia – Nos anos 80 do último século, o cenário musical brasileiro foi presenteado com uma belíssima canção cuja riqueza melódica e letra constituem um exemplo de obra-prima estética e, por extensão, pedagógica. Composição de Vinícius de Moraes e Toquinho, Guido Morra e Maurízio Fabrizio, “Aquarela” parece feita sob medida para uma pedagogia arte-educativa que desenvolva no educando o senso estético. Em certo trecho da letra, os poetas escreveram sobre o futuro: “E o futuro é uma astronave/Que tentamos pilotar/Não tem tempo, nem piedade/Nem tem hora de chegar/Sem pedir licença muda a nossa vida/E depois convida a rir ou chorar”.
 
Estas palavras caracterizam uma forma poética de abordagem de uma das mais complexas realidades sensórias do ser humano: a percepção da passagem do tempo. Remete o entrecho, ainda, às considerações de Santo Agostinho sobre a fluidez do tempo e sua estrutura tripartida de passado, presente e futuro, numa perspectiva insuperável que ainda hoje empolga as mentes que se põem a conjecturar sobre o misterioso componente temporal da existência e toda a riqueza filosófica que ele encerra. No conjunto dessa riqueza, encontra-se a relação entre o belo e a filosofia, expressa pela Estética, possível de ser encontrada nas obras de arte como um todo.
 
Em sua importante obra “Iniciação à Estética”, Ariano Suassuna apresenta um panorama histórico da estética e da arte em suas amplas correlações filosóficas. Discorrendo sobre a importância da educação estética em comparação com as Ciências Naturais, afirma o escritor brasileiro: “Existe muita coisa de intelectual na criação e na fruição da Arte; existe, mesmo, uma forma de conhecimento, na Arte, mas é uma forma de conhecimento bastante diferente das que são exercidas pela Ciência e pela Filosofia: é um conhecimento poético, concreto e resultante da simples apreensão, quando a inteligência, movida pela Beleza do que apreendeu, se põe naturalmente e sem esforço a refletir sobre o que viu.”
 
As palavras de Suassuna, se projetadas sobre o ensino de arte-educação nas escolas, representariam um extraordinário avanço pedagógico para o educando de uma maneira geral, seja ele do ensino básico, fundamental ou médio, pois elas nascem da grande experiência desse escritor ao lecionar a disciplina de Estética durante muitos anos em importante universidade brasileira. Mas isto em termos de Brasil, pois em Goiás já se vivencia essa realidade há quinze anos com a prática arte-educativa do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Secretaria de Estado da Educação de Goiás, conforme pesquisas acadêmicas em arte e educação têm apontado ao longo desses três lustros.
 
Oficializado em nível institucional a partir de 2005 com a assinatura da Lei 15.255/2005, o Ciranda da Arte nasceu da iniciativa da arte-educadora Luz Marina de Alcantara. Em conjunto com um grupo de colegas idealistas do ensino de arte sob uma perspectiva mais dinâmica e pedagógica, Alcantara trabalhou ativamente para que a importância do ensino dessa disciplina fosse percebida com mais nitidez pelas autoridades educacionais que gerenciavam a educação pública goiana à época que antecedeu a formalização institucional do Ciranda da Arte. Sob direção atual da professora e musicista Eliza Rebeca Vazquez, mestra em música pela UnB, a instituição segue a performance arte-educativa de propiciar a educação estética aos alunos goianos na perspectiva das palavras de Ariano Suassuna.
 
Reconhecimento acadêmico
Os quinze anos de atividades arte-educativas do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte deixaram suas marcas. Marcia Strazzacappa, Doutora em Artes pela Universidade de Paris, escreve sobre a excelência performática dessa instituição em artigo acadêmico publicado de 2014, ressaltando que um dos fatores que respondem pelo extraordinário sucesso dessa iniciativa pioneira na educação brasileira é o fato de ser um projeto longevo, considerando-se os percalços comuns da vida administrativa no Brasil.
 
Atualmente, o percurso histórico e educativo do Ciranda da Arte se encontra sob as lentes do olhar acadêmico. Em projeto de pesquisa de mestrado submetido ao Programa de Pós-Graduação em Performances Culturais da Universidade Federal de Goiás por sua fundadora e diretora até o início deste ano, que tinha como objetivo contemplar todo o percurso institucional do Ciranda na performance arte-educativa, a excelência performática que se revelou ao longo do processo de pesquisa acadêmica propiciou algo raro num programa de Pós-Graduação. O projeto de mestrado foi alçado à condição de um projeto de doutorado pelo mérito cultural da instituição, bem como pelo histórico de sua fundadora, no campo da arte-educação.
 
Ao longo de sua pesquisa, todo o trajeto institucional pôde ser revisitado pelas vias da memória e da documentação. Na iminência de uma defesa junto à banca examinadora, a tese de doutorado se enquadra na magnífica percepção de tempo poeticamente cantada por Toquinho. O futuro chegou sem pedir licença, mudou a vida de toda uma multidão beneficiada pela performance arte-educativa cirandeira e na defesa de doutorado, certamente, há um convite a rir ante os frutos colhidos em quinze anos.
 
No infinito fluxo do tempo, tão bem percebido e descrito por Santo Agostinho em “Confissões”, que venham muitos outros anos de educação estética para gerações de goianos brindados com um projeto educativo de sucesso sob os auspícios do governo goiano, através da Seduc e do Ciranda da Arte, que serve de modelo para o Brasil, legitimado em importantes instâncias acadêmicas.
 
Gismair Martins Teixeira é Pós-Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; Doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.
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por Gismair Martins Teixeira

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