Ludymila Siqueira
Goiânia – O tema da segurança pública está entre os principais debates e preocupações na vida dos brasileiros nos últimos anos. Na última pesquisa divulgada pela Genial/Quaest, em 14 de agosto, 33% dos 2.004 entrevistados apontaram a violência como o maior problema do País. Na sequência, aparecem economia (15%), saúde (14%) e corrupção (14%).
Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado no dia 23 do mês passado, mostram que o Brasil registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025. Nessa categoria, estão incluídas vítimas de homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais, em serviço e fora dele.
Os números revelam uma taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes e uma redução de 8,2% em comparação com 2024. Mesmo com a redução das mortes violentas intencionais, sete unidades da federação registraram aumento nessa categoria. São elas: Rio Grande do Norte, Rondônia, Acre, Roraima, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro.
Em contrapartida, o avanço das facções criminosas, os crimes virtuais e a violência contra mulheres e crianças têm desafiado as forças de segurança de todo o País. Para se ter uma ideia, o estelionato, aplicado principalmente por meio digital, teve um aumento de 2,7% em relação a 2024. Foram 225 golpes por hora no ano passado e mais de dois milhões de BOs registrados nas delegacias.
A preocupação com a criminalidade também está presente em Goiás, mesmo com a queda dos indicadores criminais apresentados tanto pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-GO) quanto pelo Fórum Brasileiro. Segundo os números, o Estado tem conseguido se consolidar como um dos mais seguros do País nos últimos anos, com reduções significativas nas mortes violentas, nos roubos de celulares, veículos e cargas, além de roubos a casas e propriedades rurais. O território goiano registrou aumento apenas nos crimes que ainda desafiam as forças de segurança, como é o caso dos crimes digitais e também da violência contra a mulher e do feminicídio.
Conforme dados de pesquisa Genial/Quaest, divulgada com dados de Goiás em julho deste ano, a segurança pública é a área mais bem avaliada no Estado, com 70% de aprovação, seguida por educação e atração de empresas, ambas com 64%. Neste sentido, a pauta se torna ainda mais relevante e presente nos debates dos candidatos ao Palácio das Esmeraldas nas eleições de outubro deste ano. Em relação ao Brasil, o medo da violência esteve como a maior preocupação dos brasileiros, com 33%.
Na última semana, o jornal A Redação promoveu uma série de sabatinas com os candidatos Daniel Vilela (MDB), Luciana Amorim (UP), Luis César Bueno (PT), Marconi Perillo (PSDB) e Wilder Morais (PL). A pauta da segurança pública esteve presente nas falas de todos os governadoriáveis. A reportagem não conseguiu contato com o candidato Danilo Pinheiro (PCO) e, por esta razão, ele não participou da rodada de entrevistas.
Em ordem alfabética, confira o que os governadoriáveis entrevistados pelo jornal A Redação dizem sobre suas propostas para a segurança pública em Goiás:
Daniel Vilela — candidato à reeleição pelo MDB
Sucessor de Ronaldo Caiado e filho de Maguito Vilela, Daniel Vilela tem a segurança pública como uma das principais bandeiras de sua campanha. O resultado da pesquisa Quaest/TV Anhanguera, divulgada na quinta-feira (27), aponta que o emedebista registrou uma aprovação de 64% no Estado, mesmo percentual registrado na Genial/Quaest, divulgada em julho, que mostrou a segurança pública como a área de maior aprovação da gestão, com 70%. O resultado está relacionado, especialmente, aos baixos índices criminais em Goiás apresentados tanto pela SSP quanto por fóruns especializados no tema. Vale destacar que ele assumiu o Executivo goiano em 31 de março, quando Caiado se desincompatibilizou do governo para consolidar sua candidatura à Presidência da República pelo PSD.
