Logo

Os direitos autorais e a proteção do autor

WhatsAppFacebookLinkedInX
08.12.2025 - 10:46:04

Sabe-se que os direitos autorais asseguram ao criador a exclusividade de reprodução, distribuição e adaptação de sua obra, protegendo produções literárias, musicais, artísticas, cinematográficas e científicas.

A Lei nº 9.610/98, conhecida como “Lei de Direitos Autorais”, disciplina tais prerrogativas e dispõe, em seu artigo 7º, que “são obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro.”

Observa-se que o legislador, ao empregar a expressão “criações do espírito”, evidencia desde logo o caráter moral da proteção, ampliando-o ao prever que a tutela incide sobre qualquer forma de expressão, inclusive suportes futuros, demonstrando sensibilidade à evolução tecnológica — aspecto que se mostra ainda mais relevante nos dias atuais.

Com o intuito de resguardar integralmente os direitos dos autores, a legislação confere tanto direitos morais quanto patrimoniais, dedicando capítulo próprio a cada categoria. Os direitos morais vinculam-se diretamente à personalidade do criador, sua honra, reputação e relação existencial com a obra. Já os direitos patrimoniais permitem a exploração econômica da criação, viabilizando sua cessão ou transferência total ou parcial, gratuita ou onerosa, o que possibilita sua circulação na sociedade.

A título exemplificativo, os incisos III2 e IV3 do artigo 24 da Lei de Direitos Autorais asseguram ao autor o direito de manter a obra inédita e o de preservar a sua integridade, impedindo modificações que possam deformá-la ou descaracterizá-la.

Nesse contexto, tornou-se emblemático o caso ocorrido em 2014, quando a escritora Patricia Engel Secco, com apoio do Ministério da Cultura, propôs substituir palavras consideradas “difíceis” ou “estranhas” nas obras de Machado de Assis e José de Alencar por sinônimos que, em tese, facilitariam a leitura por jovens.

A iniciativa, chamada de “adaptação”, gerou ampla polêmica. Em meu entendimento, tal proposta viola diretamente os direitos morais assegurados pela legislação, especialmente os que garantem a integridade da obra. A Lei nº 9.610/98 é clara ao determinar que a obra deve ser conservada em sua forma original, sendo vedadas alterações que afetem sua autenticidade.

A advogada Eliane Y. Abrão, especialista em Propriedade Industrial e autora da obra “Direitos do Autor e Direitos Conexos”, leciona que “Adaptar uma obra, na linguagem autoral, é transformá-la em outra, de gênero diferente. Por exemplo, a utilização de texto literário para a linguagem cinematográfica é a adaptação da linguagem escrita para a linguagem falada, dialogada, encenada, necessária à realização do filme.”

Sendo assim, as adaptações genuínas preservam os traços essenciais da obra e mantêm suas frases originais, o que não ocorreria com a substituição de expressões sugerida no projeto – razão pela qual não se poderia considerá-lo uma verdadeira adaptação.

A controvérsia gerada pelo episódio evidencia que, embora seja legítimo buscar formas de ampliar o acesso à cultura e promover inclusão, tais iniciativas devem respeitar os limites impostos pelos direitos autorais. É possível conciliar evolução social e tecnológica com a preservação da essência das obras, desde que se mantenha sua integridade e se assegure a proteção moral do autor.

*Julia Moreira Alves é acadêmica de Direito

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Júlia Moreira Alves

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]