Logo

Os músicos do cinema mudo em Goiás

WhatsAppFacebookLinkedInX
18.08.2016 - 19:50:47
 
A música esteve presente desde a primeira “exibição pública” de filmes, realizada pelos irmãos Lumière, no Grand Café, em Paris, no dia 28/12/1895. A história registra que os franceses Auguste e Louis, naquele dia, iniciaram a projeção de uma série de curtas com o filme La Sortie de l´usine Lumière à Lyon (A saída da fábrica Lumière em Lyon). A história registra, ainda, que essa projeção, feita para 33 pagantes, foi acompanhada por música “ao vivo”; mais especificamente, um(a) pianista realizava improvisações ao piano enquanto observava as imagens na tela. 
 
No “período mudo” do cinema, o acompanhamento musical “ao vivo” tornou-se praxe. Segundo o jornalista brasileiro João Máximo, em A Música do Cinema – os 100 primeiros anos, nos primórdios da indústria cinematográfica, pianistas ou organistas, além dos recursos da improvisação, selecionavam temas de obras conhecidas para esse trabalho. 
 
Cabe dizer que até o surgimento das composições originalmente feitas para o cinema, importantes editoras musicais como, por exemplo, a Carl Fischer, exploraram esse mercado, compilando obras com características apropriadas para as diferentes necessidades das cenas. O catálogo dessa editora oferecia mais de mil trechos musicais para os variados “climas”: perseguições, comédias, desastres, romances etc.
 
Ao longo da década de 1910, grupos maiores foram sendo formados para essa finalidade. Assim, de acordo com o tamanho ou importância da sala de cinema, duos de piano e violino, quartetos ou até pequenas orquestras eram contratados pelos empresários da indústria cinematográfica.
 
Mas, qual seria a função da música no cinema mudo? Para João Máximo, de início, sua função não era muito clara. Para alguns profissionais da indústria cinematográfica da época, a música tinha o simples papel de abafar o barulho produzido pelo projetor. Para outros, ela ajudava a contar uma história, ou seja, era indispensável para provocar emoções relacionadas ao enredo apresentado pelo filme. E, para outros, ainda, até atuava como uma espécie de agente subliminar. O certo é que, ao longo do tempo, segue esse autor, “as duas artes (cinema e música) acabariam se interligando para, inevitavelmente, se transformarem numa terceira”.  
 
A novidade em Goiás
 
A Sétima Arte chegou ao Brasil em julho de 1896. Na Cidade de Goiás, antiga Capital do Estado, a primeira sessão pública aconteceu às 20 horas do dia 13/05/1909, conforme anúncio publicado no Jornal "O Lidador" da Diocese de Goyaz:
 
Podemos até imaginar a grandiosidade do feito realizado pela Empresa Recreio Goyano! Para termos uma ideia da novidade, valendo-nos de informações do pesquisador Eduardo Gusmão Quadros, o aparelho de projeção, anunciado no cartaz acima com o nome de “Cinematographo”, era movido à eletricidade. E, na então capital de Goyaz, de acordo com o noticiado no Jornal goiano “O Democrata”, em 06/04/1923, a energia seria instalada em 1923 e apenas nas vias públicas. 
 
O “Cinema Goyano”, como ficou conhecido o primeiro local de projeção de filmes em nosso Estado, foi fundado em 1909, pelo Major Domingos Gomes D´Almeida, um comerciante local. Funcionou, de forma ininterrupta, até 1934 e teve duas sedes. A primeira, nas dependências do conhecido Teatro São Joaquim (fundado em 1857), no Beco da Lapa. E, a partir de 1917, em prédio próprio, construído no Largo do Chafariz onde, atualmente, funciona uma agência dos Correios.

E a música nessa história?

O “Cinema Goyano”, já nos primeiros anos de funcionamento, empregava banda de música para o fundo musical de seus filmes. Isso é o que afirma a pianista e pesquisadora Belkiss Spencière Carneiro de Mendonça (1928-2005) no livro A Música em Goiás. E, falando mais especificamente sobre o funcionamento desta Sétima Arte em Goiás, já em sua segunda sede (no Largo do Chafariz), a partir de 1917, a autora esclarece que grupos formados por músicos da Banda do Exército, em sistema de rodízio, se apresentavam no local enquanto ocorriam as sessões de cinema. 
 
Posteriormente, já na década de 1920, o proprietário do “Cinema Goyano”, Major Domingos Gomes D´Almeida, optou por contratar uma orquestra liderada pela pianista Edméa Camargo (1900-1972), para a realização dos fundos musicais durante a projeção dos filmes mudos.

 

Edméa Camargo (1900-1972) aos 27 anos de idade
Foto cedida pelo compositor Fernando Cupertino

 
É importante dizer que o termo “orquestra”, nesse contexto, refere-se a um pequeno grupo musical (formado por piano, cordas e sopros) e não a uma orquestra sinfônica ou filarmônica que veio a existir em nosso Estado apenas no início da década de 1980, na cidade de Goiânia. Essas eram, de modo geral, conjuntos musicais criados, originalmente, para as funções de tocar em missas ou acompanhar cantores solistas nos tradicionais saraus e serenatas da antiga Capital.
 
Ao que tudo indica, a Orquestra que se apresentava no “Cinema Goyano”, na década de 1920, era uma continuidade do grupo vinculado ao “Club Caravana Smart”, fundado em 1914 por Maria Angélica da Costa Brandão (1880-1945), mais conhecida como Nhanhá do Couto, professora de Edméa Camargo. 
 