Nas propostas de governo apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Daniel Vilela reserva à segurança pública frentes principais. Uma é intitulada “Trânsito Seguro Goiás: Mais Prevenção, Menos Acidentes” e parte do diagnóstico de que os acidentes de trânsito seguem causando perdas de vidas, lesões e altos custos sociais no Estado. Para reduzir esses números, o plano prevê a implementação da Política Estadual de Segurança no Trânsito, integrando educação, fiscalização, engenharia de tráfego e tecnologia, com ações que incluem a ampliação de campanhas educativas, a melhoria da sinalização e o uso de inteligência de dados para identificar e reduzir os principais fatores de risco nas rodovias e vias urbanas.
Outra frente, “Segurança Presente: Interiorização e Capilaridade da Segurança Pública”, busca ampliar a presença das forças de segurança em todas as regiões de Goiás, garantindo padrões equivalentes de atendimento, tecnologia e capacidade operacional entre capital e interior. A proposta prevê a expansão do policiamento, do Corpo de Bombeiros Militar, da Polícia Científica, da Polícia Penal e dos serviços aeromédicos, além de investimentos em equipamentos e modernização de unidades operacionais, com o objetivo de reduzir o tempo de resposta às ocorrências, especialmente fora da capital. Já o programa “Juventude Protegida: Prevenção da Violência e Geração de Oportunidades” propõe uma abordagem que vai além da repressão ao crime, combinando ações de segurança pública, educação, assistência social, esporte, cultura e qualificação profissional para afastar crianças, adolescentes e jovens da violência, das drogas e da criminalidade, com prioridade para os territórios e públicos mais vulneráveis.
O plano também inclui o “Escudo Digital Goiás: Proteção Contra Golpes Eletrônicos e Crimes Cibernéticos”, voltado ao enfrentamento de um problema crescente em todo o País: os golpes eletrônicos e crimes cibernéticos, que atingem principalmente idosos, aposentados, pequenos empreendedores e usuários de serviços digitais. O programa prevê o fortalecimento da Polícia Civil e da Polícia Científica em perícia digital, a ampliação das delegacias especializadas e o uso de tecnologia para rastrear ativos e acelerar investigações de fraudes eletrônicas, com ações de educação digital integradas ao programa Cidadão 60+ e parcerias com instituições financeiras e empresas de tecnologia.
Como compromissos de destaque, o candidato ressalta o projeto IA Contra o Crime, que já está em utilização em municípios do Entorno do Distrito Federal e deve ser expandido para todo o Estado. A proposta parte do diagnóstico de que o crime evoluiu e a segurança pública precisa acompanhar essa transformação. Nesse sentido, o foco é ampliar o uso da inteligência artificial para tornar a atuação das forças de segurança mais rápida, precisa e eficiente. Entre as ações previstas estão a expansão do videomonitoramento inteligente com uso de inteligência artificial, a análise de dados e o reconhecimento de padrões para antecipar crimes e identificar situações de risco, além da localização mais rápida de foragidos e criminosos. O plano também prevê apoio tecnológico às investigações e ao combate a organizações criminosas, integração entre as forças de segurança e sistemas de apoio à decisão, e mais agilidade e eficiência no combate à criminalidade. Segundo o plano, essas medidas devem ampliar a proteção da população, aumentar a eficiência nas investigações, reduzir o espaço para a criminalidade e posicionar Goiás como referência nacional no uso de tecnologia e inteligência artificial aplicada à segurança pública.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
“Goiás se consolida como referência nacional no que se trata de segurança pública. Os recentes dados criminais comprovam a redução em praticamente todos os crimes em Goiás. No entanto, não podemos parar no tempo; é preciso seguir adiante, sempre pensando em avançar e melhorar. Hoje, contamos com ferramentas tecnológicas que auxiliam as forças de segurança na celeridade da resolução de crimes. O que antes demorava horas ou até dias pode ser resolvido em questão de minutos por meio de identificação e monitoramento”, diz. “Além disso, é importante ressaltar a inteligência operacional da polícia goiana, e vamos continuar valorizando os nossos policiais, fazendo com que tenhamos o melhor armamento, investindo em inteligência e garantindo o controle dos presídios. Nesse sentido, nosso foco é continuar sendo o Estado mais seguro, não só no policiamento, mas também na ampliação de políticas públicas e oportunidades na educação dos jovens goianos. Sem dúvida, é uma das prioridades do nosso governo”, completa Daniel Vilela.
