Com a discussão acalorada que ocorre nos últimos tempos sobre o “velho” e o “novo” na política, exacerbada pela disputa da presidência do senado brasileiro, vale a pena indagar: seria sempre o “novo” melhor que o “velho”? Ou, melhor ainda, alguém “novo” seria um inovador? Nos parece que vale a pena enfatizar a distinção entre os conceitos.
Inicialmente, vamos contextualizar: Renan Calheiros foi derrotado na corrida ao cargo de presidente de senado, marcado como representante da “velha política”, viciada e incapaz de trazer benefícios à Administração Publica. Foi eleito para o cargo, após um verdadeiro show de horrores protagonizado pelos senadores, Davi Alcolumbre, representante da “nova política”, alguém que traria nova face às ações do senado.
Nada mais equivocado. Alcolumbre não tem nada de “novo”: investigado por mal feitos, a única novidade em Alcolumbre é o seu nome. Ninguém jamais tinha ouvido falar dele fora de Brasília (e talvez nem mesmo lá). Contudo ele foi apoiado pelo novo Ministro da Casa Civil, concretizando assim a sua chegada a presidência da casa.
Contudo, uma coisa é certa: não se espere inovação em suas ações. Para Lynn, a inovação no governo estaria devidamente definida como uma transformação fundamental, disruptiva e original das tarefas essenciais da organização. No entendimento deste autor, a inovação muda estruturas profundas, modificando-as permanentemente. Alguém, em sã consciência, espera que o “novo” presidente do senado se encaixe nesta descrição?
O autor Henry Mintzberg, em sua clássica obra “O Processo da Estratégia”, argumenta que mudar uma visão ou uma estrutura sem mudar mais nada é tolo, apenas um gesto vazio. Em outras palavras, onde quer que você intervenha nessa equação, tem que mudar tudo que está embaixo. Alcolumbre claramente não tem a intenção de mudar estrutura ou trazer uma nova visão na Administração Publica. Ele é apenas um instrumento em uma ação, até o momento, descoordenada e caótica da nova gestão. Descoordenada, pois ele não era a escolha prioritária de outro ministro influente do novo governo, Paulo Guedes (este optara pelo “velho” Renan).
Vejamos como outro país, referência para a nova gestão, enfrenta a questão? Nos Estados Unidos da América, os congressistas “novos” são chamados de backbenchers (em tradução literal, banco de trás) pois não assumem o protagonismo das ações do congresso (por esta razão ficam posicionados nas ultimas fileiras).
Aos congressistas “velhos” são reservadas as posições privilegiadas, e as ações relevantes partem destes atores. A experiência acumulada por estes congressistas ao longo das legislaturas é apreciada e colocada em posição de destaque. Muitas condutas inovadoras, inclusive, partem das proposições dos “velhos” políticos. Aos “novos” resta observar e aguardar a sua oportunidade. Se forem reeleitos, os “novos” vão galgando as fileiras do congresso, chegando paulatinamente às cadeiras da frente do congresso. Como podemos ver, lá o “velho” é melhor que o “novo”.
Em razão de uma cultura totalmente distinta e da perpetuação do patrimonialismo, no Brasil os “velhos” congressistas não encarados sempre como a “pior” alternativa. Sua experiência em temas administrativos não é considerada e o político “novo”, mesmo com pouca experiência e pouco trato com assuntos legislativos, é a escolha da população.
Cabe aqui um pequeno comentário sobre a política de nomeação dos novos ministros: para atender demandas de grupos que o apoiaram durante a campanha, o presidente adota o discurso do “novo” contra o “velho”. Contudo, ao assim o fazer, ele desvirtua a política de trocas (legítimas) entre o Palácio do Planalto e o Congresso, causando um previsível desgaste em votações vindouras de projetos de interesse do governo. Ao agraciar o discurso da famosa bancada BBB (Bala-Biblia-Boi) em detrimento dos anseios dos partidos políticos, a nova gestão se coloca em posição de risco em projetos de relevante interesse nacional. Alguém tem que avisar que a campanha já terminou…