Logo

O Paradoxo da (In)Dependência

WhatsAppFacebookLinkedInX
28.01.2025 - 10:15:32


Diagrama de uma bicicleta (Fonte: Dias de Solitude)
 
Acho que já disse isso de outra forma por aqui, mas uma das coisas que me angustia no compromisso de ter que escrever toda semana é a obrigação de sempre ter algo a dizer. Não me entenda errado: eu preciso escrever toda semana por motivos de saúde mental. Não há nada mais importante para mim. 
 
Ainda assim, de outro lado, vivemos em um mundo com excesso de informações e de opiniões. É preciso saber o que está acontecendo, seja na guerra política, seja na vida das celebridades. E é necessário ter opinião ou, mais que isso, uma sentença para cada fato, cada gesto, cada fala, de forma a que o mundo permaneça ordenado, entre certo e errado, entre bom e mau, entre nós e eles. É cansativo.
 
Nasci com um defeito que é, ao mesmo tempo, uma benção: eu sempre acho que estou errado. Isso me faz com frequência ficar calado, ou ao menos esperar mais um pouco, pensar outra vez, tentar entender melhor. Com isso, perco o timing mais do que falo na hora certa, mas raramente dou bom dia a cavalo. 
 
Há várias coisas que têm me interessado e tomado meus pensamentos, mas sinto que merecem mais atenção e reflexão. Não quero falar delas já. Mas escrever então sobre o quê? É possível compor um texto e ao mesmo tempo ficar em silêncio? Talvez a poesia seja mais ou menos isso?
 
É possível sim andar de lado. Abandonar, por ora, a corrente principal das inquietações e explorar suas margens ou seus tributários. Quem sabe formar alguma opinião, inspirado por Manoel de Barros, sobre coisas desimportantes. Deixar de lado o último discurso do Trump, os deportados que chegaram, o Deepseek e a queda da Nvidia, a delação do Mauro Cid, a fala do Lula de ontem, a Débora Bloch como Odete Roitman, o Oscar que vai salvar nosso país.
 
Ontem, por exemplo, notei que o pneu dianteiro da minha bicicleta está furado. É realmente algo desimportante, inclusive porque há meses não ando de bicicleta. Mas basta começar a pensar sobre o pneu para ver como a vida e o mundo inteiro vêm.
 
Sobre esse pneu, eu poderia consertá-lo. Tenho o remendo e a cola. Mas dá trabalho desmontar e montar e depois tornar a inflá-lo com a bomba manual. Toma tempo, dói o braço e, vez ou outra, o remendo não fica bom e é preciso refazê-lo.
 
É mais fácil, em tese, levá-lo ao borracheiro. Basta tirá-lo, botar no carro, dirigir, chegar à borracharia e pedir ao moço: “O senhor pode remendar esse pneu?”. Tenho que pagar 10 reais. Se fizer a conta, o tempo gasto acaba sendo mais ou menos o mesmo, mas a qualidade do conserto é mais garantida. Além disso, no braço, a gente nunca infla o pneu do tanto que é ideal.
 
O pneu e a roda e todo o funcionamento da bicicleta contêm inúmeros mistérios e me fazem pensar sobre minha infinita dependência e falta de autonomia. 
 
Afinal, eu não sei extrair látex, processá-lo e fazer uma câmara de ar e um pneu. É bom que o seringueiro e a Pirelli o façam porque, se precisasse, eu gastaria a vida inteira e não conseguiria fazer um único pneu. Seria necessário aprender a identificar uma seringueira, ir à floresta, evitando as onças, precisaria descobrir como sangrar a árvore da forma correta. Teria antes que ver a questão da ferramenta usada. Se eu precisasse fabricar esse instrumento, aí já seriam duas vidas. 
 
Pergunto ao Deepseek aqui qual a ferramenta usada para extrair látex, e ele me ensina que é conhecida como “faca de seringa", basicamente uma ferramenta de lâmina curva para favorecer o corte do tronco no ângulo correto. Nesse caso, portanto, eu precisaria aprender a minerar ferro e também o ofício de ferreiro ou, pior ainda, planejar uma usina siderúrgica e depois uma metalurgia, além de descobrir que madeira dá bom cabo e aprender a cortá-la. Se eu não tivesse o Deepseek ou o ChatGPT pra perguntar essas coisas, o tempo então seria incalculável.
 
Inventados a siderurgia e a metalurgia é fabricada a faca, identificada a seringueira, e depois de sobreviver às onças, à malária e à febre amarela, eu extrairia o látex. Precisaria então aprender como fazer ele virar borracha de fato e como se molda um pneu, o que envolve também aço, para a malha, e plástico, para o bico. Mais máquinas, eletricidade, componentes químicos e agora petróleo. Mais minerais e mais engenharia. E eu não entendo nada disso. Me formei em Geografia, que  só serve pra gente desenhar uns mapas bonitos.
 