Luciana Amorim — candidata ao governo de Goiás pelo UP
A professora Luciana Amorim, que é candidata ao governo pelo partido Unidade Popular, traz em seu plano de governo reformas na área da segurança pública. Um dos pontos defendidos é o uso de câmeras nas fardas, além da desmilitarização da Polícia Militar (PM). O documento apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também prevê interromper o processo de militarização das Guardas Civis Metropolitanas e a divulgação de dados relacionados às ocorrências atendidas pelas polícias, incluindo o perfil das pessoas envolvidas. Outros pontos incluem a melhoria das condições carcerárias, voltada à reintegração do indivíduo encarcerado à sociedade.

(Foto: Sabrina Schreiner/ A Redação)
“A desmilitarização não significa o fim da corporação, mas é preciso que existam mecanismos em que possamos fazer esse controle social da polícia. Já conversei com diversas pessoas e, quando falamos sobre isso, percebemos que a população tem medo da polícia. As pessoas que estão no bairro da periferia, elas têm medo”, afirma Luciana Amorim.
Luis César Bueno — candidato ao governo pelo PT
Candidato do PT, Luis César Bueno defende, em suas propostas de governo, o combate ao crime organizado e também às novas formas de crimes, como o estelionato digital e os golpes via internet. O petista reserva, em seu plano, a promessa de redução mínima indicativa de 20% na taxa de homicídios em quatro anos, condicionada a uma linha de base auditada no início do mandato, além da meta de ampliar em pelo menos 50% a população prisional inserida em programas de trabalho ou educação.
Luis César também propõe câmeras corporais e, nesse sentido, o plano prevê não uma implantação imediata em todo o Estado, mas um projeto-piloto em unidades com maior exposição a ocorrências de alto contato, seguido de avaliação independente após 12 meses, antes de qualquer expansão. A medida segue a Norma Técnica SENASP nº 014/2024 e prevê garantias como criptografia, cadeia de custódia e vedação à edição ou ao uso político das imagens.
O plano também trata a segurança do Entorno do Distrito Federal como uma política regional própria, com agenda permanente de cooperação operacional e de inteligência entre Goiás, o DF e forças federais. Na zona rural, prevê patrulhamento georreferenciado, com mapeamento dos vazios de cobertura policial no campo, com foco no combate a furtos e roubos de máquinas, insumos e produção agrícola, pauta sensível para a base eleitoral ligada ao agronegócio em Goiás.

(Foto: Sabrina Schreiner/ A Redação )
Outro ponto é o uso de inteligência artificial condicionado à governança, à auditoria e à proteção de dados, o que diferencia a proposta de planos que tratam a tecnologia como solução automática para o combate ao crime. No enfrentamento ao crime organizado, o plano prioriza a desarticulação financeira das facções, com recuperação de ativos, combate à lavagem de dinheiro e a empresas usadas para ocultar patrimônio, além de ações contra o comando criminoso exercido de dentro das unidades prisionais.
“O combate ao crime em Goiás precisa acompanhar a mudança no perfil da criminalidade. Roubos e veículos perderam a relevância para as organizações criminosas. O que vemos agora é uma crescente nos crimes digitais. Nesse sentido, nós precisamos combater o crime no andar de cima, onde ele consegue montar estruturas de financiamento do tráfico de drogas”, declara.
Marconi Perillo — candidato pelo PSDB
As propostas apresentadas pelo ex-governador Marconi Perillo ao TSE partem do diagnóstico de que a segurança pública é uma das responsabilidades essenciais do Estado. Segundo o documento, Goiás precisa preservar os avanços já alcançados no enfrentamento da criminalidade e, ao mesmo tempo, se preparar para desafios cada vez mais complexos, como a atuação do crime organizado, o avanço dos crimes cibernéticos e das fraudes digitais.
