Goiânia – Quanto de preconceito há na fala espontânea de uma criança? Fiquei pensando nisso durante horas em busca de respostas. Sim, respostas, pois acredito que não há somente uma resposta para esta questão. O que me suscitou este questionamento foi um fato ocorrido em um supermercado do bairro onde moro.
Uma senhora embalava as suas compras ladeada por dois adolescentes e por uma criança de cerca de quatro anos. Eu aguardava que a atendente terminasse de registrar as minhas compras quando, de repente, a criança virou pra mãe e falou: “Que cabelo mais feio!” com a convicção de quem vem sendo doutrinado há tempos para falar aquilo.
Na hora, a surpresa daquela fala, mediante a convicção da criança, bateu em mim como um tapa na cara e não consegui reagir. Apenas olhei-a fixamente, imóvel. A mãe imediatamente pegou no braço da criança e a repreendeu, dizendo que isso não se faz e que não era aquilo que ela tinha ensinado em casa. Falou outras coisas que não consegui ouvir, pois saíram de perto de mim. Continuei imóvel. Por fim, após a criança chorar um bocado, eles se foram. Peguei minhas compras e fui embora sem olhar para trás.
Sou afrodescendente e tenho cabelo crespo. Ao final de 2013 decidi, mais uma vez, usá-los ao natural, contrariando muitas opiniões por aí. Não sigo moda, sigo minhas vontades. Mudo o jeito do cabelo quando quero. Já percebi/senti muitas manifestações de preconceito com relação ao meu cabelo crespo.
A maioria delas de forma indireta – um olhar enviesado, uma carinha de nojo, um olhar fixo de galhofa, uma vontade de pegar pra ver se a textura é de palha de aço, um comentário acerca da chuva, entre várias outras – mas nenhuma me abalou como a desta criança. Não por ter sido direta, mas por que não consegui reagir tamanho o impacto que senti ao perceber, na fala daquela criança, todo o preconceito que ainda está embutido na sociedade e que vem sendo perpetuado dia após dia nas escolas, nas famílias, nos relacionamentos.
Perpetuado sim, e o pior, veladamente, para que ninguém seja chamado de racista, sexista, homofóbico ou coisa similar, quando manifestar seus preconceitos. Acredito que, em alguns casos, a manutenção de uma atitude ou opinião preconceituosa pode até ser inconsciente. Podendo funcionar até mesmo como se fosse uma forma de proteger o alvo do preconceito de futuras situações desagradáveis.
Venho de família humilde e onde nunca houve discussão acerca das minhas raízes, de forma positiva ou negativa. Minha mãe mantinha meu cabelo grande, esticado ou preso em tranças. Pensava que assim era mais fácil cuidar. Só conheci meu verdadeiro cabelo na adolescência.
Nas escolas por onde passei também nunca houve discussão acerca do tema, sejam pro bem ou pro mal. Na universidade, inicialmente, foi a mesma situação. Depois as coisas foram mudando, os diferentes foram aparecendo. E o fato de conviver há mais de 20 anos em um ambiente plural, uma universidade pública, que está cada vez mais recebendo representantes dos mais diferentes tipos que a sociedade tem, ajudou-me a moldar meu caráter.
Não sou perfeita, também me pego às vezes com algum pensamento preconceituoso, por isso me incluo no título que dei a este artigo. Talvez seja um ranço de séculos, e que ainda sobrevive na cultura brasileira, de opressão ao diferente. No entanto, eu, por acreditar sinceramente que o respeito deve ser o ponto de partida da nossa convivência em sociedade, quando tenho algum pensamento do tipo, de pronto busco eliminá-lo.
Mas, e esta criança? E aquela família? E todas as outras que ainda convivem diariamente com este ranço? Depois que o choque inicial passou, pus-me a pensar em todas
estas questões e a única conclusão a que cheguei é a de que ainda temos muito que evoluir.

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Rose Mendes é jornalista e bibliotecária.