Enfim, se eu ficasse sozinho no mundo, parece que teria sérios problemas. Não saberia nem plantar arroz e nunca conseguiria matar uma vaca pra fazer bife. 
 
Por isso, meu pai sempre chamava atenção para o fato de que o índio sabe fazer tudo o que precisa para viver (Krenak falou que posso falar “índio”, que não precisa falar “indígena", mas que também pode falar indígena se quiser). O índio sabe pescar, construir casa, plantar – ou pelo menos sabia. Por isso, interessante, o índio tem tempo pra se preocupar com coisas desimportantes, como o vento, o inseto, a lua, o buriti, a lagoa. 
 
E isso nos coloca um paradoxo: quanto mais a gente pode contar com toda uma imensa e complexa rede sociotécnica para nos oferecer facilidades e conforto para a vida, menos tempo a gente tem. Mas por quê? A conta não fecha. 
 
O índio não depende de ninguém e tem tempo. O branco que depende do seringueiro, da Pirelli, da Usiminas e da Petrobras para remendar um mísero pneu de bicicleta, e que pode delegar essa tarefa ao borracheiro, não tem tempo pra nada e vive ansioso e assoberbado, e aí ainda passa a depender do terapeuta e da farmacêutica que fabrica seu ansiolítico. Estranho.
 
Deve ser por isso que o índio enxerga tudo sempre ao contrário da gente e não entende direito por que a gente asfalta a rua pra andar rápido e depois põe quebra mola pra andar devagar.
 
Enfim, questões desimportantes, como se vê. E acabei falando demais.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Curadoria Afetiva
01.11.2026
Zen Vergonha

Peço licença para me apropriar do título do podcast da destemida, Fernanda Lima que tem como principal objetivo falar de assuntos sem tabus ou constrangimentos e que, no meu caso e nesse texto específico, serviu como uma luva. Para início de conversa indicarei a série alemã, “Assassino Zen” (2024), disponível na Netflix, cuja segunda temporada […]

Noite e Dia
30.10.2026
Prêmio Fieg de Inovação 2026 reconhece projetos que impulsionam a indústria goiana

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) anunciou, na última quarta-feira (28/10), os vencedores do Prêmio Fieg de Inovação 2026. A cerimônia, realizada no Centro de Convenções de Goiânia durante a programação da Expoind 2026, reconheceu projetos que contribuem para o desenvolvimento da indústria goiana por meio de novas […]

Joias do Centro
30.10.2026
Maria Fumaça nº 11 é símbolo da chegada do progresso a Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Entre os marcos da Estrada de Ferro de Goiás, as locomotivas estão entre os mais representativos. Por meio delas, o progresso chegou ao Estado e, consequentemente, à nova capital. Bem no Centro de Goiânia está um dos símbolos deste tempo, a Antiga Estação Ferroviária, que guarda uma peça que chama a […]

Meia Palavra
28.10.2026
‘Carrie’ renova clássico sem perder o espírito original

Olá, sumidos. Nada mais adequado para a semana do Dia do Saci do que falar da nova encarnação de Carrie, a Estranha, agora uma série da Prime Video feita por Mike Flanagan, de Missa da Meia-Noite e outros sucessos do terror recente. Já renovada para a segunda temporada, isso, por si só, já deve informar […]

Noite e Dia
27.10.2026
Jardim Potrich celebra o aniversário de Goiânia com yoga e sabores do Cerrado; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em comemoração ao aniversário de Goiânia, o Jardim Potrich realizou, no último sábado (24/10), uma experiência que uniu yoga, alimentação saudável e valorização da biodiversidade do Cerrado, convidando o público a celebrar a cidade por meio do cuidado com o corpo, a mente e os sentidos. A programação contemplou uma aula […]

Noite e Dia
26.10.2026
População comemora aniversário de Goiânia no tradicional desfile cívico; veja galeria de fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia comemorou seus 93 anos, no último sábado (24/10), com a realização do tradicional desfile cívico-militar na Avenida 24 de Outubro, no Setor Campinas. A programação, realizada durante a manhã, reuniu mais de 1,2 mil participantes e marcou as celebrações pelo aniversário da capital goiana. O prefeito Sandro Mabel e a vice-prefeita […]

Curadoria afetiva
25.10.2026
Equilíbrio

“A Anitta fez um curta musical que é um dos maiores acontecimentos do ano. Equilibrivm I-II tem 35 minutos. Acho que uma boa maneira de resumi-lo é dizer que ele é uma grande homenagem à cultura brasileira, feito com muito cuidado e respeito. A pesquisa visual do projeto vai fundo em três pilares. Primeiro, as […]

Joias do Centro
23.10.2026
Goiânia em nove capítulos: marcas que ajudam a contar a história da capital

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia nasceu de um projeto de modernização, ganhou forma entre avenidas largas e edifícios de linhas geométricas e, ao longo de nove décadas, construiu uma identidade que ultrapassa os limites de seu plano original. A capital que completa 93 anos neste sábado (24/10) guarda, em suas ruas, praças, monumentos e instituições, […]