Nhanhá do Couto (de pé) e sua neta Belkiss Spencière
Fonte: TCC (EMAC/UFG) de Wesley Faria Araújo

 
Nesse diapasão, Belkiss Spencière Carneiro de Mendonça afirma que sua avó, Nhanhá do Couto, liderou aquele grupo a partir de 1914, no trabalho pioneiro de realização de fundos musicais durante as projeções do cinema “Luso-Brasileiro”, ano em que esta segunda sala foi inaugurada na Cidade de Goiás. A autora acrescenta que, nesta casa, de propriedade de Joaquim Guedes de Amorim, esse conjunto musical prestou serviços até 1918, apresentando um repertório formado por obras como as Abertura das Óperas Fosca, O Guarany e Alvorada, todas do compositor brasileiro Carlos Gomes (1836-1896), Cavalaria Ligeira do austríaco/croata Franz von Suppé (1819-1895), além de diversas valsas.
 
Abaixo, alguns dos nomes que passaram (em diferentes momentos), pelas duas orquestras supramencionadas. São esses os músicos pioneiros na arte de abrilhantar as sessões cinematográficas em Goiás no início do século XX:
 

Uma terceira casa de projeção de filmes, o “Cinema Iris”, foi inaugurado na Cidade de Goiás, em 1919. Foi idealizado por Geraldo Sarti e administrado por Carlos Lins. Para essa casa, que funcionou até 1923, uma nova orquestra foi criada. Inicialmente, o grupo foi dirigido pela pianista Deborah Tocantins Esteves, filha do conhecido compositor e professor do Lyceu de Goyaz, o senhor José do Patrocínio Marques Tocantins (1851-1891). Nos anos de 1922 e 1923, o conjunto foi liderado pelo também professor do Lyceu, o violinista Joaquim Édison de Camargo (1900-1966). 

 

Joaquim Édison de Camargo
Gravura: Amaury Menezes
Fonte: Facebook (Yuri Baiocchi / José PX Silveira Jr.)

Após o fechamento do “Cinema Iris”, foi aberto no mesmo local, ainda em 1923, o “Cinema Ideal”, então pertencente a um novo proprietário: Edilberto Santana. O estabelecimento funcionou até 1927, quando tinha como administradores Eugênio da Veiga Jardim e Marionito Fleury. Como já havia se tornado costume, uma nova orquestra foi formada, em 1923, para o trabalho de sonorizar a exibição de filmes. Essa foi mais uma “orquestra” que esteve sob a direção da pianista Edméa Camargo (1900-1972).

"Orquestra Ideal" em fevereiro de 1927 (ao fundo a tela do cinema)
Foto cedida pelo compositor Fernando Cupertino
Em pé: pianista Edméa Camargo ladeada pelos flautistas Armando Esteves (esq.) e Donizetti Martins de Araújo.
Sentados (da esq. para a dir.): João Ribeiro da Silva (bombardino), Antônio Valeriano da Conceição (clarineta),
Ovídio Martins (violino), Maria da Conceição Morais "Nazinha" (violino)
Júlio Alencastro Veiga (violino) e Athayde Paulo de Siqueira "Dico" (flauta).
Legenda disponível no livro A Modinha em Vila Boa de Goiás
Autora: Maria Augusta Calado de Saloma Rodrigues (p. 60).

Integraram as orquestras “Iris” e “Ideal” (de 1919 a 1927): 


Com o fechamento do “Cinema Ideal”, em 1927, a sua Orquestra não se dissolveu. Continuou a se reunir regularmente para ensaios e apresentações musicais na Cidade de Goiás, bem como em outras cidades goianas. Mais tarde, a “Orquestra Ideal”, como ficou conhecida, contou também com a participação dos violinistas: Adelaide Rocha Lima Rizzo, Nair Silva, Oyama Baylão, Euler Amorim e Hélios Amorim. 
 
Para os famosos saraus e serenatas vilaboenses, o grupo contou, ainda, com a colaboração de violonistas como Abelardo Velasco, Bernardo Albernaz, Nicanor Albernaz, Humberto Andrade, além da acordeonista Emília Mendes.
 
A partir de 1937, já na era do cinema “falado”, músicos como Nhanhá do Couto, Edméa Camargo e Joaquim Édison de Camargo transferiram-se para Goiânia. Nesta cidade, continuaram a contribuir para o crescimento da música erudita no Estado nos anos seguintes, lecionando ou dirigindo os primeiros corais e orquestras formados nas instituições de ensino da nova Capital como, por exemplo, da Escola Técnica Federal de Goiás (atual IFG), Instituto de Educação e Liceu (antigo Lyceu de Goyaz).
 
Mais especificamente sobre as “orquestras”, o pesquisador Braz Wilson Pompeu de Pina Filho, em Memória Musical de Goiânia, relata que o violinista e compositor Joaquim Edison de Camargo (1900-1966), assim que chegou a Goiânia organizou, a partir de 1938, uma pequena orquestra no Liceu de Goiânia, utilizando, inclusive, vários músicos de sua antiga orquestra da Cidade de Goiás, entre eles o flautista Donizetti Martins de Araújo e os violinistas Ovídio Martins de Araújo e Júlio Alencastro Veiga. 
 
Finalizando, vale mencionar que, recentemente, apresentei o trabalho Imagens da Orquestra Filarmônica de Goiás: uma breve retrospectiva no VI Colóquio de História e Imagens da Faculdade de História da UFG. Esse texto, publicado nos Anais do Evento (clique aqui para ler), contempla a luta pela implantação e manutenção de uma orquestra erudita de grande porte em Goiânia, podendo ser considerado como continuidade da história dos primeiros grupos musicais da antiga capital de Goiás. 

Leia também:

O Lyceu de Goyaz e a música

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. [email protected]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]