Atualizada às 9h30.
José Cácio Júnior,
Com Agência Estado
Embora represente menos de um terço no Senado Federal, a oposição por pouco não conseguiu as 27 assinaturas necessárias para criar Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as denúncias de desvio de dinheiro público no Ministro dos Transportes.
Ontem, os senadores chegaram a conseguir as assinaturas, mas no final da noite foram informados por líderes governistas d a desistência de João Durval (PDT-BA), o que inviabilizou a criação do colegiado.
A denúncia veio à tona após reportagem da revista Veja mostrar que o PR, partido que comandava o Ministério dos Transportes, cobrar 4% de comissão de toda verba que era liberada pela pasta. O depoimento do senador Alfredo Nascimento (PR-AM), ex-ministro dos Transportes, um dos primeiros a cair depois do escândalo, acelerou a coleta de assinaturas para a criação da CPI.
O clima no Senado depois da sucessão de denúncias é de "um ambiente tenso", explica a senadora Lúcia Vânia (PSDB), presidente da Comissão de Infraestrutura da Casa. "O ex-ministro deu visibilidade às coisas erradas que aconteceram, como as rodovias não concluídas e o alto custo das obras."
Por meio de sua assessoria de imprensa, o senador Cyro Miranda (PSDB) espera que o governo federal dê liberdade à Casa para investigar as denúncias. "Agora nós vamos ver qual é a verdadeira intenção do governo. Espero que seja uma CPI transparente e que o governo não a transforme em pizza."
O senador Demóstenes Torres (DEM) não foi encontrado para comentar o caso.
Desalojado do primeiro escalão federal, os senadores do PR ameaçam deixar a base do governo federal, pois perderam sua principal pasta.
Além das 15 assinaturas dos senadores do PSDB e DEM, o líder tucano no Senado, senador Álvaro Dias (PSDB-PR) contou com a adesão de parlamentares de postura independente na Casa, como Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), Pedro Simon (PMDB-RS), Roberto Requião (PMDB-PR) e Ferraço. Da base aliada, também avalizaram a CPI três senadores do PDT e o senador Sérgio Petecão (PMN-AC).
Reação
O risco de instalação da CPI preocupa a presidente Dilma Rousseff. Na tentativa de contornar o descontentamento da base, a presidente deve se reunir hoje com o Conselho Político, formado por presidentes e líderes de partidos da coalizão.
Além de Durval, a oposição havia conseguido nas últimas horas do dia o apoio dos senadores Reditário Cassol (PP-RO), suplente de Ivo Cassol, Ricardo Ferraço (PMDB-ES), e Zezé Perrela (PDT-MG). No total, dez senadores da base haviam assinado o requerimento da CPI.
O requerimento foi encaminhado à Secretaria-Geral da Mesa do Senado para conferência das assinaturas. Se os 27 forem conseguidos hoje, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) – ou qualquer senador que esteja interinamente na presidência do plenário – terá que fazer a leitura do documento. A partir dessa leitura, o Planalto tem até meia-noite para conseguir retirar as assinaturas.
A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, conversou ontem à noite com a presidente sobre os problemas de uma eventual CPI. O comentário, no Planalto, é que ninguém sabe o que está por vir. Auxiliares de Dilma temem que a oposição, comandada pelo PSDB, consiga angariar apoio dos insatisfeitos e dê início a uma “guerra de dossiês”.