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O Medo Devora a Alma

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16.01.2017 - 09:06:00

Goiânia – Blackstar, o canto do cisne de David Bowie lançado dois dias antes de sua morte, no início de 2016, é um prelúdio infindável para os dissabores provindos do ano passado. O álbum é permeado por uma melancolia inenarrável e representa bem o que foi o último ano, em distintas áreas, e principalmente nas artes e no cinema. Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni faleceram em 2007 e, desde então, não me recordo de tantas mortes tão acachapantes quanto às ocorridas no ano que se passou.
Os gigantes Jacques Rivette, Michael Cimino, Abbas Kiarostami e Andrea Tonacci, diretores em que a genialidade irrompia a cada filme, atingiram a imortalidade e logo após morreram, assim como os ótimos Ettore Scola, Andrzej Zulawski e Hector Babenco, nomes importantíssimos para a sétima arte.
 
A sucessão de mortes ocorridas deixa-me imerso em constantes pensamentos e temeroso quanto ao futuro do cinema, visto que daqui a 15 ou 20 anos, provavelmente, não haverá remanescentes desta geração de grandes cineastas. Cimino, por exemplo, faz parte da Nova Hollywood, movimento surgido ao final dos anos 60, e que renovou o cinema clássico com uma geração extremamente talentosa.
 
Recentemente, assisti ao belo documentário Cinema Novo, dirigido por Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, o maior diretor da história do Brasil e um dos maiores do mundo. Ao final da projeção, a nostalgia brotou fortemente ao constatar que aquela geração talentosíssima do movimento em questão não existe mais e que o cinema brasileiro precisa se renovar urgentemente. Há diretores talentosos como Beto Brant – o melhor atualmente -, Marco Dutra e Kléber Mendonça Filho, provavelmente possa ter me esquecido de um ou outro, mas são diretores que não realizaram uma obra-prima sequer.
 
Os grandes filmes brasileiros do século, em sua maioria, foram realizados por diretores da “velha guarda” como os falecidos Rogério Sganzerla, Eduardo Coutinho, Andrea Tonacci – italiano, mas de alma brasileira -, Paulo César Saraceni e Carlos Reichenbach. Felizmente, Júlio Bressane permanece muito ativo e lançando grandes filmes com uma frequência muito regular, como no seu penúltimo e maravilhoso longa – Garoto (2015) -, um misto entre Straub e Godard, que segundo o crítico Filipe Furtado é “o mais essencial filme brasileiro desde sempre”. A ansiedade pela oportunidade de ver Beduíno (2016) cresce a cada dia.
 
Em relação ao cinema americano, grande parte está pautado pelas guloseimas comerciais como uma fonte inesgotável de fonte de renda aos grandes estúdios. Contemplação, indignação e transcendência, princípios fundamentais defendidos por Ermanno Olmi – um dos meus diretores italianos favoritos -, parecem ser cada vez mais artigos de luxo, o que empobrece Hollywood de modo avassalador, promovendo uma enxurrada de filmes anódinos e remakes desnecessários.
 
Ainda há resistência e obras relevantes, mas os grandes filmes atuais são cada vez menos vistos, uma vez que grande parte do público se doutrinou com esta maldita mania de streaming com seus catálogos questionáveis e insuficientes de empresas que lidam com video on demand, que programam as pessoas para aceitarem tão pouco, enquanto as possibilidades são tão vastas.
 
James Gray é, possivelmente, o grande nome do cinema americano surgido nos últimos vinte e poucos anos e um nome na contramão do cinema estabelecido. Sua obra é de extrema relevância artística e, certamente, será mais reconhecida com o passar dos anos, mas infelizmente está destinada a um seleto grupo de cinéfilos. Gray é a esperança de dias melhores para o cinema hollywoodiano, entretanto ainda não vejo uma geração como aquela emblemática do período de renovação do cinema clássico. O tempo em seu irrefreável movimento tratará de colocar os pingos nos is; sinceramente, anseio estar equivocado com meu desalento.
 
 
 
 

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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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