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O Pão Nosso

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19.06.2017 - 09:24:17
Goiânia – Em uma época dominada pela castração criativa e mantenedora de uma identidade padronizada subsidiada pela influência nociva do algoritmo do gosto de empresas que lidam com vídeo on demand, retornar a um glorioso passado é um exercício essencial a qualquer amante do cinema, um ato de resistência diante de uma realidade que parece tragar aquilo que resta de dignidade no meio cinematográfico. Há muitos grandes filmes e diretores eclipsados por uma máquina voraz que pouco se importa de fato com as idiossincrasias pressupostas por uma arte verdadeiramente honesta.
 
É um embate quase impenetrável visto que a força do capital se sobrepõe cada vez mais em relação ao conteúdo, à estética e aos nomes fundamentais da sétima arte. King Vidor é um dos maiores diretores de Hollywood e me parece ser muito subestimado ou até mesmo pouco conhecido, mesmo entre muitos cinéfilos. Em O Pão Nosso (1934), uma de suas obras-primas, teve de, após receber um não da MGM, sob o pretexto de se tratar de um filme muito realista para um grande estúdio, em um ato de amor incomum pelo cinema, hipotecar sua casa e realizar empréstimos para financiar sua obra. À época, Hollywood produzia filmes pautados pela diversão, musicais ou escapistas.
 
De uma força que irrompe a cada plano construído com um zelo impressionante, surge uma estonteante fotografia em preto e branco que insere os personagens em um contexto sombrio referente ao período da grande depressão americana de 1929. John (Tom Keene) e Mary (Karen Morley) são um jovem casal urbano que se aventura na criação de uma fazenda comunitária com outros alijados pelo sistema. O retumbante humanismo que emerge da obra de King Vidor possui uma força inacreditável concomitantemente a um realismo robusto que reforça a necessidade de perpetuar os laços humanos. O sangue que pulsa nas veias pulula e rege as ações dos personagens para que cada um exerça um determinado papel em prol de um bem comum.
 
Uma história com um teor emocional extremamente contundente e que reforça a necessidade de inserir o fator humano e o espírito colaboracionista. Há um viés tipicamente socialista, como uma espécie de um épico soviético, apesar de não haver nada que faça alusão a partidos políticos. A narrativa prima por algo que perpassa a cisão inerente a eles e vislumbra a coesão dos seres humanos. O irrealismo margeia a obra de caráter extremamente realista que disseca as agruras provindas de uma grave crise econômica, mas ao mesmo tempo esta possível coexistência pacífica parece ser inatingível.
 
É impressionante como King Vidor consegue arrebatar o expectador e extrair, por meio de sua rica composição de imagens e uma encenação primorosa, o máximo de seus atores em cena. Um cinema contundente e influenciador de tantos outros, como Roberto Rossellini, um dos nomes essenciais da sétima arte. O prolífico diretor americano merece ser (re) descoberto e representa um óasis em meio a tantos filmes medíocres atuais contaminados pela padronização castradora de ideias e que os transformam em meros instrumentos com a finalidade de angariar dinheiro fácil. A força da sequência final que apresenta a construção do canal de irrigação é um dos momentos mais sublimes da história e remete à construção do sino em Andrei Rublev (1966), de Andrei Tarkovski. A arte de Vidor é dominada pela paixão e demonstra que, mesmo em tempos sombrios, resgatar o fator humano através de uma centelha de esperança é possível.
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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