Logo
Gustavo Jorge Magalhães (Foto: divulgação)

O valor de respirar bem

WhatsAppFacebookLinkedInX
06.06.2026 - 15:00:15

Durante muito tempo, falar em rinoplastia era falar apenas sobre estética. A cirurgia do nariz ficou associada à ideia de transformação visual, quase sempre guiada por padrões de beleza que atravessaram décadas, novelas, capas de revistas e, mais recentemente, filtros das redes sociais. Mas existe uma discussão importante ganhando espaço fora dos consultórios e ela começa, literalmente, pelo ar.

O Brasil lidera o ranking mundial de rinoplastias, com mais de 102 mil procedimentos realizados, segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery. Ao mesmo tempo, cerca de 30% da população brasileira convive com rinite, de acordo com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. Os números ajudam a explicar por que cada vez mais pacientes chegam aos especialistas não apenas querendo mudar a aparência, mas tentando resolver dificuldades respiratórias que afetam sono, disposição e bem-estar.

Respirar mal costuma ser normalizado. Muita gente aprende a conviver com o sono ruim, cansaço frequente, boca seca ao acordar e sensação constante de nariz entupido sem imaginar que existe um problema estrutural por trás disso. Em períodos de clima seco, como os enfrentados em boa parte do país, os sintomas se intensificam e escancaram uma realidade silenciosa.

O caso recente da influenciadora Rafaella Justus ajudou a ampliar esse debate. Ao revelar que precisou passar por uma nova rinoplastia para corrigir uma alteração que comprometia sua respiração, ela trouxe visibilidade a uma questão que costuma ficar escondida atrás da estética. E talvez esse seja o ponto mais importante dessa conversa.

Existe uma diferença enorme entre buscar um padrão e buscar conforto. A rinoplastia moderna começa justamente a abandonar a lógica do “nariz perfeito” para priorizar harmonia, função e individualidade. Não por acaso, muitos pacientes que operaram nas décadas passadas em busca de afinamentos extremos agora retornam aos consultórios tentando recuperar não apenas a naturalidade do rosto, mas também a capacidade de respirar adequadamente.

Isso não significa transformar a cirurgia em solução banal ou tendência indiscriminada. Pelo contrário. O crescimento dos procedimentos exige ainda mais responsabilidade, avaliação médica rigorosa e informação de qualidade. Não existe idade máxima para operar, mas existem condições clínicas que precisam ser consideradas. Da mesma forma, pacientes jovens precisam ter o crescimento facial adequadamente avaliado antes de qualquer indicação.

No fim das contas, a discussão sobre rinoplastia talvez diga menos sobre aparência e mais sobre saúde. Respirar bem interfere na concentração, no humor, no rendimento físico e até nas relações sociais. E quando um procedimento consegue unir função e autoestima sem apagar a identidade de quem está diante do espelho, ele deixa de representar apenas uma mudança externa.

*Gustavo Jorge Magalhães é médico otorrinolaringologista, especialista em rinoplastia e implantes cocleares

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gustavo Jorge Magalhães

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]