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O racismo nosso de cada dia

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30.08.2014 - 08:19:17

 

As imagens divulgadas que mostram a torcida do Grêmio ofendendo o goleiro do Santos são reveladoras da contradição que é nosso racismo. Ao lado dos criminosos que imitam macacos para o jogador alvinegro, vemos negros. A imagem não permite afirmar se estava também próximo, mas imagino que não muito longe se localizava a ignóbil garota que grita “macaco” ao arqueiro. É de embrulhar o estômago. E é para refletirmos.
 
Sobre as consequências, não tenho a menor dúvida acerca do que deve ser feito. Identificar e punir os racistas, se possível com cadeia, e cobrar a responsabilidade que a legislação imputa ao clube gaúcho. Simples assim. Devem sentir o peso da lei para que, antes de tudo, sirvam de exemplo para outros estúpidos que povoam os estádios brasileiros. Não acredito que suas concepções abjetas de mundo irão mudar, mas quem sabe um tempo atrás das grades favoreça uma reavaliação de comportamento. Vai saber.
 
O que me intriga é a motivação que leva alguém a ofender um jogador tendo a etnia como princípio. Detalhe: ao lado na arquibancada de um torcedor também negro. Não consigo entender.
 
Nosso racismo sempre foi escamoteado, diferente do explícito norte-americano. Por anos achei que a experiência nos Estados Unidos era menos pior, por ao menos ser sincera. Não penso mais assim. Li há alguns anos uma entrevista de Caetano Veloso onde ele me fez rever os conceitos. O compositor baiano disse que prefere morar em um país onde o racista ao menos se sinta constrangido de se assumir como tal e não tenha coragem de publicamente manifestar preconceito. Concordei com ele e, nesse sentido, acredito que a experiência brasileira é mais bem sucedida que a ianque.
 
Por outro lado, considero inimaginável alguém chamar um atleta negro de macaco em um evento esportivo com negros em volta nos Estados Unidos. Existiria constrangimento. Não foi o que aconteceu em Porto Alegre. E não me pergunte o porquê, pois eu não faço a menor ideia da resposta.
 
Nem vou entrar naquilo que todos sabemos, da mesma raiz genética do ser humano, na construção multiétnica brasileira, no quanto de desgraças na história essa separação causou (e ainda causa). Até os racistas sabem disso. Por qual razão não mudam de comportamento, deixo as respostas com os estudiosos do comportamento humano.
 
É triste perceber que embora exista um discurso cada vez mais difundido por tolerância, respeito à diversidade, ainda temos que conviver com a irracionalidade em sua forma mais vil.
 
Ainda temos um longo caminho a percorrer para vivermos em uma sociedade mais humana no sentido amplo do termo tal qual sonhamos.
 
It's a long and widing road, exatamente como os Beatles nos ensinaram.
 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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