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O jornalismo morreu

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18.01.2015 - 08:46:17


Zurique – Sempre tive orgulho da minha profissão e fiz tudo pra manter minha liberdade de pensar, agir, falar, escrever. Mas ultimamente tenho pensado em jogar meu diploma no lixo, o computador no fundo do lago, virar professora de meditação, benzedeira ou fazer bolos pra vender. Qualquer coisa que não mexa com jornais, nem com a atualidade.

Quer dizer que vocês acreditam mesmo no que lêem nos jornais? Quer dizer que vocês ligam a televisão para se informar? Para saber o que "acontece" no mundo? E depois ainda debater, brigar, discutir nas redes sociais? O que é isso gente?! O jornalismo morreu! O que se vê e se lê hoje nos jornais é apenas fruto do marketing das grandes corporações, dos lobistas, da propaganda política, partidária ou não, da construção de um discurso cada vez mais racista, xenófobo, eurocentrista e machista, defensor dos interesses de várias máfias, das do petróleo a das construtoras.

Aliás, todas elas trabalham em parceria. Há muito tempo, não é mais possível separar o capital legal do capital ilegal. O dinheiro do tráfico de drogas e de armas é investido em bancos, hoteis, universidades, cadeias de restaurantes gourmet, empresas de turismo, boutiques de luxo, tudo junto e misturado! E isso não é opinião, é informação. Recebida há quase 20 anos do Observatório Internacional do Tráfico de Drogas de Paris, baseada em pesquisas, reportagens e estatísticas.

A imprensa nunca foi neutra, mas piorou muito nos últimos anos, depois da crise econômica na Europa e nos Estados Unidos. Principalmente por causa da queda do número de assinantes, a diminuição da receita de publicidade e da quantidade de anunciantes e a concorrência da mídia digital. O mínimo de liberdade, garantido antigamente pela diversidade de anunciantes, desapareceu completamente, ficando cada vez mais dependente do grande capital e da verba publicitária dos governos e corporações. Hoje os meios de comunicação tradicionais são meros depositários do trabalho de assessores de imprensa, empresas de relação pública e de marketing.

Até um dos jornais mais sérios e respeitados da Europa, o Neue Zürcher Zeitung, rendeu- se recentemente ao capital do milionário e líder do partido de extrema direita da Suíça, Christoph Blocher. Seu editor chefe foi demitido e como sucessor foi indicado o homem de confiaça do empresário Blocher. Estamos vivendo uma tentativa de tomada de poder por partidos de extrema direita em vários países, uma radicalização do debate político e o aumento de repressão policial. Além disso, percebo uma grave diminuição das liberdades infividuais, através da manipulação dos meios de comunicação e de informações acumuladas e estrategicamente espalhadas pela internet, como Snowden não cansa de nos prevenir.

Acorda gente! Ou vocês realmente acham que o maior problema mundial hoje são os muçulmanos, como todos os jornais nos últimos dias nos fazem crer? Quer dizer que a morte de um traficante na Indonésia é mais importante do que as centenas de adolescentes negros mortos no Brasil pela polícia sem nenhum julgamento? Do que os homossexuais assassinados diariamente? Ou as mulheres mortas diariamente na fronteira do México? As sistematicamente agredidas, violentadas, estupradas em todo o mundo?

Será que você realmente acha que a polícia no Rio de Janeiro bate para se defender? Que um menino de 11 anos foi morto por que representava um perigo? Que não existe perigo maior no mundo do que o terrorismo islâmico? Que ele é o único existente? Que os atentados em Paris representam uma verdadeira ameaça à liberdade de expressão? Acredita que não existam outras centenas e milhares de vítimas diárias da opressão dos mesmos chefes de Estado que clamam na TV por justiça e liberdade? Que o tráfico de armas e o financiamento de grupos terroristas no mundo inteiro não é uma das estratégias mais conhecidas dos serviços secretos dos países do ocidente? Vocês realmente acreditam no que dizem os jornais?

Chega de hipocrisia! Desliga a televisão, conversa com o vizinho, com o motorista de táxi, com o porteiro do prédio, com o dono do restaurante, com o garçom, com seu médico, com o professor do seu filho, com o feirante, conversa olho-no-olho, abre um livro, questiona o que lê nos jornais, viaja para o interior ou para o exterior, mas sem tirar fotos, sem selfie, sem instagram, se possível sem celular, leva um bloco para anotar ideias, tenta descobrir o mundo, mas com os próprios olhos e pensa, pensa muito, em qual mundo gostaria de viver e o que você pode fazer para chegarmos lá.

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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