Entre os compromissos apresentados está a orientação da política estadual de segurança para a proteção da vida, a prevenção da violência e a redução dos crimes que mais afetam a população, usando análise territorial para direcionar recursos e identificar concentrações de violência. O plano também prevê ampliar a capacidade de inteligência das forças estaduais no combate a organizações criminosas, tráfico de drogas, crimes patrimoniais estruturados e lavagem de dinheiro, fortalecendo a investigação financeira e o Comando de Operações de Divisas, responsável pela fiscalização nas áreas estratégicas de entrada e saída do Estado.
Outro eixo é a modernização da Polícia Civil e da Polícia Científica, ampliando as capacidades de investigação, perícia e análise criminal, com incorporação de tecnologia para dar mais agilidade e precisão aos exames periciais. O documento também promete garantir presença efetiva das forças de segurança em todo o território goiano, com a realização de concursos públicos para recompor e ampliar os efetivos, priorizando localidades sem policiamento permanente e considerando critérios como população, indicadores de criminalidade e vulnerabilidades locais.
O plano dedica um compromisso específico à valorização dos profissionais de segurança pública, prevendo revisão dos critérios de promoção e progressão nas carreiras, uma política permanente de valorização remuneratória, com atenção ao cumprimento de datas-base, e atenção à saúde física e mental dos servidores.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
“É preciso pensar na valorização dos servidores da segurança pública. Se não houver investimentos pesados na valorização destes servidores e se não for instituído um processo de modernização crescente, principalmente com o uso das novas tecnologias, vamos ter um problema sério para enfrentar nos próximos anos”, defende o tucano.
Wilder Morais — candidato pelo PL
Candidato do PL, Wilder Morais destaca em suas propostas que a melhora da segurança é uma conquista concreta, mas ainda incompleta. Entre as ações para preservar os avanços estão a definição de metas por território e a auditoria para impedir subnotificação, a organização de plantões regionais noturnos e de fim de semana conforme o mapa real de ocorrências e o aprimoramento do registro digital de golpes e fraudes, orientando a vítima a acionar imediatamente sua instituição financeira. O plano prevê a criação do programa “Goiás sem Golpe Digital”, com acompanhamento do encaminhamento dos casos e publicação do tempo de triagem, perícia e valores bloqueados ou recuperados, além de uma cobertura compartilhada de cibersegurança para órgãos estaduais e municípios aderentes.
Também estão previstos o reforço da proteção contra deepfakes, montagens íntimas, perseguição digital e exploração de crianças; a ampliação das equipes especializadas em violência contra a mulher, facções, roubo de carga, crime no campo e delitos ambientais; e a definição de prazos públicos para perícias, priorizando homicídios, crimes sexuais, desaparecimentos e violência repetida. O plano prevê ainda a integração de câmeras e leitores de placas em corredores estratégicos, com regras de acesso e auditoria; o fortalecimento do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil e da segurança no trânsito; e a ampliação da cobertura regional da Patrulha Maria da Penha e da segurança rural, com prazos de primeira providência e resultados publicados.
O plano ainda prevê planejamento do efetivo, com calendário de concursos e reposição contínua das aposentadorias, critérios claros de promoção, incentivos por metas de redução de crime verificadas por território e assistência jurídica institucional ao profissional por atos praticados em serviço. Também está previsto o cuidado com a saúde mental dos profissionais.
O documento também propõe a integração de registros, imagens e bases policiais para acelerar a busca por pessoas desaparecidas, com prioridade para casos envolvendo crianças, idosos, pessoas com deficiência ou risco de violência, além de operações permanentes de inteligência nas rotas de fronteira e divisa do Estado, com foco no combate ao tráfico e ao roubo de cargas.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
“Precisamos reconhecer que a segurança pública melhorou muito no Estado nos últimos anos. No entanto, ainda tem muita coisa a ser feita. Podemos ter toda a tecnologia que quisermos, mas não é ela que vai prender o criminoso. É necessário ter um plano estratégico para repor e ampliar a força de segurança, e um pouco disso está na regionalização e também na realização de novos concursos”, declara.