Logo

O tempo de um homem que passeia

WhatsAppFacebookLinkedInX
01.06.2019 - 08:24:00

Me considero um privilegiado. Vivo e trabalho com aquilo que amo. Música, cinema, arte, quadrinhos, estudo, literatura, educação. É daí que arranco meu sustento. 
 
Nunca fui muito bom em ganhar dinheiro. Me dedicar profissionalmente àquilo que gosto foi um meio de atalhar o caminho em busca da sempre volátil felicidade. Me ocupando de algo ao mesmo tempo realizador e prazeroso, não preciso naufragar no poço sem fundo do consumismo. Não dá para reclamar. O que não quer dizer que seja fácil.
 
Para viver assim em Goiânia, Goiás, Brasil, é preciso ser ninja. Um trocado aqui, outro acolá. Burocracias infinitas ao lidar com editais e concursos. Trabalho, trabalho e mais trabalho. Correria infinita, noites mal dormidas, cansaço que parece crônico. Procuro ficar atento àquilo que disse o filósofo sul-coreano Byung Chul-Han: “Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”.
 
O que me falta? Tempo e tranquilidade. Inclusive para digerir e fruir de maneira mais plena as coisas que faço. Meu “sonho de consumo” consiste numa cadeira na praia, debaixo de um guarda-sol, para ficar ali, sentado, sem fazer absolutamente nada, a não ser olhar o movimento do mar. Vale também uma casinha no campo, observando árvores, vegetação. Sem ansiedade ou aquele sentimento opressor de culpa por não estar “fazendo nada”.  
 
Tal busca por uma existência mais simples, leve e contemplativa é também a matéria-prima de “O homem que passeia”, mangá de Jiro Taniguchi que retorna às livrarias em nova impressão da editora Devir.  
 
Um pequeno parêntese para os não iniciados: mangá é o nome que as histórias em quadrinhos têm no Japão. Ao contrário dos Estados Unidos – e nosso eternamente colonizado Brasil –, lá as HQs não são entendidas como produto infantil, mas como um meio de comunicação capaz de lidar com quaisquer temas, para quaisquer faixas etárias. É o maior mercado do planeta. 
 
Em “O homem que passeia” não encontraremos monstros, robôs gigantes, alienígenas, raio laser, porradaria, superpoderes. O livro de 244 páginas traz tão somente as livres e singelas caminhadas de seu protagonista. 
 
Apesar de negar a formulação de uma filosofia da caminhada, na prática é isso que a HQ de Taniguchi oferece – de forma poética e sublime. Em entrevista ao escritor e cineasta Jean-Philippe Toussaint, o autor pontua que “dentre as ações cotidianas dos seres humanos, a caminhada é a mais natural”. Uma experiência que se aprofunda na medida em que não possui meta, finalidade ou tempo determinados de antemão.
 
A caminhada proposta pelo mangaká é o inverso daquela a que estamos acostumados a ver pelas ruas: gente apressada, fones de ouvido, olhos colados no chão – ou nas telas dos celulares. Uma caminhada aberta ao mundo e à vida, atenta a pequenos detalhes – que podem se revelar grandes maravilhas –, localizada no diâmetro oposto da alienação individualista que o capitalismo contemporâneo nos impõe. Caminhada como possibilidade de encontro – com a natureza, com o outro, consigo mesmo. E, portanto, como resistência a um sistema que não nos deixa escapar do pesadelo da produtividade sem tréguas. 
 
A beleza do traço de Taniguchi (falecido em 2017) amplifica a experiência de “O homem que passeia”. Sua linha clara e precisa, prenhe de toda a tradição do mangá, bebe também em águas europeias. A influência de Moebius – outro poeta da contemplação gráfica – se faz notar, ainda que passe longe de obscurecer a identidade do artista. 
 
Os capítulos/passeios se alternam no uso de retículas e aguadas. A exceção fica para o final da obra, desenhada em sólido nanquim preto, sem meios-tons, como a nos lembrar que mesmo quando buscamos serenidade, a vida pode nos atropelar com perdas e melancolia.
 
Além da entrevista concedida a Toussaint, a edição da Devir traz ainda um prefácio do antropólogo-pop Hermano Vianna. O pecado fica por conta de converterem as poucas (e belas) páginas em cores aquareladas do original para o preto e branco – o que parece ser regra na coleção Tsuru, exclusivamente dedicada a mangás. Nem por isso “O homem que passeia” deixa de ser indispensável. 
 
A recente leitura da HQ de Taniguchi fez ressurgir em mim as reflexões acerca do tempo. Desde o golpe de 2016 e as eleições de 2018, elas estavam adormecidas. Algo mais urgente havia tomado seu lugar: a sobrevivência. Mas depois eu penso nisso. Agora, me basta dar uma volta pela vizinhança.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]