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O Silêncio do Céu

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27.03.2017 - 09:31:42
Goiânia – Quando se trata de Martin Scorsese, o gênero de filmes de gângsteres é relembrado por boa parte dos cinéfilos, não à toa, visto que a habilidade e a quantidade de filmes que retratam este viés são marcantes em sua carreira. Silêncio (2016), seu filme recente, destoa destas características e, por isso mesmo, pode desagradar aos seus fãs mais radicais. Scorsese arquiteta um retrato magistral que engloba fé e apostasia (ato de renunciar a fé). Trata-se de um projeto íntimo que demorou mais de vinte anos para ser realizado. 
 
Como base para a confecção desta obra, Scorsese se apoiou no romance do escritor japonês Shusaku Endo, o qual Masahiro Shinoda, figura emblemática da Nuberu Bagu, movimento que sucedeu ao período do cinema clássico nipônico, filmou no princípio da década de 1970. A literatura que embasa o filme é riquíssima e é possível vislumbrar semelhanças com o romance do escritor Níkos Kazantzákis, cuja obra Scorsese adaptou brilhantemente em A Última Tentação de Cristo (1988). 
 
O pano de fundo aborda os primeiros passos dos jesuítas que se adentraram em solo nipônico em 1549 e que atingiram grande força no começo de 1600. A missão dos padres era a de catequizar e converter o povo para angariar novos seguidores. No fundo, o mote desta empreitada abarca questões intrínsecas ao próprio engrandecimento do catolicismo. É neste contexto que, em Portugal, no século XVII, é noticiada aos membros jesuítas que o missionário Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), instalado no Japão, abdicou-se de sua fé. Com o intuito de checar a informação, os padres devotos Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) se embrenham em uma jornada que promove um desconforto gritante derivado do choque cultural.
 
A intolerância praticada pela inquisição nipônica é demonstrada por uma atrocidade descomunal na força da violência que é escancarada quando casas são invadidas para que se vasculhe a existência de quaisquer objetos religiosos que remetam ao catolicismo. Os atos hostis eclodem em cenas de decapitações e torturas. Uma viagem a um mundo desconhecido, literalmente uma descida ao inferno, uma vez que os atos mais abjetos são de uma crueldade absurda, em que não há espaço para o respeito às diferenças. 
 
O budismo é o norte e deve ser a única forma religiosa a ser professada segundo os senhores feudais e detentores do poder. A palavra que pode converter determinada fatia da população se torna cada vez mais em uma tarefa conturbada, visto que a força bruta almeja dissipar aquilo que vai de encontro às tradições milenares japonesas, à medida que os senhores feudais locais – os xoguns – passam a vislumbrar o catolicismo como uma ameaça à segurança nacional. Resistir em sua fé católica ou renegá-la para permanecer vivo e salvar vidas, eis um dilema recorrente e que se passa durante a película. Praticar apostasia é um ato que demanda um grande sacrifício e resignação.
 
A utopia da compreensão e do respeito mútuo e o abismo existente entre diferentes formas de expressões religiosas. Tudo em nome de uma atitude mantenedora de poder, do status quo, em que a barbárie serve como pretexto para dizimar o que afronta crenças estabelecidas e, ao mesmo tempo, a tentativa dos jesuítas de se impor, de se tentar passar por cima de uma cultura e costumes já consolidados. Não é fácil mensurar ou julgar os atos de cada um dos lados, mas uma coisa é certa, nada justifica as atrocidades dos japoneses. Em dado momento, o padre Rodrigues questiona o silêncio do céu, ou seja, o silêncio de Deus perante ao caos e à tristeza instaurados. Entra em cena uma temática bergmaniana por excelência no tocante ao questionamento divino.
 
A parcimônia de grandes mestres orientais é o fio condutor e uma marca da indelével qualidade com a qual Scorsese tece sua sóbria narrativa oposta ao ritmo frenético de parte de sua obra. O texto valoroso é o mote para Scorsese desfilar suas qualidades inerentes e reafirmar a beleza dos longos planos por meio de uma fotografia estonteante que corrobora um talento singular do mestre em sua perícia técnica incrível. Sua recente filmografia demonstra certa fragilidade e irregularidade, todavia Silêncio, apesar de não estar à altura dos seus grandes filmes, é ótimo e representa um ponto fora da curva em relação a seus últimos trabalhos, alçando Scorsese a um patamar do qual jamais deveria ter saído. Seu melhor filme desde Cassino (1995).
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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