Logo

O Parquinho

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.03.2026 - 11:14:59

Era uma vez um parquinho colorido, barulhento, cheio de criança correndo, gritando, vivendo e, havia nesse parquinho, um sujeito estranho. Ficava parado no canto, observando, os pais notaram, as mães notaram, todo mundo sabia que havia algo de errado com aquele homem de olhos fundos e sorriso torto.

O caso chegou às autoridades.

E a solução foi imediata, corajosa e definitiva: proibiram as crianças de entrar no parquinho.

Depois, por via das dúvidas, também as proibiram de entrar nos restaurantes, nos cinemas, nos fliperamas, nos parques aquáticos, nas bibliotecas, nos shoppings. E em qualquer lugar onde houvesse telas, luz artificial ou conexão com o mundo.

O homem de olhos fundos? Ah, ele pode ficar. Desde que assine um termo.

Essa fábula absurda tem um nome oficial: Lei nº 15.100/2025, carinhosamente batizada de Lei FELCA (Fora Exposição, Lixo e Conteúdo Abusivo). Sancionada em março de 2025 e com implementação progressiva em curso, a lei proíbe o acesso de crianças e adolescentes menores de 14 anos às redes sociais — e impõe restrições severas até os 16.

A intenção declarada é nobre: proteger crianças da exploração on-line, do assédio, da pornografia, dos predadores digitais. Ninguém é contra isso. O problema está na arquitetura da solução.

A lei foi ao parquinho. Expulsou as crianças. E deixou o estranho.

O que a lei faz — e o que ela evita fazer

A FELCA obriga as plataformas a verificarem a idade dos usuários, a bloquearem contas infantis e a restringirem o acesso de menores de 16 anos a uma série de funcionalidades. Multas milionárias para quem descumprir.

O que ela não faz é responsabilizar criminosos com a mesma energia. Não cria mecanismos robustos de identificação e punição de predadores que já estão nessas plataformas. Não exige que as big techs entreguem dados de suspeitos com a mesma urgência com que são obrigadas a bloquear perfis de adolescentes. Não endurece penas de forma proporcional. Não financia investigação digital especializada nas polícias estaduais.

Em outras palavras: correu atrás de quem não tem culpa e andou devagar atrás de quem tem.

A criança virou o problema

Há uma perversidade estrutural nesse modelo de proteção que merece ser nomeada: quando o Estado decide proteger a criança retirando-a do espaço público em vez de expulsar o agressor, ele está, implicitamente, culpando a presença da vítima pelo crime.

É a lógica do toque de recolher. É a lógica do não saia de casa à noite. É a lógica de sempre.

A criança que usa redes sociais para se comunicar com amigos, para fazer pesquisa escolar, para assistir a tutoriais, para participar de comunidades de interesse — essa criança existia antes da lei e continuará existindo depois dela. A diferença é que agora ela vai fazer tudo isso de forma clandestina, sem supervisão, sem suporte das plataformas, e potencialmente mais vulnerável do que antes.

O predador, por sua vez, continuará no parquinho. Com um perfil adulto falso. Como sempre fez.

Tecnologia com CPF, não com tutela

Não se trata de ser contra a proteção infantil, trata-se de perguntar se bloquear é proteger — ou se é apenas a solução mais barata, mais visível e mais confortável para o Estado.

Proteger crianças on-line exige letramento digital nas escolas. Exige que pais tenham ferramentas reais de acompanhamento, não apenas a ilusão de que o filho não tem conta. Exige que plataformas respondam com celeridade a denúncias de abuso. Exige que delegacias especializadas existam fora de Goiânia, do Rio e de São Paulo.

Exige, acima de tudo, que o foco seja o agressor — não a vítima.

O parquinho ficou vazio. As crianças foram mandadas para casa. O estranho ainda está lá, no canto, observando.

E o governo bateu palma para si mesmo pela coragem da medida.

Ralph Rangel é especialista em Psicologia e o Desenvolvimento Infantil e é especialista em Neurociência. Foi Secretário Executivo de Ciências, Inovação e Tecnologia no Município de Goiânia e foi Superintendente na Secretaria de Educação, Cultura e Esporte do Estado de Goiás.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Ralph Rangel

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]